Viviane Kulczynski* LONDRES – É hora do almoço no coração financeiro de Londres, a City. A fachada sóbria do número 10 da Finsbury Square esconde a movimentação frenética que está prestes a começar no térreo da London Metal Exchange (LME), a maior bolsa de minerais críticos do mundo. De repente, a coreografia começa. No Ring (anel, em inglês), sentados lado a lado em um círculo formado por quatro sofás de couro vermelho, traders começam a falar alto, repetem números de maneira cadenciada, gesticulam com precisão e disputam negócios em um dialeto que, para quem assiste da Galeria de Observação, no mezanino, parece impossível de decifrar. Vozes se sobrepõem e olhares se cruzam em frações de segundo. As mãos acompanham as ofertas. E tudo acontece depressa. Muito depressa. Cada um dos metais – cobre, alumínio, níquel, chumbo, zinco e estanho – tem apenas cinco minutos de protagonismo, num ritual que dura exatos 30 minutos, sempre das 12h30 às 13h. A arena guarda vestígios de uma outra era financeira. Calculadoras, pilhas de papéis, lápis, caneta e uma profusão de telefones com fio – longos fios que se estendem das salas ao Ring – compõem o cenário. Há quem trabalhe operando um aparelho em cada ouvido. No dia em que o Radar Mineração acompanhou o pregão, entre mais de quatro dezenas de traders homens, havia apenas duas mulheres. De salto alto e terninhos, mas de cabelos desalinhados, elas permaneciam à margem dos sofás, prestando suporte, sem ocupar os disputados assentos do Ring. A cada cinco minutos, no entanto, a atmosfera se transforma. Há uma cadência rigorosa na alternância entre adrenalina e calmaria. Encerrada uma rodada, o volume cai drasticamente, os gestos cessam e o ambiente recupera uma tranquilidade quase incompatível com a tensão dos instantes anteriores. Até que a negociação recomeça. Como ensaiados, os corpos se projetam para a frente, os braços voltam a cortar o ar e as vozes sobem de tom. Em alguns momentos, a disputa parece prestes a cruzar a perigosa fronteira entre o verbal e o físico. Mas não cruza. O Ring não vira ringue. Durante as rodadas de cinco minutos, a atmosfera no Ring atinge seu pico de adrenalina, com operadores utilizando gestos intensos e comandos vocais para definir os preços dos metais (Animação elaborada com imagens estáticas de José Alessandro/ Zele) Há, inclusive, uma regra para conter essa movimentação dentro de certos limites. Durante as negociações, os traders precisam manter algum contato com os sofás do Ring. Podem se levantar, avançar o corpo e dar um passo à frente, mas não se afastar completamente dos assentos. Muitos mantêm ao menos um pé encostado na base do sofá. Nos momentos mais intensos, cumprir a regra parece quase um exercício de equilíbrio. Perto do encerramento das rodadas, eles se levantam, inclinam o corpo para a frente e ampliam os gestos, enquanto as vozes ganham ainda mais força. A explicação para uma regra tão peculiar é bastante prática: manter livre o centro do Ring e preservar a linha de visão entre quem compra e quem vende. É uma diferença importante em relação aos tradicionais pregões. No Ring, o centro permanece vazio. É pelas bordas daquele círculo, com os traders presos de alguma forma aos assentos, que compradores e vendedores precisam se encontrar. É preciso assistir com olhar atento para compreender que, por trás da aparente balbúrdia, opera uma engrenagem milimétrica. No centro desse espetáculo está o Ring, o pregão viva-voz da LME, onde apenas os membros da chamada Categoria 1 (Ring Dealing Members) têm permissão de negociar as commodities, tanto para suas próprias carteiras (como contraparte) quanto em nome de seus clientes. Em plena era dos algoritmos, das telas e das transações executadas em milissegundos por robôs, a sobrevivência daquele círculo físico e analógico causa estranhamento. Mas o Ring não é uma encenação para turistas ver – até porque, não é aberto à visitação pública, sendo obrigatória autorização para estar naquele mezanino. É mercado na sua forma mais pura. A engrenagem do tempo A campainha é quem rege a orquestra. Assim que ela soa, um metal entra em negociação, os traders passam a anunciar suas ofertas e demandas a plenos pulmões, no sistema tradicionalmente conhecido como open outcry (viva-voz). Compradores e vendedores buscam avidamente suas contrapartes. Limites de preços são testados na base do grito. Contratos milionários são selados no olhar. Quando os cinco minutos se esgotam, impõe-se a pausa respiratória antes da próxima rodada. É essa dança cronometrada que permite ao Ring precificar toda a cesta de metais críticos ao longo da sessão diária. Detalhe da dinâmica física do pregão na LME, ilustrando a comunicação corporal exigida no epicentro da negociação global de metais (Foto: José Alessandro/ Zele) Além da negociação presencial, a London Metal Exchange opera sob outros dois ambientes: plataforma eletrônica (LMEselect) e o invisível mercado inter-office, feito por telefone. O que se vê naquela arena ladeada por sofás de couro vermelho, portanto, é a face mais analógica, vibrante e restrita de um ecossistema muito mais vasto. Mas é uma face que resiste ao tempo. Quando a campainha soa pela última vez e os traders se levantam, o que os gritos e os gestos acabaram de definir não fica restrito àquelas quatro paredes. Os números negociados ecoam imediatamente pelos continentes, ditando o valor das matérias-primas que vão sustentar a transição energética, fabricar baterias e erguer as infraestruturas do futuro. Em um mundo financeiro cada vez mais silencioso e mediado por códigos invisíveis, o preço do amanhã ainda é, ao menos por meia hora diária, decidido na força da voz humana. * Enviada especial para o Radar Mineração. O Radar Mineração é uma plataforma de conteúdo patrocinada pela Vale e dedicada a ampliar o debate sobre o papel do setor na transição energética e no futuro da sociedade The post Por dentro do Ring: o pregão em Londres que define o preço dos metais no grito appeared first on InfoMoney.
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