Os eleitores brasileiros que moram no exterior retornam às urnas neste domingo, 25, com o desafio de reduzir as abstenções, que subiram 47% no primeiro turno de 2026, na comparação com a eleição presidencial de 2022. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou à frente no primeiro turno entre eleitores que moram fora do Brasil, com 47,57%, contra 43,49% de Flávio Bolsonaro (PL). Lula ficou à frente na Europa, na África Subsaariana, no Oriente Médio/Norte da África e no Pacífico, enquanto Flávio liderou nas Américas e na Ásia. Quase 342 mil eleitores compareceram às urnas no dia 4 de outubro em 146 cidades espalhadas por 102 países. Mas há pouco mais de 916 mil brasileiros aptos a votar no exterior este ano. Assim, as abstenções entre quem mora fora do Brasil somaram 62,7%, ante 56,2% no primeiro turno de 2022. É a maior pelo menos desde 2010, segundo a série do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As abstenções aumentaram mais do que o número de eleitores aptos a votar no exterior, que cresceu 32% em 2026, na comparação com 2022. Foi para fazer frente a esses números que surgiram iniciativas como o “Voto lá fora” e o “Voto sem fronteiras”, redes criadas por brasileiros que moram no exterior para conectar quem pode oferecer carona e/ou hospedagem àqueles que precisem chegar a suas seções eleitorais neste segundo turno. “Para muita gente, votar significa uma viagem longa e cara, de um dia inteiro, às vezes com uma noite fora de casa”, diz Pedro Morel Rosa, criador e responsável pelo site “Voto lá fora”. O grupo reconhece que nem toda a abstenção é fruto da distância entre eleitores e as urnas em países estrangeiros. Há, por exemplo, quem nem tenha transferido o título para o exterior; ou quem já retornou ao Brasil, mas não trouxe o título de volta. “Quem vive fora há muitos anos acaba, muitas vezes, se afastando da vida política do Brasil. Muitos estão num terreno intermediário: têm convicções políticas, mas não veem tanto sentido em se fazer representar nas eleições. Somado à dificuldade logística, isso pesa”, afirma Rosa. No caso dos Estados Unidos, que concentram quase 30% dos eleitores aptos a votar residentes fora do Brasil, há ainda o medo da fiscalização migratória e o ambiente de animosidade entre os governos de Donald Trump e Lula. Flávio ficou à frente no primeiro turno de 2026 nos EUA, com 61,1%, contra 31,7% de Lula. A abstenção geral encostou em 72%, ante 63% em 2022. A notícia na sexta-feira imediatamente anterior ao primeiro turno de que os serviços consulares americanos no Brasil estariam suspensos também contribuiu para deixar os brasileiros nos EUA mais apreensivos. Uma jovem brasileira que estuda e trabalha nos EUA, onde mora desde 2022, conta que estava com receio de ir votar no primeiro turno. Ela pediu para não ser identificada. “Não sinto tanto medo ainda porque estou dentro do meu 'status', mas está tendo muito medo do pessoal de ir votar por causa do ICE serviço de imigração dos EUA, que está pegando bastante imigrante”, afirma. As prisões de brasileiros pelo ICE saltaram para uma média de 14 diárias no governo de Donald Trump (dados de 21 de janeiro de 2025 a 5 de agosto de 2026), ante média de 3 prisões por dia nos últimos anos do governo do democrata Joe Biden (9 de julho de 2023 a 20 de janeiro de 2025). As informações são do Deportation Data Project, monitor da Universidade da Califórnia em Berkeley e em Los Angeles a partir de ações judiciais. “O que mudou minha decisão de ir votar no primeiro turno é que tem muito boato de que Trump estaria interferindo nas eleições do Brasil, mas não tem como saber. Eu fui votar de vermelho e minha capa de chuva era amarela. Não tem como o ICE saber se a pessoa está votando no Lula ou no Flávio, eleitores legais estão votando nos dois”, diz a jovem brasileira. Ela conta que, tanto em 2022 quanto neste ano, quem chegou mais cedo enfrentou até duas horas de filas na sua seção eleitoral. Ela levou 1h30 de carro para chegar ao seu local de votação este ano. “Na fila do primeiro turno, em Paris, vi pessoas que moram longe das cidades com local de votação chegando direto da estação de trem, depois de pagar caro por passagens de ida e volta no mesmo dia, para ainda enfrentar horas de fila”, conta Rosa, que mora na França há seis anos. Quem mora em Toulouse, por exemplo, teria de percorrer algo como 320 km em linha reta para votar em Marselha, onde a abstenção no primeiro turno se aproximou de 70%. Nos EUA, quem mora na Filadélfia leva 2h de carro ou 3h ou mais de transporte público para se deslocar até o local de votação em Nova York, onde a abstenção este ano chegou perto de 74%, contra 60% na última eleição presidencial. Este ano, o Consulado-Geral do Brasil em Nova York mudou o local da votação, que costumava acontecer em colégios na ilha de Manhattan, para uma universidade no Queens, um bairro mais afastado da ilha ou de cidades como Newark, que concentram brasileiros. Segundo nota do consulado, a escolha do local levou em consideração diversos fatores, “sempre tendo em vista a segurança e o conforto da comunidade no ambiente de realização das eleições”. Para o segundo turno, a jovem brasileira que mora nos EUA diz acreditar que a abstenção pode diminuir. Não houve relatos de atuação do ICE durante a votação, o que pode tranquilizar eleitores. Um brasileiro foi preso no dia 4 de outubro após aparecer vestido como um agente do ICE em um local de votação em Miami, na Flórida. Ele foi acusado de intimidação de eleitores, tentativa de suborno aos policiais, uso ilegal de insígnias das forças de segurança e conduta desordeira. “Depois disso que aconteceu, acho que quem teve medo por causa do ICE não vai ter. Ele achou que não daria nada e está enfrentando sérias consequências”, afirma a jovem brasileira. Fotos: Jean Carniel/Reuters e Adriano Machado/Reuters
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