A economia brasileira pode enfrentar uma desaceleração expressiva em 2027, com dificuldades para recuperar o ritmo no ano seguinte. Essa é a avaliação de Marcos Mendes, pesquisador do Insper, que aponta o crescimento da dívida pública e as incertezas internacionais como fatores de preocupação. Segundo reportagem de O Globo, o economista apresentou esse diagnóstico durante o Congresso da Associação Brasileira de Direito e Economia, no Rio de Janeiro. Para ele, o risco está principalmente em um período prolongado de baixo crescimento, e não necessariamente em uma recessão semelhante à registrada entre 2014 e 2016. A avaliação é uma projeção, não um resultado confirmado. Ainda assim, ajuda a explicar por que indicadores positivos no presente, como um mercado de trabalho aquecido, podem coexistir com dúvidas sobre o desempenho econômico dos próximos anos. : Open Finance em 2026: veja as mudanças nas regras de segurança e compartilhamento de dados Por que Marcos Mendes vê risco de desaceleração em 2027? Foto: Divulgação Na análise do pesquisador, a situação das contas públicas reduz a capacidade do Brasil de enfrentar mudanças desfavoráveis no ambiente econômico. Uma dívida elevada exige recursos para o pagamento de juros e aumenta a importância de manter a confiança na capacidade do governo de cumprir seus compromissos. Se essa confiança enfraquece, o custo de financiamento pode subir. Mendes também questiona a percepção de que indicadores correntes relativamente favoráveis significariam ausência de problemas. O emprego, a inflação, o investimento e as contas públicas podem apresentar comportamentos diferentes ao mesmo tempo. Uma empresa, por exemplo, pode continuar contratando para atender aos pedidos atuais, mas adiar a ampliação de uma fábrica se considerar o financiamento caro ou o cenário futuro incerto. O alerta é sobre estagnação prolongada A preocupação apresentada pelo economista é a possibilidade de o país permanecer por vários anos com crescimento insuficiente para ampliar de forma consistente a renda e as oportunidades. Estagnação não significa necessariamente queda contínua da produção. A economia pode registrar pequenas expansões, mas avançar pouco em relação às necessidades da população. Se o crescimento por habitante for baixo, a melhora das condições de vida também pode ser limitada, mesmo quando o PIB total apresenta resultado positivo. O que mostram as projeções para o PIB? O Relatório Focus divulgado em 19 de outubro de 2026 apontou redução da mediana das expectativas de crescimento para 1,83% em 2026 e 1,32% em 2027. Na semana anterior, as estimativas eram de 1,85% e 1,40%, respectivamente. Portanto, o número de 1,85% para 2026, mencionado no texto que apresenta a avaliação de Mendes, pertence a uma referência anterior à revisão divulgada no dia 19. O Focus reúne expectativas de instituições participantes da pesquisa do Banco Central. Seus números não representam garantia de resultado nem uma previsão própria do BC. As estimativas são revisadas conforme surgem informações sobre produção, consumo, crédito, inflação e outros componentes da atividade econômica. Crescer menos é diferente de entrar em recessão Uma alta de 1,32% ainda representa expansão da economia. O termo desaceleração indica que o crescimento ficou mais lento em relação ao período utilizado como comparação. Recessão envolve retração da atividade econômica. A identificação de um ciclo recessivo exige analisar diferentes indicadores, sua duração e a abrangência da queda. Por isso, uma previsão de crescimento menor não autoriza afirmar que o Brasil necessariamente entrará em recessão em 2027. Como a dívida pública pode limitar o crescimento Dados das Estatísticas Fiscais do Banco Central mostram que a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026, equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões. O indicador reúne Governo Federal, INSS e governos estaduais e municipais. A relação entre dívida e PIB compara o estoque de endividamento com o tamanho da economia. Seu comportamento depende de fatores como juros, resultados fiscais e crescimento. Quando o PIB cresce pouco, torna-se mais difícil reduzir essa proporção apenas pela expansão da atividade. Ao mesmo tempo, juros elevados aumentam o custo de carregar a dívida. Isso não significa que exista uma relação automática entre determinado percentual de endividamento e uma crise. A avaliação também depende das condições de financiamento, dos prazos da dívida e da credibilidade da política econômica. Por que o problema pode