Como Lula virou a eleição em Minas Gerais? Entenda a estratégia

Minas Gerais foi o único Estado em que a liderança mudou do primeiro para o segundo turno, contribuindo de forma decisiva para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mesmo sem palanque no Estado, dada a vitória em primeiro turno do governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos), Lula, que perdia por 588.612 votos no primeiro turno em Minas Gerais, venceu o pleito no Estado com vantagem de 109.313 votos. O resultado confirmou a máxima de que quem vence em Minas vence no Brasil. Ana Elisa exalta mobilização e defende diálogo com Cleitinho; entenda a estratégia Gráficos: Veja resultado do 2º turno para presidente por Estado e região Veja o resultado da votação para presidente por município A campanha de Lula acredita que o resultado deveu-se à retomada das ruas e mobilização nas redes. Do lado da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), há busca por culpados pela derrota. Interlocutores acusam Cleitinho e seu vice, Luís Eduardo Falcão (Republicanos), de pouco empenho na campanha. Uma ala bolsonarista considera que houve falhas em decisões de campanha tomadas pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). No primeiro turno, Flávio ficou em primeiro lugar, com 5,77 milhões (48,24%) dos votos, contra 5,18 milhões de Lula (43,33%). No segundo turno, o petista obteve 6,35 milhões de votos (50,43%), contra 6,24 milhões de Flávio (49,57%). Do primeiro para o segundo turno, Lula ganhou 1,16 milhão de votos em Minas Gerais, enquanto Flávio ganhou 464,2 mil votos. Houve virada em 76 municípios mineiros, e ampliação de votos para Lula em todas as regiões do Estado, sobretudo no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais e Zona da Mata. Mutirão de deputados e articulação com prefeitos A campanha do petista considera o feito resultado de uma combinação de mobilização nas redes, retomada das ruas e trabalho de corpo a corpo nos municípios. “Nós fizemos um trabalho muito intenso em Minas. Em cada região do Estado, cada pessoa ficou responsável por uma coisa. Nós ficamos muito bem organizados”, disse a deputada federal eleita Ana Elisa (PT), que participou da campanha de Lula no segundo turno. Cada deputado, eleito ou não eleito, ficou responsável por atuar na região onde obteve mais votos no primeiro turno, para angariar mais votos. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, teve papel fundamental na articulação com prefeitos no Estado, aproveitando sua relação mais próxima com as prefeituras. Também atuaram nessa mobilização regional o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), a presidente do PT em Minas Gerais, a deputada estadual Leninha, e a senadora eleita Marília Campos (PT-MG). A campanha também reforçou as ações nas ruas, ampliando o número de passeatas e engajando movimentos estudantis e sociais nas manifestações. Ana Elisa disse que o principal objetivo foi reduzir os índices de abstenção, levar idosos para votar e trazer a juventude para o campo progressista. “Nós retomamos o que era nosso, que eram as ruas, que eram as pessoas, o povo lutando. E agora nós temos também as redes sociais como antes não tínhamos”, afirmou a deputada eleita. O trabalho com os movimentos estudantis e visitas às universidades foram essenciais para engajar o público jovem. “A gente percebeu algo não víamos há muito tempo. Essa vontade do popular de votar. Os estudantes daqui em Minas e em quase todos os Estados protagonizaram essas eleições no segundo turno”, afirmou Ana Elisa. O número de idosos votantes também cresceu, possivelmente por uma consciência histórica e a decisão sobre o país que querem deixar para as novas gerações, disse a deputada. As estratégias digitais ficaram a cargo do deputado federal André Janones (Rede-MG), com colaboração de Ana Elisa. “O presidente já falou em um de seus discursos que ele quer dar prioridade para a comunicação digital neste Lula 4. E eu acho que isso é muito importante. Ele percebeu a diferença que fazem as redes sociais. Ele está animado para entrar inclusive no Exército do Lula, dar os próprios comandos”, disse Ana Elisa. PL busca culpados Do lado da campanha de Flávio Bolsonaro, segundo interlocutores, há uma busca agora por culpados pela derrota em Minas Gerais. Uma ala do PL acusa Cleitinho e seu vice eleito, Luís Eduardo Falcão, de não terem se envolvido na campanha no segundo turno, dificultando o ganho de mais votos para Flávio. Cleitinho e Falcão anunciaram apoio ao senador, mas participaram apenas da motociata do candidato, em Belo Horizonte, na véspera da eleição, e de um Bloco do 22 realizado em Divinópolis. Eles também acompanharam a apuração junto com Flávio. Segundo interlocutores, eles estavam mais ocupados em comemorar a própria vitória do que em garantir votos para Flávio. Cleitinho teve 6,2 milhões de votos no primeiro turno. Flávio obteve 5,77 milhões de votos em Minas Gerais. Também causou incômodo o fato de Cleitinho ter afirmado publicamente mais de uma vez que iria dialogar com o presidente eleito, independentemente de quem vencesse. Cleitinho ainda não cumprimentou Lula pela vitória e não quis falar sobre o assunto. Pessoas próximas disseram que Cleitinho ficou "chateado" com o resultado da eleição e com as acusações de parte dos bolsonaristas. Uma ala do PL também culpa o deputado Nikolas Ferreira pela derrota no segundo turno. O parlamentar trabalhou diretamente na campanha no segundo turno, percorrendo o país com o Bloco do 22. O deputado investiu em mais ações em outros Estados, considerando que a vantagem obtida em Minas Gerais no primeiro turno seria mantida ou ampliada. No primeiro turno, Flávio fechou com vantagem em nove dos dez maiores colégios eleitorais de Minas Gerais no primeiro turno. Lula ficou à frente apenas em Juiz de Fora, na Zona da Mata. No segundo turno, além de Juiz de Fora, Lula também alcançou a liderança em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte. Já considerando a totalidade de municípios do Estado, Lula teve maioria de votos em 452 municípios no primeiro turno e 528 no segundo. Flávio teve maioria em 401 e 325 municípios, no primeiro e segundo turnos, respectivamente. O cientista político e professor do Ibmec Adriano Cerqueira avalia que houve um quadro de desmobilização do lado de Flávio Bolsonaro, porque não houve segundo turno em Minas Gerais. “Talvez o Cleitinho tenha tido uma participação na ampliação de votos do Flávio no segundo turno, mas não foi suficiente para bloquear o aumento da votação no Lula. Em 2022, o Romeu Zema teve uma atuação mais agressiva, no sentido de mudar os votos em favor do Jair Bolsonaro contra o Lula no segundo turno. E o resultado foi semelhante a esse agora, Lula ganhou com margem apertada em Minas”, afirmou. Em 2022, Lula venceu em Minas Gerais com 50,20% dos votos válidos, contra 49,80% de Jair Bolsonaro, uma diferença de 49.650 votos. A diferença contra Flávio em 2026 foi de 109.313 votos no segundo turno. Cerqueira também considera que o aumento de votos para Lula no segundo turno deveu-se em grande parte à queda na abstenção em Minas Gerais em relação ao primeiro turno. As abstenções em Minas Gerais passaram de 3,73 milhões de eleitores (22,81%) no primeiro turno para 3,32 milhões de eleitores (20,33%) no segundo turno. “Acredito que a abstenção influenciou mais a votação para Lula no segundo turno. Talvez também tenha havido uma transferência de votos da chamada terceira via para Lula maior do que o previsto nas pesquisas”, acrescentou o cientista político.

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