Faltando quatro dias para o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, o JPMorgan publicou um amplo relatório analisando os ciclos eleitorais recentes na América Latina e seus desdobramentos para os mercados. O documento, assinado pelos economistas Cassiana Fernandez, Mirella Sampaio e Gustavo Ribeiro, destaca o Brasil como o “último grande teste” de um ciclo eleitoral marcado por forte anti-incumbência, ascensão da pauta de segurança pública e crescente influência da geopolítica. Com o título “Testing time in Brazil” (Hora de testar o Brasil), os analistas avaliam que o resultado do primeiro turno — que colocou Flávio Bolsonaro à frente de Lula com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% — e a maior representação da direita no Congresso podem criar uma “configuração legislativa mais favorável” para o candidato, caso ele vença. No entanto, o banco faz um alerta: “há visibilidade limitada sobre a agenda econômica específica que seria implementada em caso de vitória dele.” Leia também Ibovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa vira para queda com disputa eleitoral acirrada Bolsas dos EUA operam com leve alta em meio à temporada de balanços O JPMorgan ressalta que, embora o segundo turno determine a direção política do país, os mercados estarão de olho nas decisões que virão depois. “A composição do gabinete, a estratégia legislativa e o relacionamento com o Congresso serão essenciais para avaliar o impacto econômico nos próximos anos”, afirma o relatório. O banco ainda aponta que alguns temas são transversais ao ciclo eleitoral. O movimento anti-governo está cada vez mais forte, parecendo ter ganhado impulso à medida que a segurança pública deixou de ser uma preocupação social para se tornar uma narrativa eleitoral poderosa, beneficiando candidatos capazes de vincular a aplicação da lei a mudanças institucionais mais amplas. “A geopolítica também está mais presente, com o alinhamento dos EUA tornando-se cada vez mais relevante para os mandatos internos e as narrativas de mercado”, avalia, ressaltando principalmente a influência em países como Argentina e Colômbia. Anti-incumbência em alta, mas não automática O estudo traça um panorama dos ciclos eleitorais de 2025-2026 na região, que entregaram uma “mudança substancial de governo” nas principais economias. O fenômeno da anti-incumbência — rejeição ao ocupante do cargo — se fortaleceu, mas não é mecânico. A Argentina surge como o contraponto mais importante: o governo Milei, após intensa volatilidade de mercado, obteve 40,8% dos votos para deputados nas eleições de meio de mandato de outubro de 2025, contra 31,6% da Fuerza Patria e aliados, fortalecendo substancialmente sua posição no Congresso. O México, em 2024, já havia oferecido outra forma de continuidade, com o Morena mantendo e fortalecendo sua posição política. “O padrão regional aponta menos para uma rejeição mecânica dos incumbentes do que para a disposição contínua dos eleitores em mudar de direção política quando o status quo perde credibilidade”, interpretam os analistas. O dividendo fiscal que se desvanece Uma das descobertas mais relevantes do relatório é o enfraquecimento do chamado “dividendo fiscal” — a capacidade de gastos públicos gerarem apoio eleitoral. Utilizando um painel de 44 eleições presidenciais em nove países latino-americanos desde 2004, o JPMorgan estima que a correlação positiva entre crescimento dos gastos reais e votos no incumbente, que existia em todas as janelas até o final da década passada, enfraqueceu-se e tornou-se negativa nas duas janelas mais recentes. “A expansão fiscal parece ter se tornado progressivamente menos eficaz como fonte de proteção eleitoral”, conclui o banco. O relatório aponta que a segurança pública se tornou um “tema eleitoral definidor” em toda a região. Pesquisa do Atlas Latam Pulse de fevereiro de 2026 mostra que, em países como Peru, México, Colômbia, Chile, Brasil e Argentina, uma parcela significativa dos eleitores considera as políticas de crime como um dos principais fatores de voto. Candidatos de direita têm sido particularmente eficazes em traduzir a insegurança em um argumento mais amplo por mudança política. A geopolítica também ganhou peso. O estudo destaca que o segundo governo Trump adotou uma postura mais ativista em relação à América Latina, diferenciando abertamente os governos de acordo com sua relação política com Washington. Na Argentina, o apoio dos EUA ao governo Milei tornou-se “parte da história mais ampla de estabilização”. Já na Colômbia, a deterioração das relações com Washington sob Petro foi uma linha divisória explícita na eleição que elegeu De la Espriella. O JPMorgan adverte que “a virada política não tem produzido consistentemente fortalecimento institucional”. A competição democrática permaneceu resiliente, mas a polarização, a fraca confiança nas instituições e os conflitos judiciais e políticos recorrentes limitaram a implementação de reformas. O documento cita exemplos de como os sinais eleitorais iniciais podem enganar: o México, cuja eleição de 2024 gerou ceticismo inicial no mercado, mas produziu moderação política posterior; e a Argentina, onde Milei ainda precisa de apoio do PRO e de forças provinciais moderadas para construir maiorias funcionais. O próximo grande teste: Argentina 2027 Após o segundo turno brasileiro, o próximo grande teste – também para os mercados – será a eleição presidencial argentina de 2027. “Em vez de perguntar se os eleitores estão dispostos a mudar de rumo, a questão será se eles permanecem dispostos a manter o curso”, pondera o banco. Leia também EUA condicionam dinheiro à Argentina após a resultado eleitoral: “rumo à direita” Não é a primeira vez que a gestão Trump atrela a ajuda financeira à Argentina a um resultado eleitoral A avaliação é que, até lá, a estabilização pode ter reduzido substancialmente as distorções macroeconômicas sem ainda entregar seu dividendo econômico completo. “O teste eleitoral será se essas conquistas são suficientes para persuadir os eleitores a estender o mandato reformista.” “Eleitores em toda a região demonstraram repetidamente disposição para mudar de direção política. Entregar a mudança prometida e transformá-la em maior produtividade e crescimento tem se mostrado consideravelmente mais difícil. A credibilidade eleitoral pode comprar tempo, capital político e melhores condições financeiras para os governos; apenas a implementação pode transformar essas vantagens em resultados econômicos duradouros.” The post JPMorgan destaca “próximo grande teste” para mercado brasileiro após ciclo eleitoral appeared first on InfoMoney.
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