A conta de luz chegou às urnas nos Estados Unidos, em uma eleição de meio de mandato que funcionou como referendo sobre o governo de Donald Trump. A frustração dos eleitores com a alta nos preços de eletricidade e gás e com a expansão desordenada dos data centers impulsionou uma onda de vitórias democratas na Câmara, no Senado e em governos estaduais estratégicos. Os democratas fizeram da política energética de Trump um de seus alvos de campanha: atacaram o desmonte das regulações climáticas, o corte de verbas para descarbonização da indústria, a corrida pela construção de data centers e o bloqueio a eólicas offshore. Em estados vitais como Texas, Ohio e Geórgia, candidatas a governadora que defenderam regras rígidas e moratórias contra projetos intensivos em recursos de água e energia venceram corridas eleitorais decisivas. A campanha deu certo e o Partido Democrata terá maioria nas duas casas do Congresso. “Embora o clima raramente tenha sido mencionado explicitamente nas urnas, as políticas anticlimáticas de Trump moldaram o resultado”, disse Lisa Sachs, professora da Escola do Clima da Universidade Columbia, ao site Euronews. Segundo ela, segurança energética, preço acessível e emprego de qualidade passaram a formar uma agenda só. Desde que os EUA entraram em guerra com o Irã, o galão de gasolina passou de US$ 2,93 para US$ 4,29, uma alta de 46%, segundo dados da AAA, a associação americana de motoristas, compilados pela revista Kiplinger. A conta de luz subiu 4,4% em 12 meses até setembro, de acordo com o índice de inflação do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA. No Meio-Oeste, a alta foi de 8,8%. Parte dessa pressão vem da demanda dos data centers. Data centers em foco A expansão descontrolada de infraestruturas de inteligência artificial (IA) tornou-se um gatilho eleitoral direto. As governadoras eleitas Gina Hinojosa (Texas), Amy Acton (Ohio) e Keisha Lance Bottoms (Geórgia) prometeram congelar a aprovação para construção de novos data centers e acabar com isenções fiscais para proteger as tarifas residenciais de energia e o acesso à água. Segundo a Bloomberg, essas vitórias podem deixar metade da expansão planejada de data centers de IA nos EUA sob normas mais rígidas. No Texas, a governadora eleita prometeu uma moratória imediata até que uma nova lei dê voz às comunidades. Na campanha, acusou os desenvolvedores de encarecer as tarifas e esgotar a água dos texanos. A consultoria SemiAnalysis aponta que o estado concentra quase 30% de toda a capacidade de data centers prevista para entrar em operação em 2028. Em Ohio, que recebeu uma enxurrada de propostas de data centers na região de Columbus, a governadora eleita defende uma moratória condicionada: só poderá construir quem cumprir uma série de exigências. “Mesmo que não haja moratórias estaduais, esperamos ver muito mais areia nas engrenagens da expansão da IA”, disse Libby Cantrill, chefe de políticas públicas da gestora Pimco, à Bloomberg. Em muitos estados e cidades dos EUA, além de escolher candidatos, o eleitor vota em medidas sobre temas específicos, que podem ter força de lei. Em Trenton, Ohio, 80% dos eleitores aprovaram a proibição de data centers acima de 25 MW, o que deve inviabilizar o plano de anexar cerca de 240 hectares para um campus da Amazon de 1.000 MW. Mudanças em Washington Com maioria nas duas casas, os democratas prometeram priorizar a volta de créditos fiscais para energia eólica e solar, eliminados pelos republicanos na lei One Big Beautiful Bill, em 2025, uma das principais canetadas de Trump neste mandato. “Há um amplo reconhecimento e um esforço ativo por parte dos democratas para restabelecer muitas coisas que foram eliminadas”, disse Evan Chapman, ex-assessor democrata no Congresso, ao site Heatmap. O crédito para carros elétricos, contudo, deve ficar de fora, por ter ganhado a fama de subsidiar o segundo ou o terceiro carro de famílias ricas. O espaço para acordos com os republicanos está nas baterias, na mineração e no processamento de minerais críticos nos EUA, na geotermia e na energia nuclear. Algumas mudanças não dependem de novas leis. Segundo a Reuters, os democratas podem usar a Lei de Revisão do Congresso para derrubar normas do governo Trump que facilitaram a venda de picapes e SUVs movidos a gasolina. A maioria também dá ao partido a presidência das comissões e, com ela, o poder de investigar. Na mira estão o fim de um programa de US$ 6,3 bilhões do Departamento de Energia para descarbonizar a indústria pesada e o uso de US$ 500 milhões, destinados a uma produção de ferro mais limpa, para reformar um alto-forno a carvão da siderúrgica Cleveland-Cliffs, em Ohio. Virada em órgãos reguladores A vitória dos democratas também chegou aos órgãos que regulam a energia nos estados. Na Geórgia, as tarifas das concessionárias privadas reguladas são aprovadas por uma comissão eleita pelo voto direto. Com as vitórias de Peter Hubbard e Sheila Edwards, os democratas passam a ter maioria no órgão pela primeira vez em 30 anos. Antes da eleição, a comissão ainda tentou conter a insatisfação congelando por três anos a tarifa da Georgia Power. Não adiantou, e os comissários democratas prometeram reduzir as tarifas e acelerar a energia limpa no estado. No Texas, a mudança chegou ao coração da indústria fóssil. O deputado estadual Jon Rosenthal se tornou o primeiro democrata em 36 anos a conquistar uma cadeira na Comissão Ferroviária, órgão que regula o petróleo e o gás do estado, um mercado estimado em US$ 200 bilhões e que produz mais petróleo que a maioria dos países da Opep. Longe de ser um ambientalista e com perfil conciliador, Rosenthal chegou ao posto prometendo regras mais duras para a queima de metano e prazos menores para fechar poços abandonados. As outras duas cadeiras da comissão ainda são ocupadas por republicanos. O post Trump paga o preço da energia cara (e suja) nas urnas apareceu primeiro em Reset.
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