Com dúvidas sobre a disposição do governo Luiz Inácio Lula da Silva de promover um ajuste mais forte das contas públicas em seu quarto mandato, o Banco Central permanece como a principal, e talvez única, âncora da política econômica. Na semana que vem, essa condição será posta à prova, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) decidir se interrompe ou não o ciclo de corte de juros. As opções do Copom negociadas na B3 colocavam ontem 66% de chances de manutenção dos juros nos atuais 13,75% ao ano. Já a aposta em um último corte mínimo de juros, de apenas 0,25 ponto percentual, encontrava-se em 32%. O espaço para corte de juros já era restrito, com a sequência de eventos que vai deixar a inflação pressionada ao longo de 2027, incluindo a guerra no Irã, o fenômeno climático El Niño, o fim da escala 6 por 1 e a implementação da reforma tributária. A tudo isso soma‑se a incerteza pós‑eleição. Economistas da vertente desenvolvimentista, entre eles o ex‑ministro da Fazenda Guido Mantega, estão aconselhando o presidente Lula a não fazer uma correção de rumos na política fiscal neste quarto mandato. Conforme mostrou o Valor, esse grupo sustenta que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi provocado pelo ajuste fiscal conduzido por Joaquim Levy à frente do Ministério da Fazenda em 2015. Essa interpretação, porém, entra em choque com a cronologia da crise econômica. O Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da FGV Ibre, identificou o início da recessão no segundo trimestre de 2014, quando Mantega ainda comandava a política econômica. A deterioração das contas públicas foi consequência do esgotamento de um modelo de crescimento apoiado na expansão dos gastos públicos e do crédito, processo que antecede a gestão Levy. A incerteza atual sobre o rumo da economia provavelmente não será resolvida até quarta‑feira, quando o Copom toma sua decisão, mesmo com a eventual escolha do novo ministro da Fazenda. Mas ela já tem impactos concretos, como a alta da cotação do dólar e a pressão sobre as expectativas de inflação implícitas nos títulos públicos negociados no mercado. Os dados do boletim Focus, que nesta semana serão divulgados na terça‑feira, devido ao feriado de Finados, serão cruciais. Muitos economistas aguardavam apenas o desfecho da eleição para entender a direção mais geral da política fiscal e refazer os cálculos sobre os impactos na inflação da sequência de choques de 2027. No mercado financeiro, um grupo não pequeno considera que o BC está premido por questões políticas: interromper o ciclo de baixa dos juros logo depois da vitória de Lula pode acirrar os ataques que desenvolvimentistas e alas políticas mais à esquerda do PT já estão fazendo à autoridade monetária. Isso faz com que a próxima decisão diga respeito, na essência, à credibilidade do Copom. Nas circunstâncias atuais, um simples arranhão pode ter consequências mais severas. Nesta semana, quando os mercados sofreram uma queda generalizada, o que ajudou a salvar o dólar de um "overshooting" foi a confiança que os mercados ainda depositam no fato de que o Banco Central terá liberdade para manter os juros apertados o suficiente para controlar a inflação. Essa não é uma questão apenas de curto prazo, restrita à próxima reunião do Copom. Ela deve se prolongar por algum tempo. Uma questão é se, na hipótese de o Banco Central ter de manter um aperto monetário mais prolongado, os juros altos serão capazes de manter a inflação sob controle em um quadro de fragilidade fiscal.
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