O presidente do Paraguai, Santiago Peña, nomeou o economista veterano Raúl Vera Bogado para liderar o banco central do país, o BCP, em um momento em que o país sul-americano enfrenta uma crise de solvência em uma importante instituição financeira com laços com o governo. Bogado substitui Carlos Carvallo, que renunciou na terça-feira, dia em que a autoridade monetária assumiu o controle do ueno bank, o sexto maior banco do Paraguai em volume de depósitos. Nesta quarta-feira, Peña também nomeou Pedro Acosta e Edsel González para completar a diretoria de cinco membros do Banco Central. As três indicações precisam ser ratificadas pelo Senado. “O sistema financeiro é sólido e conta com instituições e mecanismos de salvaguarda”, afirmou Peña em um vídeo publicado nas redes sociais. “Os responsáveis por irregularidades devem responder perante a justiça, e é isso que já está acontecendo.” Milhares de paraguaios estão, no momento, sem acesso às suas contas no ueno. Desde que se tornou um banco, em dezembro de 2023, a instituição acumulou mais de 2,9 milhões de clientes e depósitos que somam 17 trilhões de guaranis (US$ 2,8 bilhões) — montante que inclui cerca de US$ 355 milhões provenientes do Instituto de Previdência Social (IPS). Aproveitando uma onda de otimismo dos investidores — após o Paraguai conquistar seu segundo selo de grau de investimento —, o ueno bank captou US$ 350 milhões em março, por meio de uma emissão recorde de títulos corporativos, e contou com o banco húngaro OTP Bank como acionista minoritário de sua holding. O ueno bank vinha sendo alvo de crescente escrutínio público desde o início de setembro, quando o jornal local ABC começou a publicar documentos e correspondências do Banco Central que apontavam preocupações sobre a concessão de empréstimos a empresas ligadas ao seu acionista controlador, o conglomerado paraguaio Grupo Vázquez. Ainda naquele mês, o Banco Central abriu um processo administrativo para investigar o ueno. No entanto, uma supervisão mais rigorosa revelou, durante o fim de semana, déficits de solvência que levaram a autoridade monetária a intervir no banco, informou a governadora interina Liana Caballero na noite de terça-feira, em entrevista à ABC TV. O escândalo representa um grande teste político para Peña e para o governista Partido Colorado, que controla ambas as Casas do Congresso. Nos últimos meses, o presidente minimizou repetidamente as crescentes preocupações em relação ao ueno bank, criticando a atenção da mídia, que, segundo ele, visava incitar o medo na população. Parlamentares da oposição pediram o seu impeachment. Peña foi, anteriormente, investidor na holding controladora do ueno, tendo vendido sua participação em março de 2025. Os depósitos governamentais no banco digital aumentaram drasticamente desde que ele assumiu o cargo em 2023, atingindo cerca de 5 trilhões de guaranis no final de junho — o equivalente a 29% do total de depósitos. As repercussões da crise no ueno vão além da figura de Peña, uma vez que ele não pode concorrer à reeleição, observa José Tomás Sánchez, professor de teoria política na Universidade Nacional de Assunção. “O que resta a ser preservado não é tanto o capital político do presidente, mas sim o da sua facção dentro do partido governista e a sua capacidade de lançar um candidato forte — primeiro nas primárias do Partido Colorado e, depois, na eleição presidencial de 2028”, afirmou Sánchez. O Banco Central planeja realizar pagamentos antecipados — de até 10 milhões de guaranis por pessoa — por meio do fundo garantidor de depósitos, que cobre até 228 milhões de guaranis por pessoa ou empresa. Parlamentares também estão agilizando a tramitação de uma legislação que visa acelerar os desembolsos desse fundo. Caballero afirmou que o ueno será submetido a um processo de liquidação, e sua carteira de crédito será leiloada para outras instituições financeiras. O banco central estima que 98% dos depositantes serão integralmente ressarcidos, mas os detentores de títulos do banco digital não estão cobertos pelo fundo garantidor de depósitos, disse ela. O banco central solicitou à Justiça o bloqueio dos ativos das empresas do Grupo Vázquez, a fim de aumentar o montante disponível para o pagamento dos credores do Ueno Bank, afirmou Caballero. O Ministério Público também abriu uma investigação sobre o ueno bank e determinou a prisão de oito pessoas com vínculos à instituição. Entre os detidos estão o presidente do conselho do banco, Juan Manuel Gustale, e Miguel Vázquez, chefe do Grupo Vázquez. O presidente do Paraguai, Santiago Peña Caitlin Ochs/Reuters
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