A coalizão de extrema direita de Benjamin Netanyahu abriu vantagem sobre um bloco de partidos judaicos de oposição nas eleições decisivas de Israel, mas nenhum dos dois lados havia conquistado a maioria parlamentar, com mais de três quartos dos votos apurados nesta quarta-feira. A eleição, a primeira desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, é considerada por muitos israelenses a mais importante da história do país e coloca frente a frente o bloco religioso-nacionalista de Netanyahu e uma oposição majoritariamente secular e politicamente heterogênea, articulada em torno do partido Yashar, do ex-general Gadi Eisenkot. Com 77% das urnas apuradas, o bloco de Netanyahu, que reúne seu partido, o Likud, duas legendas ultranacionalistas e duas ultraortodoxas, caminhava para conquistar 54 cadeiras, sete a menos do que o necessário para obter a maioria no Knesset, o Parlamento israelense de 120 assentos. Os partidos judaicos de oposição caminhavam para conquistar 47 cadeiras, enquanto os dois partidos árabes de Israel deveriam obter um recorde de 19 assentos, impulsionados por um aumento expressivo da participação dos eleitores árabes. Os números ainda podem mudar à medida que os votos restantes sejam apurados. Mas, se as tendências atuais se confirmarem, nem Netanyahu nem Eisenkot terão um caminho claro para formar um governo, o que abre a perspectiva de semanas de negociações difíceis, enquanto os dois lados tentam encontrar uma maneira de chegar ao poder. O desempenho do bloco governista superou as expectativas, depois de pesquisas de boca de urna apontarem que os grupos liderados por Eisenkot conquistariam 53 das 120 cadeiras, enquanto a coalizão de Netanyahu ficaria com apenas 50. Embora o bloco de Netanyahu tenha perdido a maioria no Knesset, como esperado, seus adversários ficaram sem perspectivas claras de afastá-lo do poder sem alguma forma de apoio dos partidos árabes, uma hipótese que muitos deles já descartaram. Nesse cenário, Netanyahu deve permanecer, ao menos por enquanto, à frente de um governo interino durante eventuais negociações para a formação de uma coalizão ou até a realização de novas eleições no próximo ano. Em um discurso durante a madrugada a apoiadores de seu partido, o Likud, na sede da campanha eleitoral da legenda em Jerusalém, Netanyahu defendeu a formação de "um governo nacional forte, de direita". O premiê também destacou os êxitos militares de Israel e levantou a possibilidade de uma nova ação militar conjunta contra o Irã ao lado de seu aliado, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "Israel tem diante de si uma oportunidade histórica única, ao lado de nosso parceiro, o presidente Trump, de eliminar de uma vez por todas a ameaça existencial do Irã. Mas interesses ocultos não devem nos desviar dessa missão sagrada", afirmou. Trump, que havia pedido aos eleitores israelenses que mantivessem Netanyahu no poder para que os dois pudessem "concluir o trabalho" no Irã, afirmou que o primeiro-ministro havia se saído "muito bem" graças ao seu apoio. "Acho que, quando o apoio foi anunciado, isso o ajudou muito, mas ouvi dizer que ele realmente se saiu muito bem. Pode ser uma vitória ou um empate. Nesse caso, o empate é considerado uma espécie de vitória, porque é um grande jogo de xadrez", disse Trump na madrugada de quarta-feira, durante um evento de campanha no Texas. Eisenkot reconheceu que Netanyahu continuaria no cargo como primeiro-ministro interino, mas afirmou que ele havia perdido o apoio popular e pediu que se retirasse da política. O líder oposicionista também alertou para a possibilidade de Netanyahu utilizar questões de segurança para fins políticos. "Faço um apelo aos chefes do aparato de segurança e do funcionalismo público: Netanyahu é um primeiro-ministro interino, sem mandato nem a confiança do povo", afirmou. "Lembrem-se de que vocês servem apenas ao Estado e aos interesses dos cidadãos de Israel. Mantenham-se firmes diante de qualquer tentativa de pressioná-los. Vocês têm meu apoio inequívoco. Netanyahu, não ouse usar a segurança de Israel para atender às suas necessidades políticas." A eleição foi a primeira realizada em Israel desde que combatentes liderados pelo Hamas mataram 1.200 pessoas e sequestraram 251 reféns em ataques que abalaram a sensação de segurança do país e o mergulharam em guerras em Gaza, no Líbano e no Irã. A guerra em Gaza, que devastou o território e matou 74 mil palestinos, deixou Israel cada vez mais isolado no cenário internacional, em meio a uma mudança decisiva da opinião pública mundial contra o país, inclusive nos Estados Unidos, seu aliado mais próximo. O próprio Netanyahu é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, por acusações de crimes de guerra que ele considera absurdas. Ele também responde a acusações de corrupção em Israel, que rejeita como parte de uma conspiração do establishment. Gadi Eisenkot, ex-chefe das forças armadas de Israel, fala com apoiadores após eleição no país Amir Cohen/Reuters Mudanças na sociedade israelense A manutenção do apoio da maioria dos judeus israelenses a Netanyahu foi um sinal claro da profunda transformação da política israelense ocorrida sob sua liderança, como figura política dominante de sua época. Sua vertente de nacionalismo judaico sem concessões, o apoio à expansão dos assentamentos em territórios palestinos ocupados e o desprezo por todas as críticas estrangeiras estão agora firmemente consolidados como posições predominantes na política israelense. A centro-esquerda, que dominou Israel durante a primeira metade de sua história e liderou negociações para trocar territórios por paz com os vizinhos árabes, foi reduzida a uma pequena força marginal. Praticamente todos os partidos judaicos agora compartilham a rejeição de Netanyahu à eventual criação de um Estado palestino independente, fundamento das negociações de paz respaldadas internacionalmente desde a década de 1990, quando ele chegou ao poder pela primeira vez como o mais jovem primeiro-ministro da história de Israel. Após um período de afastamento do poder, durante o qual foi visto como uma figura dissidente da direita, Netanyahu voltou ao governo em 2009 e permaneceu no poder desde então, com exceção de um intervalo de 18 meses, quando uma frágil coalizão de adversários conseguiu afastá-lo após quatro eleições inconclusivas em dois anos. Os dois lados encararam a eleição de terça-feira como um ponto de inflexão decisivo para o país, o que elevou a participação eleitoral a 77,7%, o maior índice em mais de duas décadas e cerca de sete pontos percentuais acima do registrado em 2022. A participação foi particularmente elevada entre os israelenses de origem palestina, que representam mais de um quinto da população, mas cujos representantes historicamente foram excluídos do governo. Muitos foram motivados pelo que consideram manifestações explícitas de racismo por parte do gabinete de Netanyahu, que inclui um líder partidário condenado por incitação ao ódio racial contra árabes. A sede da Lista Conjunta, uma aliança de vários partidos árabes, foi tomada por assobios de comemoração e aplausos quando as pesquisas de boca de urna foram divulgadas. "Rejeitamos a ocupação e o racismo, e permaneceremos aqui", afirmou Faten Gattas, candidata da Lista Conjunta, em um discurso na sede da aliança, em Nazaré. 28/10/2026 08:12:48
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