Golpe da biometria acende alerta sobre segurança digital; veja o que fazer

A biometria facial, utilizada por bancos, aplicativos e plataformas digitais para confirmar a identidade dos usuários, tornou-se um novo alvo de organizações criminosas. Com o auxílio da inteligência artificial (IA), ferramentas de comparação de imagens e dados pessoais obtidos ilegalmente, fraudadores desenvolvem métodos para se passar por outras pessoas, abrir contas bancárias e aplicar golpes financeiros. Entre as estratégias utilizadas estão a criação de identidades fictícias, a procura por pessoas com características faciais semelhantes às dos criminosos e a manipulação de fotografias e vídeos. Em outras situações, as próprias vítimas são convencidas a fornecer selfies e realizar procedimentos de validação biométrica sem saber que suas informações poderão ser utilizadas em fraudes. O problema afeta tanto instituições financeiras e empresas do varejo quanto consumidores comuns. Dados divulgados pela Serasa Experian apontaram 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade no Brasil no primeiro semestre de 2026, um aumento de 32,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Entenda como funcionam os golpes com biometria facial, quais são as técnicas utilizadas pelos criminosos e quais cuidados ajudam a evitar o uso indevido da sua identidade. : Bolsa Família não é cortado automaticamente após contratação; veja quando pode mudar Como os criminosos estão burlando o reconhecimento facial? Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital A biometria facial utiliza características do rosto para verificar se uma pessoa corresponde à identidade informada em determinado cadastro ou operação. Embora seja uma ferramenta importante de segurança, ela não está livre de tentativas de manipulação. Os criminosos exploram diferentes fragilidades dos processos de identificação. Em alguns casos, utilizam fotografias e vídeos de terceiros. Em outros, recorrem à inteligência artificial para produzir imagens sintéticas ou encontrar pessoas fisicamente semelhantes às identidades que pretendem utilizar. O objetivo costuma ser conseguir aprovação em cadastros digitais, abrir contas bancárias, contratar serviços financeiros ou acessar operações que exigem confirmação de identidade. A fraude também pode começar fora do ambiente digital. Abordagens presenciais, falsas promoções, ofertas de emprego e supostas premiações são utilizadas para convencer as vítimas a fornecer imagens do próprio rosto. Golpe do sósia usa comparação facial para encontrar vítimas Uma das modalidades que chamaram a atenção em 2026 foi o chamado golpe do sósia, identificado pela Serasa Experian em seu Mapa da Fraude do primeiro semestre. Nessa estratégia, o criminoso utiliza ferramentas de comparação facial para procurar pessoas que tenham características físicas semelhantes às suas. A partir dessa busca, tenta utilizar os dados e a identidade de alguém com maior possibilidade de passar por sistemas de reconhecimento facial. A tática representa uma mudança na lógica tradicional das fraudes de identidade. Em vez de escolher primeiro uma vítima e tentar reproduzir sua aparência, o golpista começa procurando uma identidade compatível com o próprio rosto. Segundo o levantamento, as ferramentas utilizadas podem identificar níveis de similaridade facial de até 99%. A empresa também registrou 2,86 milhões de ocorrências de alto risco em processos de cadastro e abertura de contas no primeiro semestre de 2026. A estratégia demonstra por que o reconhecimento facial não deve ser utilizado como único mecanismo de confirmação de identidade. A verificação de documentos, a prova de vida e a análise de outros dados cadastrais ajudam a identificar inconsistências que uma comparação de rostos isolada poderia não detectar. Inteligência artificial facilita a criação de rostos falsos O avanço da inteligência artificial generativa ampliou as possibilidades de manipulação de imagens. Com fotografias disponíveis na internet, criminosos podem produzir conteúdos artificiais que imitam características físicas, expressões e movimentos de uma pessoa. Uma das técnicas utilizadas é o deepfake, tecnologia capaz de criar ou modificar imagens, vídeos e áudios para simular a aparência ou a voz de alguém. Esse recurso pode ser empregado tanto em tentativas de burlar sistemas de autenticação quanto em golpes de engenharia social. A exposição nas redes sociais também facilita a coleta de material. Fotografias públicas, vídeos publicados em perfis pessoais e imagens compartilhadas em aplicativos podem servir de referência para a criação de conteúdos falsificados. Outra abordagem consiste em convencer a própria vítima a fornecer imagens adequadas para procedimentos biométricos. Os criminosos podem se apresentar como recrutadores, representantes de empresas ou organizadores de promoções e solicitar uma selfie acompanhada de documento de identificação. O alerta é especialmente relevante porque a biometria é considerada um dado pessoal sensível pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), Lei nº 13.709/2018. Isso significa que seu tratamento exige cuidados específicos e proteção reforçada. Fraude de R$ 86 milhões no INSS utilizava dublês biométricos Um dos casos mais expressivos de fraude envolvendo identificação biométrica foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) em outubro de 2026, em Minas Gerais. Segundo a investigação, uma organização criminosa teria movimentado ilegalmente mais de R$ 86 milhões por meio de benefícios do Benefício de Prestação Continuada (BPC), destinado a idosos em situação de vulnerabilidade. O esquema funcionava a partir da criação de pessoas que nunca existiram. Integrantes da quadrilha providenciavam registros tardios de nascimento em cartórios, utilizando testemunhas falsas para conseguir certidões. Com os documentos, eram emitidos Cadastros de Pessoas Físicas (CPFs) e documentos oficiais de identificação. A etapa seguinte envolvia os chamados dublês biométricos. Pessoas reais emprestavam seus rostos e impressões digitais para se apresentar como os idosos fictícios durante os procedimentos de identificação no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e em instituições bancárias. De acordo com a investigação, foram identificados 457 benefícios fraudulentos. Desse total, 240 ainda estavam ativos quando a operação foi deflagrada. A interrupção dos pagamentos irregulares evitou um prejuízo adicional estimado em R$ 34,8 milhões. Em 6 de outubro, o Ministério Público Federal apresentou denúncia contra 35 investigados à Justiça Federal. Mais de 170 laudos papiloscópicos e biométricos ajudaram a demonstrar que as mesmas impressões digitais estavam associadas a diferentes identidades. O episódio evidencia que a fraude de identidade não depende necessariamente de uma imagem digital manipulada. A utilização de pessoas reais como representantes de identidades fictícias também pode comprometer processos de identificação presencial. Como funciona o golpe da coleta de biometria? Outra modalidade preocupa instituições financeiras: a coleta indevida de dados biométricos por meio de abordagens fraudulentas. Nesse tipo de golpe, a vítima recebe uma proposta aparentemente legítima e é convencida a realizar uma verificação facial. O criminoso pode alegar que precisa confirmar a identidade para liberar um prêmio, validar um cadastro, participar de uma promoção ou concluir uma contratação. A abordagem pode acontecer presencialmente ou por meio de links enviados por aplicativos de mensagens e e-mails. Depois de obter as imagens e outros dados pessoais, os fraudadores tentam utilizá-los em processos de abertura de contas e contratação de serviços financeiros. Essas contas podem ser usadas para receber e movimentar dinheiro proveniente de outras atividades criminosas. O Itaú também publicou um alerta sobre essa prática, descrevendo abordagens que utilizam falsas promoções, supostos problemas cadastrais e links fraudulentos para induzir consumidores a compartilhar informações biométricas. A orientação é desconfiar de qualquer solicitação inesperada de reconhecimento facial. Antes de realizar o procedimento, o consumidor deve verificar se a empresa realmente existe, se a solicitação foi feita por um canal oficial e qual é a finalidade da coleta. Empresas também estão reforçando a segurança contra fraudes O crescimento das tentativas de falsificação de identidade tem levado bancos, fintechs e empresas do varejo a ampliar os mecanismos de proteção. Uma das medidas é combinar diferentes tecnologias de identificação. Em vez de depender exclusivamente da comparação entre rostos, os sistemas podem analisar documentos, sinais de vida, informações cadastrais, características do dispositivo e padrões de comportamento. A Serasa Experian identificou 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade no primeiro semestre de 2026. O volume representou uma ocorrência de alto risco a cada 5,5 segundos e um prejuízo potencial estimado em R$ 3,77 bilhões caso as tentativas não fossem identificadas. Outra iniciativa é a criação de bases de informações sobre tentativas de fraude. A empresa CertiFace, por exemplo, informou possuir mais de 3,6 milhões de registros de rostos com restrições associados a ocorrências suspeitas em operações monitoradas. Esse tipo de recurso pode ajudar a identificar tentativas repetidas de utilização de uma mesma identidade. Entretanto, a sinalização de um rosto não deve ser confundida automaticamente com comprovação de crime: casos suspeitos precisam passar por procedimentos de análise e validação. A tendência é que a proteção digital dependa cada vez mais da combinação entre tecnologia, monitoramento e avaliação humana. Como proteger sua biometria facial de criminosos? A prevenção começa com o cuidado ao compartilhar fotografias, documentos e informações pessoais. Embora não seja necessário abandonar as redes sociais ou deixar de utilizar o reconhecimento facial, algumas mudanças de comportamento podem diminuir a exposição. Veja os principais cuidados recomendados para proteger sua identidade: 1. Restrinja a exposição nas redes sociais Revise as configurações de privacidade dos seus perfis e limite o acesso de desconhecidos às suas fotografias e vídeos. Evite publicar documentos, imagens de cartões, informações cadastrais ou conteúdos que revelem dados pessoais desnecessários. 2. Não envie selfies com documentos para desconhecidos Desconfie de empresas, recrutadores e supostos representantes comerciais que solicitem fotografias segurando RG ou CNH por WhatsApp ou e-mail. Confirme a legitimidade da solicitação diretamente com a organização. 