As eleições costumam empurrar a pauta ambiental para a trincheira. É um equívoco ela estar em disputa, pois clima, água e energia definem a competitividade do agronegócio, a segurança do sistema elétrico e o acesso a mercados que já exigem rastreabilidade. Comparar os indicadores ambientais do país desde 2003 com o que os dois candidatos prometem mostra que alguns instrumentos sobreviveram à alternância de poder, enquanto outros foram desmontados e remontados a cada troca de comando e os resultados acompanharam essa oscilação. O que atravessou governos A produção de petróleo cresceu em todos os mandatos e chegou ao recorde de 3,77 milhões de barris por dia em 2025, alta de 12,3% em um ano, o que colocou o Brasil entre os dez maiores produtores mundiais. Os dois programas mantêm a expansão, sendo que Lula trata a Margem Equatorial como um “novo pré-sal” para financiar a transição, enquanto Flávio promete acelerar a mesma fronteira e acrescenta o fracking. Expandir fósseis e renováveis ao mesmo tempo, porém, não é por si só transição energética e nenhum programa diz se haverá substituição de fontes emissoras. Os biocombustíveis são o caso mais nítido de continuidade. A mistura de biodiesel foi de 2% em 2008 a 15% em 2025, a de etanol chegou a 30%, e o RenovaBio, criado em 2017, emitiu 42 milhões de créditos em 2024. Lei, mercado e um setor produtivo interessado explicam essa estabilidade melhor do que qualquer governo. O pagamento por serviços ambientais (PSA) tem a mesma alternância produtiva. O Fundo Amazônia é de 2008 (governo Lula), a Lei de PSA é de 2021 (governo Jair Bolsonaro) e o Tropical Forests Forever Facility (TFFF), que paga US$ 4 por hectare de floresta em pé e soma US$ 5,5 bilhões anunciados, foi lançado na COP30 por Lula. Os dois maiores retrocessos da série — o fim do Bolsa Verde em 2018, no governo Temer, e a paralisação do Fundo Amazônia entre 2019 e 2022, sob Bolsonaro – vieram de decisões administrativas do poder Executivo. O que variou com cada governo O desmatamento na Amazônia caiu de 27.772 km² em 2004 para 5.731 km² em 2025, e a estimativa de 2026 é de 3.335 km², a menor desde 1988. Mas a curva não foi linear: houve um salto entre 2019 e 2022, com 45.612 km² em quatro anos. O que se moveu junto foi a capacidade do Estado. A fiscalização recebeu R$ 7,4 bilhões no governo Bolsonaro e R$ 19,7 bilhões no atual; nenhuma terra indígena foi homologada no primeiro período, 20 foram no segundo. As emissões de gases de efeito estufa (GEE) seguiram, em grande medida, a mesma trajetória: registraram a maior alta em quase duas décadas em 2021 e a maior queda desde 2009 em 2024 (-16,7%), refletindo o peso do uso da terra, que ainda responde por cerca de 40% das emissões brasileiras. O que os programas prometem Em primeiro lugar, as metas de desmatamento dos candidatos não são comparáveis. Lula promete desmatamento líquido zero até 2030, conta que inclui toda a supressão e abate a vegetação recuperada. Flávio promete zerar o ilegal até 2029, o que deixa de fora a supressão autorizada. A diferença de prioridade também é explícita: as mudanças climáticas aparecem 38 vezes no programa de Lula e uma vez no de Flávio. No licenciamento ambiental, após intenso debate no Congresso, Lula buscou vetar trechos da então aprovada Lei nº 15.190/2025. O presidente apontou a necessidade de garantir maior proteção aos ativos ambientais do país. Flávio propõe mudança na lei para que as licenças sejam concedidas quando o órgão não se manifesta no prazo, solução que especialistas apontam como inconstitucional; Lula aposta em fiscalização, sem revisar a lei. Quem trabalha com licenciamento sabe que prazo sem capacidade técnica produz licenças frágeis. E licença frágil é risco jurídico que o investidor precifica. Nos minerais críticos, o Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo e menos de 1% da produção. A Serra Verde, única operação comercial do país, foi vendida em 2026 a uma empresa americana, com separação dos óxidos fora do Brasil. Lula exige processamento no Brasil; Flávio promete parceria de longo prazo com os Estados Unidos. Renováveis: expansão esbarra na rede O Brasil é o quinto país do mundo em eólica em terra, com 36 GW instalados, mas a instalação anual caiu de 4,8 GW em 2023 para 2,3 GW em 2025, e duas fabricantes fecharam fábricas no Nordeste. A causa principal é o curtailment: segundo a Volt Robotics, cerca de 20% da energia eólica e solar possível foi cortada em 2025, com perdas estimadas em R$ 6,5 bilhões. O ressarcimento depende de regulamentação ainda pendente, e a Justiça negou o pedido de compensação integral. Somam-se o fim, com regras de transição, dos descontos nas tarifas de rede e um leilão de capacidade que contratou cerca de 19 GW, 80% em térmicas a gás. Os dois programas prometem mais renováveis, transmissão e armazenamento, mas nenhum enfrenta de forma explícita o curtailment que hoje trava o próximo parque mais do que a falta de vento ou de promessa. O que isso diz ao eleitor e ao investidor Instrumentos amparados em lei e mercado tendem a sobreviver às trocas de governo, mas sobreviver não basta. O que separa instrumento de resultado é financiamento, capacidade técnica, fiscalização e prioridade política. Para quem investe, as perguntas são concretas: as regras serão estáveis, os órgãos decidirão bem e no prazo, as decisões resistirão ao controle judicial? Previsibilidade regulatória não é pauta de direita nem de esquerda; é custo de capital. A alternância de poder é própria da democracia. A instabilidade permanente das regras não deveria ser. A questão decisiva desta eleição talvez não seja qual candidato promete conservar mais ou desenvolver melhor, mas qual tem condições de conciliar as duas exigências de forma consistente, verificável e duradoura. É por isso que as eleições não deveriam jogar essas pautas para a trincheira. É um equívoco caro demais para o país. *Yuri Rugai Marinho é CEO da ECCON Soluções Ambientais, coautor do livro “Como entender o mercado de carbono” e integra o movimento Pacto pelo Agora. *João Vidal é advogado e executivo de sustentabilidade por mais de 21 anos com atuação em direito ambiental, licenciamento e gestão socioambiental de projetos de energia renovável no Brasil e na América Latina. Especialista em Direito Ambiental pela PUC-SP e com PMD pelo IESE, integra o movimento Pacto pelo Agora. O post Meio ambiente e clima em xeque nas eleições apareceu primeiro em Reset.
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