A Anthropic, desenvolvedora do Claude, registrou prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões no primeiro semestre, segundo o prospecto de sua oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), divulgado nesta segunda-feira (26). O resultado foi afetado principalmente por ajustes contábeis associados à valorização da companhia. No período, a empresa teve receita de US$ 16,3 bilhões. A oferta é uma das maiores operações aguardadas pelo mercado neste ano e pode movimentar cerca de US$ 100 bilhões, segundo estimativas. Se a estreia ocorrer em novembro, acontecerá cinco meses depois do IPO da SpaceX, de Elon Musk. A Anthropic ainda não definiu o volume da oferta nem o preço das ações. Goldman Sachs e Morgan Stanley coordenam o grupo de 22 bancos listado no prospecto. Nenhuma instituição brasileira aparece entre os participantes. Na oferta da SpaceX, o BTG Pactual atuou na distribuição para investidores institucionais e clientes de gestão de patrimônio na América Latina, incluindo o Brasil. A Anthropic pretende listar suas ações na Nasdaq sob o código ANT. O registro apresentado à Securities and Exchange Commission (SEC), a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, prevê a emissão de novas ações e a venda de papéis por acionistas atuais. O prejuízo líquido, porém, não reflete integralmente o desempenho operacional do negócio. A perda operacional caiu de US$ 2,1 bilhões no primeiro semestre de 2025 para US$ 693 milhões no mesmo período deste ano. A receita avançou de US$ 1,2 bilhão para US$ 16,3 bilhões. A companhia afirma que o crescimento recente ocorreu em um momento ainda inicial da adoção da inteligência artificial e adverte que o ritmo pode diminuir à medida que o mercado amadurecer. “Esperamos que nossa taxa de crescimento da receita diminua ao longo do tempo”, diz a Anthropic no prospecto. Em outro trecho, a empresa é ainda mais direta sobre as incertezas em torno da expansão. “Não podemos assegurar que nossa receita continuará a crescer, que crescerá no ritmo recente ou que alcançará nossas expectativas.” A Anthropic também afirma que “o mercado de produtos de inteligência artificial é novo, está evoluindo rapidamente e pode não se desenvolver como esperamos”, aponta. Fundada em 2021 por ex-pesquisadores da OpenAI, a Anthropic concentra sua estratégia na venda de sistemas de inteligência artificial para empresas. Além do Claude, oferece ferramentas voltadas à programação e à execução de tarefas, como Claude Code e Claude Cowork. Em setembro, mais de 1,9 mil clientes haviam gerado individualmente pelo menos US$ 1 milhão em receita para a Anthropic nos 12 meses anteriores. Cerca de 250 clientes superavam US$ 10 milhões. A concentração em contratos de grande porte, no entanto, também aparece entre os riscos descritos no prospecto. “Uma parcela significativa de nossa receita é proveniente de um número limitado de clientes”, afirma a companhia. Segundo o documento, a perda de um cliente relevante, a redução de seus gastos ou a renegociação de contratos em condições menos favoráveis poderia afetar de forma material os resultados da empresa. O crescimento também exige investimentos elevados em infraestrutura. As despesas com computação e infraestrutura chegaram a US$ 8,9 bilhões no primeiro semestre, a maior rubrica das despesas operacionais. A capacidade é necessária tanto para atender à demanda dos clientes quanto para desenvolver e treinar novos modelos. A Anthropic reconhece que sua operação depende de um número restrito de fornecedores de computação, infraestrutura e serviços de nuvem. No primeiro semestre, 48% da receita veio de vendas a clientes por meio das plataformas de provedores de nuvem. “Se não conseguirmos manter nossas relações com esses provedores, ou se eles aumentarem os preços, reduzirem a capacidade disponível ou priorizarem seus próprios produtos, nossos negócios, resultados operacionais e condição financeira poderão ser prejudicados”, afirma a companhia. O prospecto também descreve riscos relacionados ao comportamento dos modelos. Os sistemas podem produzir respostas incorretas, inadequadas ou imprevisíveis e podem não funcionar como esperado em determinadas situações. “Nossos modelos podem gerar resultados que contenham informações imprecisas, enganosas, ofensivas ou prejudiciais”, diz a Anthropic. A empresa menciona ainda a possibilidade de os modelos apresentarem comportamentos que dificultem seu controle. “Nossos modelos podem demonstrar comportamentos indesejados, incluindo engano, manipulação, resistência ao desligamento ou busca de objetivos que não estejam alinhados com os valores humanos”, afirma o documento. Essas falhas podem resultar em processos judiciais, sanções regulatórias, custos de correção e perda de confiança dos clientes. A Anthropic reconhece que “não pode garantir que suas medidas de segurança serão suficientes para impedir que seus modelos causem danos ou sejam utilizados de maneira indevida”. Os investidores também terão de considerar uma estrutura de governança que preserva poderes especiais para os fundadores e para um órgão responsável por supervisionar a missão da companhia. O Fundo Fiduciário de Benefício de Longo Prazo (Long-Term Benefit Trust) terá autoridade para eleger a maioria dos integrantes do conselho de administração. Uma ação especial, mantida por uma sociedade controlada pelos sete fundadores, concentrará 50,1% dos votos nas matérias submetidas aos acionistas em geral, respeitados os poderes do fundo fiduciário. O papel, porém, não dará direito à participação econômica nos resultados da empresa. A estrutura foi desenhada para preservar o controle sobre as decisões estratégicas mesmo após a abertura de capital. “Os interesses do Long-Term Benefit Trust e dos acionistas controladores podem divergir dos interesses dos demais acionistas”, reconhece a Anthropic no prospecto. “Como resultado, esses acionistas poderão exercer influência significativa sobre nossas decisões e sobre a direção de nossos negócios.” Gabby Jones/Bloomberg
CryptoAlerta — análise de criptomoedas e mercado em tempo real