Leilão de baterias enfrenta corrida contra o tempo no setor elétrico

Os leilões de reserva de capacidade de baterias de grande porte, marcados para o início de dezembro, já chegam com atraso para o sistema elétrico brasileiro e impõem uma corrida para colocar as novas tecnologias em funcionamento até agosto de 2028. O prazo apertado, necessário para mitigar riscos mapeados por reguladores, ainda enfrenta a possibilidade de adiamento caso o Congresso altere a legislação para mudar a divisão dos custos dos sistemas de armazenamento. O cronograma foi descrito como “agressivo”, mas alcançável, por participantes do evento “Reset Conecta: Transição Energética — Baterias em grande escala: o Brasil entra no jogo”, realizado na semana passada, em São Paulo, com patrocínio do Bradesco. As baterias vêm para dar mais flexibilidade ao sistema elétrico nacional, que na última década expandiu a geração de energias renováveis intermitentes, como solar e eólica, o ponto de sobrar energia em alguns horários e faltar em outros. A implementação de um sistema de armazenamento pode demorar entre 12 e 24 meses, segundo Fabio Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae). “O cronograma é apertado, fruto do fato de que o leilão tinha que ter acontecido no primeiro semestre”, disse. A contratação de baterias de grande escala era esperada pelo setor elétrico desde 2023, mas atrasos do governo empurraram os certames para dezembro. Serão dois leilões: um para projetos com conteúdo nacional, no dia 2, e outro sem essa exigência, no dia 4. Alexandre Gouveia, coordenador do roadmap regulatório dos sistemas de armazenamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), destacou que parte do desafio vem da introdução de uma tecnologia nova, que exigiu dos reguladores definir como mensurar e precificar a flexibilidade no sistema. “Todo o cronograma foi agressivo”, disse Gouveia, lembrando que a Aneel teve que analisar cerca de duas mil contribuições na consulta pública do edital em pouco tempo. “Mas é um tema que já vem sendo discutido há muito tempo, e não há como desviar da urgência para o sistema.” Empresas que pretendem participar do leilão vêm fechando pré-contratos com fornecedores para começar a tocar os projetos assim que o resultado dos certames estiver disponível. Na visão de participantes do evento, isso pode beneficiar players maiores e mais acostumados com leilões públicos. A Axia, por exemplo, já tem projetos de bateria com licença prévia, segundo ​Robson Campos, vice-presidente de engenharia e projetos da empresa. “Esse trabalho começa muito antes. A gente não espera assinar o contrato de concessão, que demora meses, para avançar”, afirmou. Outros possíveis desafios estão na fabricação e logística, pois a dimensão e peso dos equipamentos exigem adaptações de transporte. Nelson Stanisci, diretor de armazenamento de energia da BYD Brasil, lembrou que é preciso haver alinhamento entre entregas e projetos. “A bateria é um item que não pode ser estocado por muitos meses, ou ela começa a degradar. Então esses prazos têm que ser muito bem casados”, disse. A necessidade do leilão O Brasil não enfrenta um problema de falta de energia. O que falta é capacidade de entregá-la na hora em que o consumo é maior — o que o setor chama de potência. No cenário atual, sobra energia nos horários de maior produção solar, durante o dia, e o sistema fica apertado no fim da tarde, quando o consumo aumenta ao mesmo tempo em que a produção solar cai. Esse descompasso gera riscos para o sistema como um todo. Em 2023, falhas decorrentes do excesso de energia gerada durante o dia causaram um apagão. Também exige cortes na produção de usinas renováveis, o chamado curtailment, que causam prejuízos bilionários para empresas do setor e travam novos investimentos. Os sistemas de armazenamento permitem guardar energia de um horário para o outro, aumentando a potência nos períodos necessários e dando flexibilidade ao sistema como um todo. Em seu planejamento, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) vê risco de o sistema ter déficit de potência além do limite regulatório a partir de 2027, e em níveis críticos em 2028. Quando falta potência, pode faltar energia em horários de maior demanda. A Absae estima que o Brasil pode sofrer um déficit de potência de 4,5 GW em 2028. O volume a ser contratado pelo leilão de baterias é estimado pelo mercado em até 5 GW. Usinas termelétricas movidas a gás natural e carvão são outra forma de inserir potência e flexibilidade no sistema, por poderem ser acionadas conforme a demanda. Em março, o governo realizou um leilão de reserva de capacidade que contratou, principalmente, termelétricas movidas a combustíveis fósseis — que são poluentes e caras, com o custo dividido entre todos os consumidores na conta de luz. Havia expectativa de o leilão incluir baterias, e a exclusão da tecnologia em prol de usinas poluentes foi criticada por ambientalistas. Risco de adiamento Um dos nós no leilão de baterias é o rateio do custo de funcionamento dos sistemas — basicamente, quem vai pagar a conta, ou dividir a “pizza indigesta” dos custos, nas palavras de Gouveia, da Aneel. A legislação atual prevê o rateio entre as empresas geradoras de energia. A Aneel publicou uma proposta para que a divisão seja proporcional ao nível de flexibilidade de cada usina: hidrelétricas e termelétricas, mais flexíveis, pagariam menos, enquanto solares e eólicas, que são intermitentes, pagariam mais. As regras estão em consulta pública até esta sexta-feira (6). Um projeto de lei no Congresso, porém, quer mudar esse rateio, repassando o custo para todos os consumidores, como acontece hoje com as termelétricas. O projeto teve a urgência aprovada em outubro e um relator designado logo após o segundo turno das eleições. Se a lei mudar, a Aneel terá que refazer suas regras para os leilões, o que pode levar ao adiamento das datas. Para Fabiana Costa, superintendente de sustentabilidade do Bradesco, as indefinições se traduzem em crédito mais caro. “Essas incertezas sempre vão trazer os bancos para cenários mais conservadores, o que aumenta o custo de capital”, disse. Projetos de baterias produzidas em parte no Brasil podem acessar crédito mais barato via BNDES e Fundo Clima, e pelo menos nove empresas já buscam credenciamento no banco de desenvolvimento para isso. A expectativa é que novos leilões de bateria aconteçam nos próximos anos e, com regras mais estabelecidas, atraiam mais participantes. A adoção de baterias também não deve ficar restrita a leilões do governo — com o maior acesso à tecnologia, consumidores poderão ter uma bateria em suas empresas ou mesmo em casa, atrelada à geração solar própria. “Não existe bala de prata”, disse Gouveia, da Aneel. “Mas existem mecanismos com os quais a gente consegue mitigar riscos.” O post Leilão de baterias enfrenta corrida contra o tempo no setor elétrico apareceu primeiro em Reset.

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