A discussão em torno das propostas de André Lara Resende pode abrir espaço para uma mudança na meta de inflação e, ao contrário do objetivo de reduzir os juros, acabar exigindo taxas ainda maiores. O alerta é de Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA e ex-secretário do Tesouro Nacional. Em entrevista ao Radar da Política, programa do Money Times no YouTube, Bittencourt afirmou que não acredita que as ideias do economista se tornarão a orientação econômica do próximo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Sua preocupação é que o debate estimule a busca por alternativas ao controle das despesas públicas e alcance a meta de inflação. “Se esse debate abrir uma discussão sobre alterar a meta de inflação no ano que vem, aí a gente vai perder o controle das expectativas de inflação e, consequentemente, a gente vai ter mais juros”, afirmou. Na avaliação do economista, a dificuldade de levar a inflação à meta não deveria ser enfrentada com uma mudança no objetivo perseguido pelo Banco Central. O foco deveria estar nos fatores que reduzem a eficiência da política monetária — e fazem com que os juros precisem permanecer elevados para conter os preços. O que atrapalha o trabalho do Banco Central Bittencourt citou a oferta de crédito subsidiado e direcionado como um dos obstáculos. Esses instrumentos permitem que determinados setores tomem empréstimos em condições diferentes das praticadas no mercado, reduzindo o alcance do aperto monetário. Outro ponto é a elevada participação de títulos vinculados à Selic na dívida pública. Segundo ele, essa composição também diminui a potência da política monetária. O economista ressaltou que a concentração nesses papéis reflete as condições de mercado. Diante das incertezas, os investidores preferem acompanhar os juros de curto prazo a assumir o risco de títulos prefixados ou atrelados à inflação. Como precisa refinanciar a dívida, o Tesouro atende a essa demanda. Uma sinalização crível de controle das despesas poderia ajudar a mudar esse quadro, na avaliação de Bittencourt. Com perspectivas melhores para as contas públicas e para os juros, os investidores passariam a ter mais interesse em títulos prefixados, permitindo ao Tesouro reduzir a participação dos papéis vinculados à Selic. “Se a gente quiser fazer um debate mais direcionado, mais objetivo, com resultados mais práticos, a gente deveria discutir os fatores que estão tirando potência da política monetária”, disse. A disputa pela equipe econômica Para Bittencourt, o momento em que essas propostas ganham repercussão também merece atenção. Ele vê uma conexão entre o surgimento de alternativas heterodoxas e as discussões sobre quem ocupará os principais cargos da equipe econômica. O ex-secretário lembrou que ideias de Lara Resende também estiveram presentes no debate sobre a composição do governo na transição, de 2022 para 2023. “Colocar o debate nesse momento parece querer pautar a composição da equipe econômica muito mais do que ser efetivamente uma orientação de política”, afirmou. Na leitura dele, a apresentação dessas alternativas pode funcionar como uma tentativa de limitar uma condução mais ortodoxa da economia ou de influenciar a percepção sobre os nomes considerados para os cargos. O problema, segundo Bittencourt, é que a falta de consenso sobre a origem do desequilíbrio fiscal abre espaço para propostas que evitam enfrentar o ritmo de crescimento das despesas públicas. Fonteles na Fazenda? O compromisso precisa vir de Lula Questionado sobre uma eventual escolha do governador do Piauí, Rafael Fonteles, para o Ministério da Fazenda, Bittencourt elogiou sua qualificação acadêmica, mas afirmou que a capacidade de mudar as expectativas depende do respaldo do presidente. “Não existe ajuste fiscal capitaneado pelo Executivo em que o chefe do Executivo não seja o capitão do ajuste fiscal”, disse. Para o economista, a nomeação de um ministro sem um mandato claro para controlar as despesas não seria suficiente para alterar a percepção do mercado sobre a trajetória das contas públicas. A primeira medida capaz de produzir esse efeito, afirmou, seria uma entrevista coletiva do escolhido ao lado de Lula, com o presidente assumindo o compromisso de racionalizar os gastos e buscar um resultado primário compatível com a sustentabilidade da dívida. Esse sinal poderia reduzir os juros de longo prazo, melhorar as perspectivas para o câmbio e abrir espaço para cortes da Selic, segundo Bittencourt. Já um ajuste mais lento e concentrado no aumento de receitas tenderia a manter os juros elevados por mais tempo e a pressionar as empresas, prejudicando também a bolsa. “Não importa tanto quem vai ser o ministro da Fazenda”, afirmou. O essencial, em sua avaliação, é que o compromisso com o ajuste seja assumido pelo próprio presidente.
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