Bitcoin: o termômetro mais sensível do mercado financeiro

Imagine as bolsas do mundo em um blecaute de dois dias ou mais. Todo mundo no escuro. Não seria desesperador? Na verdade, é isso que acontece todo final de semana com as bolsas dos EUA e com a B3, das 18h de sexta até às 10h de segunda-feira. O mercado financeiro entra em estado de espera, completamente incapacitado de agir nesses momentos. Acontece que a geopolítica e a economia não respeitam o calendário das bolsas, muito pelo contrário. A divulgação dos balanços das empresas acontece depois que o mercado fecha para dar tempo dos investidores digerirem as informações. Trump faz suas declarações bombásticas e escala conflitos na véspera do final de semana. Enquanto Wall Street e a Faria Lima ficam de mãos atadas, as negociações dos criptoativos seguem sem parar. Por isso, não se trata de prever como o mercado financeiro vai se comportar quando abrir, mas sim de medir o sentimento do momento. O Bitcoin é a única válvula de escape aberta, com liquidez suficiente para absorver o fluxo de capital e precificar o choque no instante exato em que ele ocorre, enquanto o mercado tradicional finge que nada está acontecendo. O mercado mais reativo às incertezas Mesmo enquanto as bolsas mundiais estão abertas e operando normalmente, ainda assim, o Bitcoin se comporta de modo único. Ele se tornou um dos ativos mais reativos aos diversos dados econômicos, como inflação e mercado de trabalho dos Estados Unidos, e às diversas incertezas políticas ao redor do mundo. O mercado cripto é o mais volátil de todos, e por isso, essa sensibilidade extrema aos dados é o reflexo de um ativo que, até pouco tempo atrás, era dominado por especuladores de curtíssimo prazo. No entanto, o setor vem sendo institucionalizado nos últimos anos, o que fez com que o Bitcoin deixasse de ser uma ilha isolada e independente. Com a entrada dos gigantes do mercado tradicional, como as gestoras BlackRock e a Fidelity, principalmente depois do sucesso absoluto dos ETFs de BTC à vista nos Estados Unidos, o BTC passou definitivamente a integrar o sistema financeiro tradicional. Hoje, até os gestores mais conservadores, que comandam trilhões de dólares em fundos de pensão, também estão calibrando suas posições em ativos digitais. Essa integração maior valida o BTC como termômetro, pois agora ele também representa o sentimento dos investidores mais tradicionais e não só a pessoa física, que, de forma geral, opera com base na emoção. Por não ter amarras regulatórias, como os circuit breakers, e nem depender de determinada bolsa estar aberta, o capital nos criptoativos é o primeiro a reagir quando há excesso de liquidez no mercado. Além disso, devido a seu maior risco, é o primeiro a ser retirado das carteiras quando a incerteza aparece, pois, nesses momentos, as pessoas tendem a investir de forma mais conservadora. A alta volatilidade, que muitas vezes é apontada como defeito e altíssimo risco, é justamente o que faz dele um instrumento mais sensível para aferir a aversão ao risco, principalmente no cenário internacional. Um único termômetro para febres distintas A aferição do risco financeiro ganha ainda mais significado quando observamos os diversos motivos de adoção do BTC ao redor do mundo. O ativo se consolidou como um dos mais democráticos do mundo, pois atende a propósitos completamente diferentes, dependendo da necessidade específica de cada país. No relatório mais recente de adoção global da Chainalysis, conseguimos identificar claramente essa dinâmica. Entre os países de maior adoção temos: Grandes potências mundiais, como Estados Unidos, Japão, Canadá e Alemanha, nas quais o ativo reage com base nos dados econômicos, como expectativas das taxas de juros, dados do mercado de trabalho, atividade da indústria e a conflitos políticos. Mercados emergentes, como Brasil, Índia e África do Sul, que sofrem os impactos das grandes potências diretamente e utilizam o ativo como ferramenta de diversificação do patrimônio e dolarização. Nações que convivem com uma inflação persistente, como Argentina e Turquia, que operam cripto como ferramenta de sobrevivência e proteção contra a corrosão da moeda local. Regiões sob tensões geopolíticas agudas, como o caso da Rússia e Ucrânia, cenário no qual o BTC se consolida como uma alternativa neutra fora do alcance estatal. Países mais pobres, como Nigéria, Indonésia, Vietnã e Filipinas, veem o BTC como uma alternativa para diversificar seus investimentos em ativos dolarizados e buscam um forte potencial de retorno. O instrumento de medição é o mesmo para o planeta inteiro, mas o motivo da febre varia de acordo com as necessidades de cada economia. Portanto, além de sinalizar de forma clara o sentimento macroeconômico, o BTC se transformou em uma ferramenta de proteção multifuncional para diferentes cenários. O efeito dominó no Brasil Por aqui, o investidor brasileiro precisa evitar as armadilhas do viés doméstico. Momentos políticos incertos, como o atual, podem causar movimentos bruscos no Ibovespa e nos fundos imobiliários no curto prazo. Entretanto, podemos considerar o Bitcoin indiferente à política de Brasília, mesmo com o Brasil sendo hoje o país de maior adoção, conforme o relatório da Chainalysis citado anteriormente. O que acontece por aqui acaba sendo mais uma consequência. Quem realmente dita o rumo do BTC no longo prazo é o cenário macroeconômico global. Além disso, o investidor brasileiro ganhou uma ferramenta prática, que muitos ainda subestimam: a negociação ou o acompanhamento ininterrupto do dólar, facilmente acessível pelo par de negociação USDT/BRL nas exchanges brasileiras. Antes, se uma notícia grave estourasse no sábado à noite, o investidor era obrigado a esperar até as 9h da manhã de segunda-feira apenas para ver o dólar já abrindo em alta. Hoje, a stablecoin calibra o risco cambial em tempo real, inclusive ao longo do fim de semana, te dando a oportunidade de investir sem precisar esperar o mercado tradicional abrir. Além da proteção cambial, a matemática da diversificação é outra característica importante. Devido à assimetria de risco e retorno, a inclusão de uma pequena parcela de Bitcoin em um portfólio de investimento, algo entre 3% e 5%, tem o poder histórico de melhorar a rentabilidade da carteira, sem necessariamente explodir o risco. Quando tomar a decisão Enxergar o mercado cripto por essa nova lente muda a forma de analisarmos seus ciclos de quatro anos, ou quem sabe, pode até quebrá-los de vez. No curto prazo, ele reflete imediatamente o aperto monetário, inflação e o humor dos investidores. No longo prazo, se beneficia do prêmio da desconfiança contra a expansão desenfreada da dívida pública e a diluição da moeda fiduciária, já que a emissão de novos BTC é previsível e só diminui. Portanto, o risco para o investidor, não está na volatilidade, que pode acontecer até mesmo no final de semana, porque é pior ainda ficar de mãos atadas, incapacitado de reagir, simplesmente porque o pregão não está aberto. O termômetro do mercado financeiro segue ligado em tempo integral. Cabe a você decidir se vai agir antes ou depois que a febre chegar aos 40ºC. Sobre o autor Thales Inada é especialista de criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Atua profissionalmente no mercado cripto desde 2017, com passagem pelas maiores exchanges do Brasil e do mundo. O post Bitcoin: o termômetro mais sensível do mercado financeiro apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.

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