Saúde registra 55 M&As no semestre e hospitais, clínicas e laboratórios lideram operações

O mercado brasileiro de saúde, ciências da vida e bem-estar registrou 55 operações de fusões e aquisições no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento da KPMG. Hospitais, clínicas e laboratórios lideraram as transações do período, colocando os prestadores de serviços de saúde no centro da movimentação de M&A. O avanço das operações encontra um mercado que, apesar da presença de grandes redes nacionais, continua bastante pulverizado. Em 2024, o Brasil possuía cerca de 6,5 mil hospitais gerais e especializados, aproximadamente 60% deles privados, segundo dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) compilados pela Moody's Local. Os cinco maiores operadores hospitalares privados concentravam conjuntamente apenas entre 15% e 20% dos leitos privados. Essa fragmentação cria espaço para diferentes teses de investimento. Além da aquisição de ativos por grupos já consolidados, fundos de private equity, family offices e investidores estratégicos podem aportar capital em empresas regionais com potencial de crescimento e utilizar essas operações como ponto de partida para expansão e novas aquisições. Para a ADVISIA Investimentos, braço de fusões e aquisições do Grupo ADVISIA, o volume de transações precisa ser analisado também a partir das oportunidades de geração de valor que surgem em um mercado pulverizado. "O investidor não olha para a fragmentação apenas como uma quantidade grande de empresas disponíveis para aquisição. Ele busca entender onde a combinação de operações pode gerar valor. Em saúde, isso pode acontecer por ganho de escala, expansão geográfica ou incorporação de especialidades, por exemplo. É essa tese de criação de valor que precisa sustentar uma transação", afirma Laura Rodrigues, VP da ADVISIA Investimentos. Fragmentação encontra pressão por capital O interesse por consolidação também ocorre em um momento em que parte dos prestadores enfrenta limitações financeiras para sustentar novos ciclos de expansão. A margem EBITDA média dos hospitais ficou próxima de 11% em 2025, enquanto o prazo médio de recebimento superou 77 dias. Glosas e ciclos prolongados de pagamento adicionam pressão sobre o fluxo de caixa das instituições. A situação ganha relevância principalmente entre unidades de menor porte. O setor é marcado por um número elevado de hospitais pequenos, com até 50 leitos, e médios, entre 51 e 150 leitos. Em algumas operações, os custos fixos representam mais da metade das despesas, fazendo com que a baixa escala possa pressionar a eficiência financeira. Nesse ambiente, o capital externo pode assumir um papel que vai além da troca de controle. Recursos de novos investidores podem financiar expansão da capacidade instalada, tecnologia, gestão ou aquisições que seriam mais difíceis de executar apenas com a geração própria de caixa. "Para uma empresa regional, trazer um investidor pode significar acessar em poucos anos uma capacidade de expansão que levaria muito mais tempo para ser construída apenas com geração própria de caixa. Isso muda inclusive sua posição dentro do processo de consolidação: uma companhia que poderia ser vista como alvo passa a ter recursos para realizar suas próprias aquisições", explica Laura. Capital não precisa significar saída do fundador O aumento das operações também não significa necessariamente uma onda de vendas integrais. Dependendo do estágio da empresa e dos objetivos dos acionistas, um novo investidor pode adquirir participação no negócio e, ao mesmo tempo, aportar recursos diretamente na companhia. Nesse tipo de estrutura, fundos de private equity, family offices ou investidores estratégicos passam a dividir a sociedade com os atuais acionistas. O aporte pode ocorrer por meio de aumento de capital e também incluir uma parcela secundária destinada aos sócios atuais. A combinação permite que parte do dinheiro seja direcionada ao crescimento da empresa enquanto os fundadores permanecem no negócio e, dependendo da estrutura, realizam uma parcela do patrimônio construído. "Nem toda operação de M&A precisa representar a saída do fundador. Em muitos casos, o investidor entra justamente porque existe um plano de crescimento a ser financiado. O desafio é dimensionar quanto capital precisa permanecer na empresa, qual participação os atuais acionistas querem manter e como essa nova sociedade será estruturada para que todos estejam alinhados com