Depois da campanha mais acirrada da história do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu a eleição deste domingo (25) e, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), está matematicamente reeleito como chefe do Executivo do Brasil. Com 99,32% das urnas apuradas, o petista alcançou 51,75% dos votos válidos às 21h10, contra 48,25% de Flávio Bolsonaro (PL), com quem concorreu no segundo turno. É a primeira vez, desde a redemocratização, que um candidato que saiu atrás no primeiro turno conseguiu virar na segunda etapa. Com isso, o petista vai assumir o seu quarto mandato a partir de 5 de janeiro de 2027. A nova vitória fará com que Lula acumule 16 anos na Presidência da República até o fim do mandato, em 2030, quando não poderá disputar uma nova eleição. Se concluir o mandato, o PT contabilizará mais de 21 anos no comando do Executivo federal, considerando os períodos em que governou o país desde 2003. Prestes a completar 81 anos, Lula conseguiu uma virada inédita após uma reestruturação completa da campanha para o segundo turno. Logo após ficar atrás de Flávio em quatro de outubro, o presidente se reuniu com aliados para ouvir dicas e propostas para alteração da estratégia da equipe para os 20 dias seguintes. De derrotados e vencedores, ouviu que a campanha precisava se tornar mais jovem, mais digital e tratar, em especial, de questões que impactassem diretamente o dia a dia da população. O núcleo duro da campanha foi um dos principais alvos das mudanças. Em uma tentativa de renovar a comunicação e preencher lacunas, sobretudo na atuação nas redes sociais, o trio formado pelo governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), o líder do PT no Senado, Camilo Santana (CE), e o senador eleito pela Bahia Rui Costa (PT) assumiu uma posição estratégica ao lado de Lula. Em outra frente, até então resistente a gravar vídeos para as redes sociais, Lula reservou um espaço diário na agenda para produzir conteúdos em formato de selfie. Com mensagens que iam de pedidos de mobilização nas ruas a ataques mais contundentes ao adversário, os vídeos viralizaram e, na opinião de apoiadores, "furaram a bolha da esquerda". Exército do Lula Para reforçar a atuação digital, até então dominada pela direita, o PT também retomou uma fórmula utilizada na campanha vitoriosa de 2022 e acionou o deputado André Janones (Rede-MG) para mobilizar a militância. O canal “Exército do Lula” ultrapassou os 10 milhões de inscritos em menos de 20 dias e se tornou uma das principais ferramentas de mobilização da virada. Na última quinta-feira (22), o presidente participou de uma live com o aliado. Nesta reta final, Janones promoveu uma transmissão com duração de 24 horas, que se iniciou na noite de sexta-feira (23), logo após o debate da TV Globo. O PT apostou em duas frentes na parte do conteúdo: reforçar os feitos do governo neste terceiro mandato e tentar aumentar a rejeição a Flávio. Lula passou a explorar o receio de que programas sociais fossem descontinuados em um eventual governo do candidato do PL. Para isso, a campanha petista explorou o termo “tesouraço”, que até então vinha sendo usado pelo candidato do PL para defender, sem detalhar, medidas de ajuste fiscal. Com uma comunicação mais agressiva, as incursões da campanha na televisão e nas redes sociais apostaram na relação do senador com condenados por envolvimento em milícia e com o caso Master. O embate com Flávio atingiu o ápice nesta última semana, quando, após o debate na Band, Lula desafiou o adversário a abrir os sigilos bancário, fiscal e telefônico dele e de familiares. O caso foi levado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, embora Flávio tenha aceitado revelar seus dados, o desgaste foi inevitável. Diante da repercussão considerada positiva nos últimos dias, interlocutores admitiam, nos bastidores, que a comunicação da campanha “finalmente” havia encontrado um rumo. Paralelamente, também também investiram alto na comparação do mandato de Lula com a gestão de Jair Bolsonaro (PL), pai do adversário. Com o mote "Flávio é o pai", petistas relembraram as mortes durante a pandemia de covid-19 e a situação de extrema pobreza, que subiu no governo anterior. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) também foi acionado de forma mais contundente na segunda etapa da disputa. Com participação no início do período eleitoral, ele viajou pelo Sudeste, região onde tem mais força, se reunindo com empresários e lideranças religiosas. O objetivo era arrematar votos ao centro que se abstiveram no primeiro turno. Ele também passou a participar de entrevistas quase diárias, com canal próprio de transmissão no WhatsApp para a imprensa. Lula também teve que contornar a falta de apoio do Centrão neste segundo turno, já que a maioria das legendas anunciou que ficaria com Flávio. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro também conseguiu o apoio dos candidatos derrotados no primeiro turno, como Romeu Zema (Novo), Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD). Congresso adverso Agora reeleito, um dos principais desafios de Lula no quarto mandato será garantir a governabilidade diante da nova composição do Congresso Nacional. As eleições deste ano levaram à formação de um Senado majoritariamente de direita e ao encolhimento do Centrão. A partir de 2027, o PL, sozinho, terá uma bancada de 28 senadores, mais do que um terço do plenário. Atrás do PL, que elegeu 19 senadores, vem o MDB, que fez sete senadores, e perdeu um quadro histórico: o ex-presidente da Casa Renan Calheiros (AL), que exerceu quatro mandatos na instituição. Em terceiro lugar ficou o PT, que elegeu seis senadores. PSB, Novo, União e PP elegeram três cada um; Podemos, Republicanos, PSD e PSDB fizeram dois representantes, e o Rede elegeu uma senadora. O resultado de um Congresso mais conservador também impacta a relação entre os três Poderes, em especial, o Supremo Tribunal Federal (STF), em um momento em que a crise do Banco Master abalou a credibilidade da instituição, e o compromisso com o impeachment dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino foi uma das bandeiras da direita na campanha.
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