chegar às empresas e às famílias? Se o risco percebido pelos investidores aumenta, podem subir as taxas exigidas para financiar o governo e outros agentes da economia. Esse movimento pode contribuir para encarecer empréstimos, reduzir investimentos e dificultar compras parceladas. O efeito não ocorre de maneira uniforme, pois cada modalidade de crédito tem custos e riscos próprios. Para uma pequena empresa, o impacto pode aparecer na renovação do capital de giro. Para uma família, pode surgir em uma prestação mais cara ou em maior dificuldade para conseguir financiamento. O cenário internacional pode ampliar as dificuldades Mendes também chama a atenção para a dependência de condições externas que podem mudar. Juros internacionais, câmbio e preços de commodities influenciam o desempenho brasileiro por diferentes caminhos. Uma alta dos juros nos Estados Unidos, por exemplo, pode aumentar a atratividade de aplicações em dólar e pressionar moedas de países emergentes. Se houver desvalorização do real, produtos e insumos importados tendem a ficar mais caros em moeda brasileira. Isso pode afetar custos de produção e preços ao consumidor. O resultado depende, porém, da intensidade e da duração do movimento, além da resposta das empresas e da política econômica. A mudança não chega integralmente nem de forma imediata a todos os preços. Petróleo mais caro tem efeitos diferentes sobre a economia A valorização do petróleo pode favorecer receitas relacionadas à produção e à exportação. Por outro lado, também pode pressionar custos de transporte e de atividades que utilizam derivados. Assim, uma mesma alteração no mercado internacional pode beneficiar determinados setores e prejudicar outros. Essa combinação ajuda a explicar por que um ambiente externo aparentemente favorável não elimina os desafios das contas públicas ou do crescimento. O que uma economia mais lenta pode mudar no dia a dia A desaceleração pode afetar o orçamento das famílias e o planejamento dos negócios, mas seus efeitos variam conforme a atividade e a região. Entre os canais mais relevantes estão: Emprego: empresas podem reduzir o ritmo de abertura de vagas antes de realizar cortes. Renda: negociações salariais e ganhos de trabalhadores autônomos podem ficar mais difíceis. Vendas: consumidores podem adiar compras de maior valor. Investimento: projetos de expansão podem ser revistos diante de demanda menor ou crédito caro. Arrecadação: uma atividade menos dinâmica pode dificultar o crescimento das receitas públicas. Esses são efeitos possíveis de uma perda de ritmo, e não acontecimentos já definidos para 2027. Uma loja de móveis, por exemplo, pode sentir o encarecimento do crédito e o adiamento de compras. Já uma empresa exportadora pode ter resultados diferentes, dependendo da demanda internacional e do câmbio. Reformas e funcionamento das instituições entram no debate Durante o congresso, segundo O Globo, Mendes também abordou a relação entre crises, reformas e atuação dos Poderes. O pesquisador criticou situações que, em sua avaliação, representam interferência de um Poder nas atribuições de outro. A preocupação apresentada é que conflitos institucionais prejudiquem o funcionamento das políticas públicas e a previsibilidade das decisões. Ele também questionou políticas com benefícios concentrados em determinados grupos e custos distribuídos pela sociedade. Entre os exemplos citados está o microempreendedor individual, cujo alcance foi criticado pelo economista. Essas observações fazem parte de sua interpretação sobre os obstáculos ao crescimento. A avaliação de cada política exige considerar seus objetivos, resultados, custos e os grupos atendidos. Quais indicadores ajudam a acompanhar o risco para 2027? Imagem: Rmcarvalho / Getty Images Para verificar se o cenário de desaceleração está se confirmando, é necessário observar os dados divulgados ao longo dos próximos meses. O PIB trimestral do IBGE permite acompanhar o desempenho dos setores e de componentes como consumo e investimento. Os indicadores do mercado de trabalho ajudam a identificar mudanças na ocupação e na renda. Também merecem atenção a inflação, as condições de crédito, as decisões de juros e os resultados fiscais divulgados pelos órgãos responsáveis. O alerta de Mendes aponta para riscos que podem limitar a expansão brasileira. A intensidade da desaceleração, entretanto, dependerá da combinação entre decisões internas, comportamento dos investimentos e evolução do cenário internacional. 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