A BlaBlaCar, plataforma de viagens compartilhadas presente em 41 países, quer transformar as emissões de gases de efeito estufa evitadas por suas caronas em créditos de carbono negociáveis no mercado voluntário. O Brasil será o primeiro mercado do projeto, que pretende criar uma nova fonte de receita para a companhia e financiar a expansão da mobilidade compartilhada sem aumentar os custos para os usuários. A iniciativa foi registrada em agosto de 2026 pelo Global Carbon Council (GCC), organismo internacional responsável pela certificação. O próximo passo é monitorar os dados das viagens para preparar a verificação independente e a emissão do primeiro lote de créditos. O projeto tem prazo previsto de dez anos. “Os créditos de carbono gerados pela nossa atividade de caronas vêm diretamente das emissões evitadas pelo melhor aproveitamento desses assentos vagos”, afirma Belinda Saunders, diretora global de sustentabilidade da BlaBlaCar, em entrevista exclusiva ao Valor. Segundo a executiva, a plataforma evita cerca de 60 mil toneladas de CO₂ por ano no Brasil. Globalmente, as viagens viabilizadas pela companhia evitaram aproximadamente 4 milhões de toneladas em 2025 e 12,7 milhões de toneladas nos últimos cinco anos, de acordo com a empresa. A proposta, porém, depende de demonstrar que as emissões contabilizadas foram efetivamente evitadas e que os créditos correspondem a viagens reais, documentadas e verificáveis. Belinda Saunders, diretora global de sustentabilidade da BlaBlaCar BlaBlaCar/ Divulgação Como a conta é feita A metodologia compara dois cenários. No primeiro, estão as emissões das alternativas que passageiros e motoristas usariam sem a plataforma — carro próprio, ônibus, avião ou trem, além da hipótese de o motorista viajar sozinho —, incluindo deslocamentos de acesso, como o trajeto até uma rodoviária, e os trechos para buscar ou deixar pessoas. No segundo, entram as emissões das caronas efetivamente reservadas, com os desvios relevantes feitos pelos condutores. A diferença líquida define o volume de emissões evitadas elegível para gerar créditos. Para estabelecer a linha de base, a empresa fez pesquisas com cerca de 180 mil passageiros e 60 mil motoristas. Segundo Saunders, o trabalho contou com especialistas em estatística e passou por verificação independente. “Por se tratar do primeiro projeto de caronas desse tipo, tivemos que construir toda a estrutura do zero e a nossa prioridade foi garantir a integridade do projeto”, diz. O desenvolvimento da metodologia levou alguns anos. Ela foi aprovada pelo GCC em fevereiro de 2025, após 18 meses de análise de especialistas independentes. O projeto brasileiro passou então por mais 18 meses de auditorias até o registro. A BlaBlaCar também submeteu voluntariamente a iniciativa a uma avaliação de riscos da BeZero, especializada em projetos de carbono. De acordo com Saunders, o projeto recebeu nota BBB — a quarta melhor, atrás de “AAA”, “AA” e “A” —, o que o posiciona entre os 15% mais bem avaliados do mundo. O registro, porém, não significa que créditos já tenham sido emitidos ou vendidos. A empresa afirma que o monitoramento anual e as verificações independentes serão fundamentais para assegurar que cada crédito corresponda a uma tonelada de CO₂ equivalente efetivamente evitada. Receita para sustentar a operação A escolha do Brasil se deve à escala. A BlaBlaCar afirma ter 25 milhões de usuários no país, onde opera há sete anos. A empresa também cita a dimensão territorial e a dificuldade de acesso ao transporte em cidades menores e comunidades rurais, onde a carona pode complementar serviços regulares de ônibus. “Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a carona ajuda a conectar pequenas cidades e comunidades com acesso limitado ou inexistente a outros meios de transporte”, afirma Saunders. Em 2025, os motoristas economizaram globalmente € 568 milhões com o rateio de custos das viagens, segundo cálculo da empresa. No Brasil, foram € 125 milhões (aproximadamente R$ 750 milhões). A lógica do negócio é usar a receita gerada pelo benefício ambiental das caronas para financiar a própria rede. O objetivo, diz a executiva, é manter as viagens compartilhadas acessíveis e ampliar a oferta sem elevar as taxas de serviço. Passageiros e motoristas não precisam aderir a um programa nem pagar mais: as emissões elegíveis serão calculadas automaticamente a partir das viagens feitas na plataforma, e não haverá cobrança adicional para compensar as emissões. Os créditos serão vendidos a terceiros no mercado voluntário. A BlaBlaCar responde pela estruturação do projeto, pelas pesquisas comportamentais, pela certificação e pelas auditorias. Nos próximos 12 meses, o foco será o monitoramento para viabilizar a emissão do primeiro lote. A companhia tem um programa separado para a própria descarbonização, sem ligação com o de geração de créditos. O projeto brasileiro é o primeiro da empresa voltado ao mercado voluntário de carbono. Na França, a BlaBlaCar participa há mais de uma década do sistema nacional de Certificados de Economia de Energia e, na Espanha, mantém parceria com a Delcae no programa BlaBlaBono Energético, integrado ao aplicativo em 2025. Esses mecanismos estão ligados a programas regulatórios de eficiência energética, enquanto no Brasil os créditos são calculados diretamente a partir das toneladas de CO₂ evitadas. A empresa pretende avaliar a expansão do modelo para México e Índia, condicionada às aprovações em cada país. Descarbonização própria A empresa defende que as duas frentes são complementares: reduzir as emissões de sua cadeia de valor e ampliar o potencial de redução associado às viagens compartilhadas. Segundo Saunders, a pegada global do grupo foi de 340 mil toneladas de CO₂ equivalente em 2025, em inventário que segue o GHG Protocol, cobre os Escopos 1, 2 e 3 e é auditado pela Deloitte. Cerca de 3% das emissões vêm de escritórios e operações diretas; o restante está ligado às caronas (32%), aos ônibus da BlaBlaCar Bus (15%) e a serviços de terceiros vendidos pelas plataformas (50%). Entre as medidas adotadas estão o uso de energia renovável na sede, em Paris, a migração de servidores para nuvem abastecida só por fontes renováveis, ajustes na capacidade de processamento para reduzir o consumo de energia e uma política de viagens corporativas mais restritiva para voos. As emissões de Escopos 1 e 2 na sede caíram 67% entre 2021 e 2025, segundo a executiva. Em 2025, o grupo formalizou uma estratégia que prevê reduzir em 16% sua pegada até 2032, em relação a 2024, considerando o crescimento dos negócios. O plano reúne 11 iniciativas voltadas às operações, aos parceiros de transporte e à comunidade, entre elas o incentivo a veículos elétricos nas caronas e a ampliação do uso de biocombustíveis e de direção mais eficiente nos ônibus.
CryptoAlerta — análise de criptomoedas e mercado em tempo real