A Gerdau (GGBR4) manterá seu guidance de investimentos para 2026, apesar da mudança nas premissas de minério de ferro, frete e câmbio, e poderá encerrar o ano com desembolsos inferiores aos previstos anteriormente no Investor Day do ano anterior. Na teleconferência de resultados do terceiro trimestre, o CFO Rafael Japur indicou que a companhia prefere aguardar maior clareza sobre as variáveis macroeconômicas antes de revisar suas projeções, enquanto direciona esforços para elevar a rentabilidade da operação brasileira e preservar a geração de caixa. A cautela ocorre após um trimestre de melhora nos resultados consolidados, sustentados principalmente pela operação norte-americana. A companhia registrou Ebitda ajustado de R$ 3,77 bilhões no terceiro trimestre, alta de 9,9% ante o segundo trimestre, com margem de 20,2%, o maior patamar desde o segundo trimestre de 2023. A América do Norte respondeu por mais de 76% do Ebitda consolidado, com R$ 2,9 bilhões e margem de 27,7%. No Brasil, o Ebitda ajustado foi de R$ 741 milhões, com margem de 10,7%, refletindo um ambiente ainda pressionado. : Gerdau (GGBR4) lucra R$ 1,52 bilhão no 3T26, avanço de quase 40% na comparação anual Japur afirmou que as premissas utilizadas anteriormente para avaliar os projetos de mineração e os investimentos da companhia sofreram alterações. Na época das estimativas, o minério de ferro era considerado a US$ 90 por tonelada, enquanto frete, câmbio e outros componentes de custo também apresentavam condições diferentes das atuais. O executivo indicou que a empresa prefere não atualizar as projeções neste momento, diante da volatilidade dessas variáveis. A decisão também se reflete nas despesas de capital, conhecidas como capex. Segundo o CFO, a Gerdau está um pouco atrás do ritmo inicialmente previsto e poderá desembolsar menos em 2026 do que o indicado no Investor Day do ano passado. A companhia procura preservar flexibilidade para ajustar o ritmo de alocação de capital às condições de mercado, sem comprometer os projetos considerados estratégicos. Miguel Burnier deve gerar menos benefícios O projeto de mineração de Miguel Burnier, em Minas Gerais, é uma das principais apostas para melhorar a operação brasileira. Contudo, a expectativa da companhia é que os benefícios econômicos da iniciativa sejam menores do que anteriormente previsto para o curto prazo. O início da operação está previsto para o quarto trimestre de 2026, mas Japur ponderou que o período chuvoso pode limitar a velocidade de implantação e de aumento da produção. A prioridade, segundo o executivo, é garantir a segurança dos funcionários, o que reduz a expectativa de um ramp-up acelerado nos primeiros meses. O projeto também deve alterar a composição do resultado da mineração. De acordo com o CFO, entre 30% e 40% do retorno esperado ao longo do ciclo está relacionado à comercialização de minério, enquanto a maior parcela decorre do consumo próprio em Ouro Branco. O uso de minério com maior teor de ferro tende a melhorar a eficiência industrial, reduzir a necessidade de carvão e coque e contribuir para a competitividade da produção de gusa, além do ganho de qualidade do minério produzido. América do Norte segue como motor da Gerdau Na América do Norte, a companhia vê uma combinação de demanda estruturalmente favorável e mudanças potenciais na concorrência. A Gerdau considera que os investimentos em data centers, inteligência artificial (IA), energia, torres de transmissão e infraestrutura naval devem continuar sustentando o consumo de aço nos próximos anos. O CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, destacou que a demanda por data centers não é um fenômeno recente para a companhia, sendo observada desde 2019. Segundo ele, os investimentos em infraestrutura digital permanecem relevantes, ao lado das encomendas associadas à expansão da rede elétrica e aos projetos da indústria naval norte-americana. A avaliação da empresa é que a entrada de um novo produtor no mercado de vigas da região terá impacto limitado, especialmente porque a implantação de uma nova operação industrial tende a ocorrer de forma gradual. Japur observou que o México é um importador líquido de vigas, assim como o Canadá, o que abre espaço para fluxos comerciais entre os mercados. A preocupação central está na revisão das relações comerciais entre Estados Unidos, México e Canadá, diante do fim do ciclo atual do acordo USMCA e da possibilidade de negociações bilaterais. Para a Gerdau, um acordo entre Estados Unidos e Canadá poderia ser positivo, sobretudo pela possibilidade de redução de tarifas sobre produtos que têm produção concentrada nos Estados Unidos. Já um entendimento bilateral entre Estados Unidos e México poderia ter efeito líquido negativo para a companhia, dependendo das condições comerciais e da concorrência resultante. A empresa considera pouco provável que as negociações reproduzam integralmente o modelo trilateral atual e acompanha os possíveis