3. Desconfie de links para reconhecimento facial Não realize procedimentos biométricos em páginas recebidas por mensagens sem verificar sua autenticidade. Acesse o aplicativo ou o site oficial da instituição por conta própria. 4. Revise as permissões dos aplicativos Confira quais aplicativos têm acesso à câmera, ao microfone e à galeria de imagens do celular. Retire permissões que não sejam necessárias para o funcionamento dos serviços. 5. Utilize autenticação em duas etapas Ative a autenticação em dois fatores (2FA) nas contas bancárias, no e-mail e nas redes sociais. Sempre que possível, prefira aplicativos autenticadores ou chaves de segurança, em vez de depender exclusivamente de códigos recebidos por SMS. 6. Não dependa apenas do reconhecimento facial Utilize outras barreiras de proteção, como senhas fortes, PINs e confirmações adicionais para operações financeiras. A biometria deve integrar um conjunto de mecanismos de segurança. 7. Mantenha o celular protegido Atualize o sistema operacional e os aplicativos, evite instalar programas de fontes desconhecidas e utilize ferramentas de segurança confiáveis para reduzir o risco de acesso indevido aos seus dados. Como identificar um golpe com deepfake? Os golpes com inteligência artificial também podem atingir pessoas que nunca compartilharam diretamente sua biometria com criminosos. Uma das situações mais comuns envolve mensagens de familiares, amigos ou profissionais conhecidos que aparecem em vídeos ou áudios solicitando transferências financeiras. O conteúdo pode parecer convincente, especialmente quando utiliza a voz e a aparência de alguém próximo. Por isso, a verificação da identidade deve acontecer por um canal independente. Alguns cuidados ajudam a evitar esse tipo de abordagem: Desconfie de pedidos urgentes de dinheiro: criminosos costumam criar situações de emergência para impedir que a vítima tenha tempo de verificar a história. Faça uma ligação para o número conhecido: encerre a chamada suspeita e procure a pessoa pelo contato que já estava salvo em sua agenda. Combine uma palavra de segurança: familiares podem estabelecer uma expressão secreta para confirmar a identidade em situações financeiras delicadas. Confirme informações por outros meios: procure outro familiar ou alguém próximo antes de realizar transferências. Não confie apenas na aparência ou na voz: vídeos e áudios podem ser manipulados com inteligência artificial. Pedir que a pessoa faça movimentos inesperados durante uma chamada de vídeo pode ajudar a identificar algumas falhas de manipulação, mas não é um método confiável de autenticação. Tecnologias mais avançadas conseguem reproduzir movimentos e expressões com resultados convincentes. A confirmação por um canal independente continua sendo uma medida mais segura. O que fazer se sua biometria for utilizada em uma fraude? Imagem: Canva Quem suspeitar que teve a identidade utilizada indevidamente deve agir rapidamente. A primeira medida é identificar se existem contas, empréstimos, cartões ou movimentações financeiras desconhecidas em seu nome. O Banco Central disponibiliza o serviço Registrato, que permite consultar informações sobre relacionamentos bancários e operações de crédito vinculadas ao CPF. Se encontrar uma conta aberta sem autorização, siga estas orientações: Identifique a instituição financeira: consulte o Relatório de Contas e Relacionamentos (CCS), disponível no sistema Meu BC, caso não saiba onde a conta foi aberta. Entre em contato com o banco: utilize os canais oficiais e solicite o bloqueio ou encerramento da conta fraudulenta. Registre um boletim de ocorrência: apresente mensagens, documentos, registros de chamadas e outras evidências disponíveis. Solicite informações sobre a fraude: peça ao banco esclarecimentos sobre a abertura da conta e acesso às movimentações realizadas. Guarde os protocolos: mantenha os números de atendimento, comprovantes e respostas recebidas. Procure a Ouvidoria: se o problema não for resolvido pelo atendimento inicial, formalize uma reclamação na instituição e, se necessário, no Banco Central. Se houver movimentação financeira não autorizada, a contestação deve ser feita imediatamente. Quanto mais cedo a instituição for comunicada, maiores são as possibilidades de interromper operações suspeitas e iniciar a investigação. Conclusão Embora a biometria facial seja uma importante ferramenta de segurança, o avanço da inteligência artificial também tem facilitado novas modalidades de fraude. Diante desse cenário, proteger imagens, documentos e dados pessoais tornou-se fundamental para evitar o uso indevido da identidade. Desconfiar de solicitações inesperadas, verificar a origem de links e mensagens e utilizar diferentes camadas de autenticação são medidas que ajudam a reduzir os riscos. Afinal, mesmo com tecnologias cada vez mais sofisticadas, a prevenção e a atenção dos usuários continuam sendo essenciais para proteger informações pessoais e evitar prejuízos financeiros. O post Golpe da biometria acende alerta sobre segurança digital; veja o que fazer foi publicado originalmente em Seu Crédito Digital. A reprodução não autorizada deste conteúdo é proibida e monitorada. O post Golpe da biometria acende alerta sobre segurança digital; veja o que fazer apareceu primeiro em Seu Crédito Digital.

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