A polarização e o sentimento de “nós contra eles” que marcaram as eleições de outubro também estiveram presentes na abertura do G4 Valley 2026, apresentado como o maior encontro de empresários do Brasil. O evento, que acontece até 31 de outubro no São Paulo Expo, em São Paulo, reúne mais de 25 mil pessoas sob o slogan “Onde os heróis do Brasil se encontram”. Pouco antes da fala inicial de Tallis Gomes, CEO da G4 Educação e fundador da Easy Taxi, um vídeo destacou os esforços e as conquistas do empreendedor brasileiro, que estaria destinado a vencer “apesar deles”. A mensagem foi apresentada após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo (25), em uma disputa marcada pela polarização política. “É um prazer estar ao lado de homens e mulheres que verdadeiramente constroem o Brasil. Acho que o vídeo explica bem o sentimento que nós temos. A gente nunca contou com eles e eles nunca nos ajudaram, só nos atrapalharam. Pode acreditar no que eu estou falando: a gente vai vencer apesar deles”, disse Gomes. Depois da fala, seguida pelo hino nacional brasileiro, o empresário criticou a relação do país com quem produz. Segundo ele, o Brasil cobra impostos elevados em troca de serviços públicos de baixa qualidade, que comparou aos de países subsaarianos. Gomes afirmou que as dificuldades para empreender fazem parte da história brasileira. Até mesmo durante o governo de Jair Bolsonaro, que classificou como um bom presidente, o país foi atingido pela pandemia. Apesar dos obstáculos, disse, empresas brasileiras construíram histórias de sucesso. Para ilustrar a capacidade de adaptação das empresas, Gomes citou a Localiza, fundada em 1973, durante a crise do petróleo; a Ambev, cuja origem remonta a 1999, em meio a uma crise cambial; e o BTG Pactual, que atravessou períodos de turbulência no mercado antes de se tornar o maior banco de investimento da América Latina. O empresário também usou a trajetória do próprio G4 Educação para defender a adaptação dos negócios diante de crises. Segundo ele, a pandemia do coronavírus levou a companhia a redesenhar seu modelo de negócio, ampliando sua atuação em tecnologia. “À luz do que Marco Aurélio nos ensinou: a pedra se torna o caminho. Se fôssemos apenas uma empresa de educação, faríamos R$ 250 milhões em 2026. Como nos tornamos uma empresa de tecnologia, este ano faremos R$ 750 milhões”, afirmou. Gomes disse empreender desde os 14 anos e defendeu que a experiência de superar obstáculos faz parte da trajetória dos empresários brasileiros. “Todo empreendedor brasileiro é trabalhador, é insistente … e não é agora que essa história será diferente. O empresário aprendeu a construir apesar deles”, declarou. Tallis Gomes e os John Galts do Brasil Durante a fala de aproximadamente 25 minutos, Gomes também leu na íntegra o artigo “Os John Galts do Brasil”, publicado pelo Brazil Journal na quarta-feira (28). O texto faz referência a John Galt, personagem do romance A Revolta de Atlas, da escritora Ayn Rand, obra associada à defesa do individualismo e do capitalismo laissez-faire, baseado na mínima intervenção estatal na economia. No romance, Galt se rebela contra uma sociedade que, em sua visão, penaliza os indivíduos produtivos e se apropria dos frutos de seu trabalho. O personagem se torna símbolo da resistência à interferência do Estado sobre aqueles que criam riqueza. A relação entre o evento e a obra de Rand também aparece na simbologia do G4 Valley. Atlas, titã da mitologia grega condenado a sustentar o mundo sobre os ombros, é uma referência visual associada ao universo de A Revolta de Atlas. No romance, o personagem John Galt questiona uma sociedade que, segundo sua perspectiva, depende de indivíduos produtivos ao mesmo tempo que restringe sua liberdade. O titã Atlas nos corredores do G4 Valley (Foto: Money Times) No artigo, o personagem mitológico é comparado a diferentes profissionais, incluindo empresários, motoristas de aplicativo, pequenos comerciantes e outros trabalhadores que enfrentam dificuldades para manter suas atividades. O texto aborda questões como tributação, burocracia e a relação entre o Estado e os agentes econômicos. Quem é Tallis Gomes, bilionário que fez fortuna antes dos 30 com táxis e produtos de beleza, e agora investe em IA na educação Apesar da crítica ao modelo econômico e político brasileiro, o artigo também faz um alerta sobre a polarização. “O adversário é o poder, não o vizinho”, afirma o artigo. O autor também argumenta que o debate perde força quando a defesa da liberdade é substituída pelo desprezo a quem pensa diferente.
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