desdobramentos para avaliar seus efeitos sobre tarifas, importações e competitividade. Ainda assim, a leitura de Werneck e Japur é que a evolução da demanda será mais determinante para os resultados do que a entrada isolada de um novo concorrente. Uma desaceleração relevante do consumo, nesse sentido, teria potencial para produzir um efeito mais expressivo do que o aumento gradual da oferta decorrente do ramp-up de uma nova planta. Midlothian pausa produção A parada programada da usina de Midlothian, no Texas, também pesa sobre as perspectivas operacionais da Gerdau na América do Norte. A unidade é considerada estratégica para os resultados da companhia na região. Japur indicou que os efeitos da parada devem continuar presentes no quarto trimestre. A companhia não espera um aumento rápido da capacidade produtiva e prevê que os ganhos associados à modernização da unidade apareçam gradualmente ao longo de 2027. A perspectiva para as margens norte-americanas continua favorável, apoiada pelos preços realizados e pela demanda. Ainda assim, a sazonalidade do quarto trimestre, normalmente marcado por menor produção e consumo, além dos custos da manutenção, deve funcionar como um fator de pressão sobre os resultados no curto prazo. Werneck afirmou que a estratégia da Gerdau privilegia investimentos orgânicos e ampliações seletivas de capacidade, sem planos de grandes aquisições ou projetos greenfield nos Estados Unidos. A companhia pretende aproveitar a demanda estrutural e direcionar capital para ativos nos quais as modernizações possam produzir retornos relevantes. Descompasso no Brasil No mercado brasileiro, a Gerdau continua enfrentando dificuldades relacionadas à pressão competitiva das importações e à demanda doméstica. A companhia busca recuperar a rentabilidade por meio de ganhos de eficiência, revisão de custos e investimentos direcionados à competitividade, enquanto acompanha a evolução das medidas de defesa comercial. Werneck avaliou que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve contribuir para a continuidade da defesa comercial, com o avanço técnico das medidas conduzidas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) contra práticas comerciais consideradas desleais. Na avaliação do executivo, o fortalecimento dos mecanismos de defesa comercial pode acelerar a recuperação das condições competitivas da indústria siderúrgica brasileira. A companhia espera que o rigor técnico continue orientando as decisões e que novas medidas possam ser adotadas, caso necessário. A discussão sobre competitividade também envolve o custo dos investimentos. Werneck ressaltou que projetos industriais no Brasil podem exigir desembolsos mais elevados por tonelada de capacidade instalada do que iniciativas semelhantes na América do Norte. Por isso, a companhia procura alternativas para tornar seus investimentos mais eficientes e ampliar o retorno marginal de cada novo recurso aplicado. O executivo citou o intervalo entre o anúncio do projeto de Miguel Burnier, realizado entre o fim de 2022 e meados de 2023, e sua entrada em operação como exemplo do descompasso entre o desembolso de Capex e a captura de resultados. Para a empresa, o desafio é avaliar não apenas o retorno esperado de cada projeto, mas também o tempo necessário para que esse retorno se materialize. Japur acrescentou que a Gerdau busca construir uma operação brasileira mais rentável e menos dependente do desempenho da América do Norte. A companhia também considera o cenário de juros elevados no Brasil e no exterior como um fator relevante para as decisões de investimento, especialmente em segmentos sensíveis ao custo de financiamento, como construção civil e mercado imobiliário. Caixa, dividendos e recompra de ações A disciplina financeira continua no centro da estratégia. No terceiro trimestre, a Gerdau gerou fluxo de caixa livre positivo de R$ 1,44 bilhão, enquanto a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado recuou para 0,58 vez, ante 0,69 vez no trimestre anterior. A companhia aprovou a distribuição de R$ 667 milhões em dividendos, equivalentes a R$ 0,34 por ação, com pagamento previsto para dezembro de 2026, e mantém vigente seu programa de recompra de ações. : Vai pingar: Gerdau (GGBR4) e Metalúrgica Gerdau (GOAU4) pagarão dividendos; confira valor e data Japur indicou que a recompra continua sendo uma alternativa de alocação de capital enquanto as ações estiverem negociadas abaixo do valor patrimonial. A companhia avalia, portanto, o equilíbrio entre investimentos operacionais, redução da alavancagem e remuneração dos acionistas. O CFO também destacou a importância da flexibilidade financeira diante das incertezas macroeconômicas. A manutenção de uma estrutura de capital conservadora permite à empresa atravessar períodos de maior volatilidade sem abandonar projetos estratégicos ou comprometer a distribuição de recursos aos investidores.
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