a próxima etapa do negócio", afirma Laura. Empresas regionais também podem liderar consolidação Em um setor pulverizado, a entrada de recursos pode mudar a posição de hospitais, clínicas e laboratórios no próprio mercado de M&A. Uma companhia regional capitalizada pode utilizar o investimento não apenas para crescer organicamente, mas também para adquirir operações menores ou complementares. Essa estratégia pode envolver expansão geográfica, incorporação de novas especialidades, ampliação de capacidade ou combinação com prestadores que permitam construir uma operação regional de maior escala. O modelo está entre as possibilidades mapeadas pela ADVISIA Investimentos para empresas do setor. Dependendo do objetivo dos acionistas, hospitais, clínicas e laboratórios podem liderar ou se associar a estruturas de consolidação, buscando sinergias operacionais e maior relevância de mercado. "Em mercados fragmentados, o capital pode acelerar uma estratégia de consolidação. Uma empresa que levaria anos para construir escala apenas de forma orgânica pode utilizar recursos de um novo investidor para realizar aquisições e ampliar sua presença. Nesse cenário, uma empresa regional deixa de olhar para o M&A apenas pela perspectiva de quem pode comprá-la e passa a enxergá-lo também como instrumento para executar sua própria estratégia de crescimento", diz Laura. Valuation depende da estratégia por trás da transação O aumento do interesse por ativos de saúde também coloca o valuation no centro das negociações. Mais do que definir quanto uma empresa vale atualmente, a avaliação precisa considerar o que poderá ser construído a partir da entrada de capital ou da combinação com outros ativos. Na estruturação das operações, fatores como capacidade de caixa, contratos com operadoras, estrutura societária e interesse dos fundadores em manter ou reduzir sua participação ajudam a determinar qual formato faz sentido para cada empresa. A perspectiva de crescimento também influencia a discussão. Uma companhia pode buscar recursos para ampliar capacidade, enquanto outra pretende realizar aquisições ou incorporar novas operações. Em cada cenário, a quantidade de capital necessária e a participação que será negociada podem ser diferentes. "Duas empresas com dimensões semelhantes podem chegar a uma transação com perspectivas muito diferentes. O investidor está olhando para o negócio existente, mas também para a capacidade daquele ativo de gerar valor a partir da estratégia que será executada. Por isso, valuation, necessidade de capital e plano de crescimento precisam ser discutidos conjuntamente", afirma Laura. Nem toda transação parte de um plano de crescimento Há ainda situações em que o objetivo dos atuais acionistas é diferente. Sucessão, momento pessoal ou de mercado e a decisão de realizar o patrimônio construído ao longo dos anos podem levar um ou mais sócios a considerar uma saída total ou parcial do negócio. Nesses casos, segundo a ADVISIA Investimentos, a preparação da companhia pode anteceder a própria busca por compradores. Uma análise das frentes financeira, operacional, fiscal e trabalhista permite avaliar o valor atual da empresa e identificar se existem medidas de curto ou médio prazo que façam sentido antes de iniciar a transação. "Existe uma diferença entre colocar uma empresa à venda e preparar uma empresa para uma venda. Quando há espaço para trabalhar o ativo antes de iniciar um processo competitivo, é possível identificar fatores que podem limitar seu valor e avaliar quais deles podem ser endereçados. Isso permite que o acionista tome a decisão olhando não apenas para a possibilidade de saída, mas também para a melhor forma de realizar o valor construído ao longo dos anos", explica Laura. Para a ADVISIA Investimentos, o aumento da atividade de M&A em saúde não aponta para um único modelo de transação. Empresas com características semelhantes podem seguir caminhos diferentes de acordo com sua situação financeira, estratégia de crescimento e objetivos dos acionistas. "Não existe uma estrutura ideal para todo hospital, clínica ou laboratório. Uma empresa pode precisar de capital para crescer, outra pode ter condições de liderar uma consolidação e uma terceira pode ter acionistas buscando liquidez ou saída. O ponto de partida é entender qual é o objetivo estratégico e, a partir disso, estruturar a transação que faça sentido para alcançá-lo", conclui Laura.

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