Plataformas independentes que utilizam modelos preditivos anteciparam a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL) ainda nos primeiros momentos da apuração do segundo turno, no domingo (25). As ferramentas analisaram os votos contabilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os compararam com os resultados do primeiro turno para estimar a votação nas seções que ainda não haviam sido apuradas. Em uma das ferramentas, dados de eleições anteriores também foram utilizados para testar a precisão do modelo. Foi o caso da ferramenta Janela, desenvolvida pelo cientista político e fundador da consultoria Plano Político, Vinícius Justo. Com apenas 0,12% das seções apuradas, a plataforma estimava 51,19% dos votos válidos para Lula e 48,81% para Flávio. A faixa de incerteza, porém, ainda admitia a vitória de qualquer um dos dois. Ao longo da apuração, a projeção para o petista chegou a superar 54% no início, antes de se estabilizar na casa dos 51%, com pequenas variações decimais na reta final. Já o Panorama do Voto, criado pelo sócio-fundador da Seiko Partners, Diego Cavalcante, projetava 51,83% dos votos válidos para Lula e 48,17% para Flávio com cerca de 2% das urnas apuradas. Durante a contagem, a estimativa para o presidente chegou à casa dos 49%, mas voltou a superar 51% e, com aproximadamente 30% da apuração, a plataforma passou a indicar “vitória projetada” para o petista. Nesse sentido, ambas as ferramentas chegaram a percentuais próximos do resultado consolidado, de 51,79% para Lula e 48,21% para Flávio. Segundo o fundador do Plano Político, o método se apoia na estabilidade geográfica dos padrões de votação. Se uma seção eleitoral apresentou crescimento de Lula entre o primeiro e o segundo turno, essa variação ajuda a estimar o que poderá ocorrer em outras urnas com histórico semelhante. “Quando você agrupa seções suficientes, você tem uma estimativa de como o resto do país vai ser contado. E, a partir daí, você consegue estimar qual vai ser o percentual de voto, porque você sabe quais já foram apuradas e quais não foram ainda”, explica. Justo disse que uma amostra de 1% a 2% das seções, dependendo de sua distribuição, já pode produzir uma projeção nacional robusta. A Janela não utilizou pesquisas de intenção de voto, diferentemente do modelo pré-eleitoral mantido pelo Plano Político. “O meu modelo não tinha nenhuma pesquisa para a Janela. Era só com base na votação”, diz. O resultado projetado pela ferramenta surpreendeu o próprio pesquisador, pois São Paulo e Rio de Janeiro estavam com poucas urnas apuradas no início e apresentavam uma mudança de comportamento diferente da observada no restante do país. “Eu publiquei no X o ‘call’ projeção de vitória de que o Lula tinha sido reeleito com 30% das seções apuradas, mas isso foi porque eu segurei por causa de São Paulo. Se eu tivesse deixado solto, o ‘call’ teria saído com 13% das seções”, afirmou. Para reduzir o risco de anunciar um vencedor equivocadamente, Justo realizou mais de 50 simulações, incluindo cenários de disputas decididas por apenas 500 mil votos. Quanto menor a diferença entre os candidatos, explica, maior a possibilidade de uma pequena imprecisão alterar a indicação do vencedor. O pesquisador destaca ainda que a inteligência artificial (IA) facilitou a construção da ferramenta, sobretudo na programação e no desenvolvimento do site. Na avaliação dele, a rapidez da apuração no Brasil reduz a necessidade desses modelos em comparação com os Estados Unidos, mas as ferramentas permitem antecipar em uma ou duas horas a confirmação do resultado. O Panorama do Voto também foi desenvolvido para esta eleição por Cavalcante. Após testar uma versão mais simples no primeiro turno, ele aprimorou o cálculo para considerar a votação anterior de cada seção eleitoral e as mudanças verificadas nas urnas já contabilizadas. “Eu olho como mudaram as que já foram apuradas, como elas mudaram do primeiro para o segundo turno. E as que não foram apuradas ainda, eu olho como foi no primeiro turno e aplico basicamente essa variação”, explica Cavalcante. O executivo também utilizou resultados das eleições presidenciais de 2018 e 2022 e de disputas para governador para testar a metodologia e estimar suas margens de incerteza. Esses testes com eleições anteriores foram retrospectivos: 2026 foi a primeira experiência do Panorama do Voto com projeções em tempo real. A plataforma passou a exibir o aviso de “vitória projetada” para Lula quando aproximadamente 30% das seções estavam apuradas. Pelas regras do modelo, a indicação só aparece quando a chance estimada de um candidato superar 50% dos votos válidos ultrapassa 95%, depois de ao menos 2% de avanço da apuração. Cavalcante também temeu que o atraso na chegada dos resultados de São Paulo e Rio de Janeiro distorcesse as primeiras estimativas. “Se você tiver todos os Estados com 15% de apuração, é melhor do que você ter 30% em alguns Estados e zero em outros. Porque você consegue fazer uma correção melhor por Estado”, declarou. O modelo aplica ajustes para evitar que um número reduzido de seções determine uma mudança exagerada na projeção. À medida que a contagem avança, os dados de cada Estado ganham peso e permitem corrigir possíveis distorções. Assim como a Janela, o Panorama do Voto dispensou pesquisas eleitorais. Cavalcante considera o primeiro turno uma referência mais precisa para essa finalidade porque revela o perfil de votação de cada seção, enquanto os levantamentos apresentam estimativas mais gerais. “O primeiro turno me dá especificamente qual foi o perfil de cada seção. Isso a pesquisa não vai me dar”, diz. A IA também acelerou o desenvolvimento da plataforma. Cavalcante explicou que conseguiria elaborar o modelo estatístico, mas precisaria de ajuda para criar a interface do site. “Sabendo orientar e direcionar a IA para puxar os dados e tudo mais, você consegue avançar muito rápido nos desenvolvimentos”, disse. Para ele, a concentração da disputa em dois candidatos favoreceu a precisão. Em eleições com três candidaturas fortes no primeiro turno, a transferência de votos torna as projeções iniciais mais incertas.
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