Nove organizações do mercado de criptomoedas anunciaram a criação de uma aliança para preparar o setor contra possíveis ataques de computadores quânticos. A iniciativa surge em meio a alertas de que cerca de 6 milhões de bitcoins, equivalentes a aproximadamente 30% de todas as unidades existentes, apresentam características que podem torná-los vulneráveis a essa tecnologia no futuro. Batizada de Quantum Alliance, a coalizão foi anunciada na última quinta-feira (15) e reúne empresas e organizações que atuam no desenvolvimento de blockchains, carteiras digitais e soluções de segurança. O objetivo é estabelecer padrões para avaliar se uma rede de criptomoedas está realmente protegida contra ataques quânticos. Entre os participantes estão Quantus, Postquant Labs, Midnight Foundation, Keystone, Abelian e Hacken. O grupo pretende desenvolver critérios técnicos que possam ser utilizados por diferentes projetos, facilitando a adoção de sistemas de proteção compatíveis entre si. A preocupação está relacionada aos avanços da computação quântica, tecnologia que utiliza princípios da física para realizar determinados tipos de cálculo de maneira diferente dos computadores tradicionais. Embora os equipamentos disponíveis atualmente ainda não sejam capazes de quebrar a criptografia do Bitcoin, pesquisadores alertam que máquinas suficientemente avançadas poderiam, no futuro, descobrir as chaves privadas de determinadas carteiras. Essas chaves funcionam como senhas criptográficas que permitem movimentar os bitcoins. Se um criminoso conseguir descobri-las, poderá transferir as moedas sem a autorização de seu verdadeiro proprietário. O problema está relacionado ao uso de assinaturas digitais baseadas em criptografia de curvas elípticas, tecnologia empregada pelo Bitcoin e por diversas outras blockchains. Em determinadas situações, a chave pública de uma carteira fica exposta nos registros da rede. Atualmente, isso não permite que alguém descubra sua chave privada, mas um computador quântico suficientemente poderoso poderia utilizar um método conhecido como algoritmo de Shor para realizar esse cálculo. Segundo estimativa apresentada pela Quantum Alliance, aproximadamente 6,04 milhões de bitcoins estão associados a chaves públicas expostas, o equivalente a cerca de 30% da oferta existente. É importante destacar que esses bitcoins não estão sendo roubados nem podem ser acessados por computadores quânticos atuais. A estimativa representa uma exposição potencial caso a tecnologia alcance capacidade suficiente para comprometer os sistemas criptográficos utilizados hoje. A ameaça também não se limita ao Bitcoin. Blockchains como Ethereum, além de stablecoins, protocolos de finanças descentralizadas (DeFi) e sistemas que conectam diferentes redes, utilizam mecanismos criptográficos que podem precisar de atualizações. Quando os computadores quânticos poderão ameaçar o Bitcoin? Ainda não existe consenso entre pesquisadores sobre quando surgirá um computador quântico capaz de comprometer a segurança das criptomoedas. A Quantum Alliance cita projeções que apontam para o final desta década, incluindo um modelo desenvolvido com participação de integrantes da organização que considera março de 2028 uma possível janela inicial. Richard Carback, diretor de tecnologia da Postquant Labs, afirmou ao CoinDesk que considera 2028 um prazo realista para o surgimento de um computador com capacidade de quebrar os sistemas criptográficos atuais. Outros especialistas, porém, trabalham com prazos mais longos e ressaltam que os desafios técnicos para construir essas máquinas continuam significativos. Um estudo do Google Quantum AI também reduziu a estimativa de recursos computacionais necessários para comprometer determinados sistemas criptográficos usados por criptomoedas. A pesquisa apontou que, sob certas condições, a tarefa poderia exigir menos de 500 mil qubits físicos, unidades fundamentais de processamento dos computadores quânticos. Isso não significa que já exista uma máquina capaz de realizar o ataque. A quantidade de qubits, por si só, não determina a capacidade de quebrar a criptografia, uma vez que também são necessários avanços em correção de erros e estabilidade dos cálculos. Para Christopher Smith, fundador e CEO da Quantus, a substituição dos sistemas criptográficos atuais será uma etapa inevitável da evolução tecnológica. “No futuro, a criptografia pós-quântica será chamada apenas de criptografia, e todo o resto estará em um museu”, afirmou o executivo, segundo o Decrypt. A nova aliança pretende justamente facilitar essa transição. O grupo foi inspirado no modelo da Internet Engineering Task Force (IETF), organização responsável pelo desenvolvimento de diversos padrões técnicos utilizados na internet. A proposta é criar mecanismos públicos para testar sistemas que se apresentam como resistentes à computação quântica, permitindo verificar se essas afirmações possuem fundamentos técnicos. Atualmente, não existe uma definição universalmente aceita do que significa uma blockchain estar preparada contra ataques quânticos. Isso permite que projetos utilizem o termo sem necessariamente demonstrar que suas soluções oferecem a proteção anunciada. Os trabalhos da Quantum Alliance serão divididos em quatro frentes: migração das blockchains para novos sistemas criptográficos, desenvolvimento de provas de conhecimento zero resistentes à computação quântica, segurança de carteiras digitais e compatibilidade entre diferentes redes. Além da criação de padrões, um dos principais desafios será definir como proteger bitcoins que estão em carteiras antigas, especialmente aquelas cujos proprietários não movimentam seus recursos há muitos anos. Entre os ativos potencialmente expostos estão moedas atribuídas a Satoshi Nakamoto, criador do Bitcoin, que permanecem praticamente intocadas desde os primeiros anos da rede. Segundo o CoinDesk, especialistas discutem alternativas como transferir os bitcoins vulneráveis para novos endereços, bloquear determinadas moedas ou criar mecanismos específicos de proteção. Essas possibilidades, entretanto, provocam divergências. Alterar as regras para impedir a movimentação de bitcoins antigos poderia afetar direitos de propriedade e contrariar princípios de funcionamento da rede, que depende do consenso de seus participantes. A criação da Quantum Alliance acontece em um momento de crescente mobilização da indústria para enfrentar o problema. Recentemente, a Coinbase, responsável pela custódia de uma parcela significativa dos bitcoins existentes, defendeu que os desenvolvedores da criptomoeda iniciem desde já os preparativos para uma migração a sistemas resistentes à computação quântica. O argumento é que mudanças dessa dimensão podem levar anos para serem desenvolvidas, testadas e adotadas por exchanges, carteiras e demais participantes da rede. Outra iniciativa, apoiada por empresas como BlackRock, Strategy e Coinbase, anunciou um compromisso de US$ 15 milhões para financiar pesquisas relacionadas à segurança das criptomoedas diante da computação quântica. Apesar das projeções sobre possíveis ataques ainda nesta década, não há evidências de que um computador quântico atualmente disponível consiga descobrir as chaves privadas utilizadas pelo Bitcoin. O desafio para o setor é, portanto, desenvolver e implementar novas proteções antes que essa capacidade tecnológica se torne realidade. Procurando uma alternativa para aumentar seus ganhos? A Renda Fixa Digital do MB é a solução: até 18% de ganho ao ano, risco controlado e a segurança que seu dinheiro merece. Conheça agora! 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