Mudança na escala 6×1 pode elevar preços no início do ano, avalia ABPA

A possível redução da jornada de trabalho no Brasil reacendeu o debate sobre os custos da indústria de alimentos. Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as mudanças na escala de trabalho podem afetar a capacidade produtiva de frigoríficos e pressionar os preços de carnes de frango e suína a partir de janeiro. A preocupação está relacionada à dificuldade de contratação de trabalhadores e à necessidade de reorganizar turnos para manter o volume de produção. Na avaliação da entidade, empresas que não conseguirem compensar a redução das horas trabalhadas poderão produzir menos ou gastar mais com horas extras, custos que eventualmente podem chegar ao consumidor. A previsão, porém, não significa que todas as carnes ficarão mais caras na mesma proporção. O impacto dependerá das condições de cada empresa, da disponibilidade de mão de obra e do comportamento da oferta e da demanda. : China avalia alterar limite de importação para a carne brasileira Como o fim da escala 6×1 pode afetar os preços dos alimentos Imagem: Canva A escala 6×1 permite que o trabalhador atue por seis dias e tenha um dia de descanso. Uma mudança para uma jornada com dois dias de folga semanais exige que as empresas reorganizem suas equipes, especialmente em atividades que funcionam continuamente ou dependem de linhas de produção integradas. Na indústria de aves e suínos, o desafio envolve manter o funcionamento dos frigoríficos sem comprometer as exigências sanitárias, ambientais e de bem-estar animal. Se uma unidade não tiver funcionários suficientes para preencher todos os turnos, poderá precisar reduzir o ritmo de abate e processamento. Ricardo Santin afirma que a redução da jornada, quando não acompanhada pela contratação de novos profissionais ou por ganhos de produtividade, pode diminuir a capacidade de produção. A ABPA estima uma perda de aproximadamente 5% da capacidade nas empresas que não conseguirem compensar a mudança. Esse percentual, entretanto, não representa uma queda garantida em toda a indústria brasileira. Trata-se de uma estimativa condicionada à dificuldade de adaptação de parte das empresas. Por que a carne de frango e a suína podem sentir o impacto O processamento de aves e suínos exige equipes distribuídas por diferentes etapas, desde o recebimento dos animais até o abate, a inspeção, o corte, a embalagem e a distribuição. A falta de trabalhadores em uma dessas fases pode limitar o desempenho de toda a operação. Segundo a ABPA, o setor enfrenta dificuldades para preencher mais de 20 mil vagas. Para contornar o problema, algumas empresas têm procurado profissionais em outras regiões do Brasil e em países como Venezuela, Haiti e Bolívia. Caso a contratação não avance no ritmo necessário, os frigoríficos poderão enfrentar duas alternativas principais: reduzir a produção ou ampliar os gastos com horas extras e reorganização dos turnos. As duas situações podem pressionar os custos, embora os efeitos variem conforme a estrutura de cada empresa. Empresas podem repassar custos aos consumidores O aumento das despesas operacionais não resulta automaticamente em alta dos preços nas prateleiras. Para que isso aconteça, as empresas precisam decidir se absorvem os custos, reduzem suas margens ou repassam parte deles aos compradores. Na avaliação de Santin, os efeitos podem começar a aparecer nos preços a partir de janeiro. A entidade, contudo, não apresentou uma estimativa consolidada de quanto a mudança acrescentaria à inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O comportamento dos preços também dependerá de fatores como custo da ração, energia elétrica, combustíveis, transporte, câmbio e demanda interna e externa. Uma eventual redução da oferta pode aumentar a pressão sobre os valores, mas outros fatores podem atenuar ou ampliar esse movimento. Para o consumidor, isso significa que não há garantia de aumento uniforme em todos os supermercados, cidades ou cortes de carne. Promoções, contratos de fornecimento e concorrência entre marcas também influenciam o preço final. O que as empresas podem fazer para se adaptar A reorganização das escalas, a contratação de funcionários e o investimento em automação estão entre as alternativas para reduzir os efeitos da mudança. Empresas que conseguirem distribuir melhor as equipes e elevar a produtividade poderão preservar parte de sua capacidade sem depender exclusivamente de horas extras. O desafio é maior em atividades nas quais a produção depende de equipes numerosas e de procedimentos que não podem ser interrompidos livremente. No caso dos frigoríficos, a operação precisa respeitar regras de segurança alimentar e condições adequadas para os animais. A ABPA declarou que pretende cumprir a legislação, mas defende um período de adaptação maior para que as empresas possam reorganizar suas operações. O tema também deve ser discutido com representantes do Ministério da Agricultura. É importante observar que os efeitos econômicos dependem do texto legal efetivamente vigente, de suas regras de transição e de eventuais regulamentações. Por isso, datas e percentuais anunciados em declarações públicas devem ser conferidos na legislação oficial antes de serem tratados como mudanças já em vigor. Fim da escala 6×1 vai provocar inflação no Brasil? Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital A preocupação apresentada pela indústria diz respeito principalmente aos custos de produção e à possível oferta de determinados alimentos. Não há, nas informações divulgadas pela ABPA, uma projeção quantificada que permita afirmar quanto a mudança elevaria o IPCA ou que provocaria uma alta generalizada dos alimentos. A redução da jornada pode aumentar os custos de algumas empresas, mas o resultado final dependerá da capacidade de adaptação do setor e das condições do mercado. O acompanhamento dos preços nos próximos meses será importante para verificar se a pressão prevista se concretiza e qual será sua dimensão para o consumidor brasileiro. Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital O post Mudança na escala 6×1 pode elevar preços no início do ano, avalia ABPA foi publicado originalmente em Seu Crédito Digital. A reprodução não autorizada deste conteúdo é proibida e monitorada. 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