O ministro dos Transportes da Espanha, Óscar Puente, rejeitou nesta sexta-feira (30) os pedidos para que renuncie após o segundo acidente ferroviário sob sua gestão a provocar um grande número de vítimas neste ano, enquanto as autoridades trabalhavam para identificar os mortos em uma colisão que deixou pelo menos 69 vítimas fatais. Leia também: Equipes buscam vítimas de colisão de trens na Espanha; mortes chegam a 69 Acidente de trem, dezenas de mortos: entenda o que aconteceu na Espanha hoje Parlamentares de diferentes correntes políticas criticaram nesta semana Puente por atribuir o acidente de quarta-feira ao descumprimento de um protocolo por operadores do centro de controle, em vez de assumir a responsabilidade. Sindicatos de trabalhadores ferroviários pediram sua demissão imediata. A colisão, ocorrida perto da cidade de Urda, no centro da Espanha, aconteceu após outro acidente envolvendo as mesmas empresas ferroviárias e a mesma linha, que deixou 46 mortos em janeiro. O episódio reacendeu o debate sobre segurança e manutenção da rede ferroviária de alta velocidade espanhola, a mais extensa da Europa, enquanto o país se prepara para as eleições convocadas para 29 de novembro pelo primeiro-ministro de esquerda, Pedro Sánchez. "Meu dever agora não é me concentrar em discutir se continuarei no cargo, mas em resolver o problema, determinar exatamente o que aconteceu e fornecer explicações claras", afirmou Puente em entrevista coletiva nesta sexta-feira. O trem que colidiu com outra composição parada trafegava a uma velocidade entre 160 e 200 km/h no momento do acidente, segundo relatório preliminar divulgado na quinta-feira pela Autoridade Independente de Investigação Técnica de Acidentes e Incidentes (AITAT). "A sequência de falhas, instruções e ações acabou levando à colisão, na ausência das barreiras de proteção necessárias", afirmou a AITAT no relatório. A autoridade informou que só poderá confirmar a velocidade exata do trem depois de extrair as informações de sua caixa-preta. No local do acidente, grandes guindastes içavam os destroços retorcidos enquanto a Guarda Civil contabilizava 64 pessoas desaparecidas, no que já é o acidente ferroviário mais mortal da Espanha desde 2013. As autoridades realizaram até agora 49 autópsias e identificaram formalmente cinco pessoas — três mulheres e dois homens —, afirmou Esther Padilla, porta-voz do governo regional de Castilla-La Mancha, à emissora estatal TVE. "Os exames estão avançando lentamente, embora as famílias sejam contatadas ao longo do dia para que possam receber os resultados", disse Padilla nesta sexta-feira. Não estava claro se todas as pessoas desaparecidas já estavam incluídas no número de mortos. Um guindaste opera no local onde estão os vagões destruídos após uma colisão entre dois trens em Urda, na Espanha AP/Bernat Armangue Autoridades não descartam mais mortes Nenhum corpo adicional foi encontrado quando as equipes de resgate viraram um vagão na quinta-feira, afirmou à TVE o presidente do governo regional de Castilla-La Mancha, Emiliano García-Page. A identificação dos corpos estava sendo dificultada porque muitos estavam fragmentados, disse ele. Na quinta-feira, as equipes de resgate haviam colocado restos mortais parciais em 31 sacos. "A verdade é que não podemos descartar a possibilidade de haver mais vítimas fatais", afirmou García-Page. Enquanto prosseguia a identificação dos mortos, intensificava-se o debate sobre as responsabilidades pelo acidente, com sindicatos afirmando ser injusto atribuir a culpa a um erro humano. O premiê Pedro Sánchez prometeu nesta sexta-feira esclarecer as causas do acidente. "É inaceitável que um país como a Espanha, com um sistema ferroviário de alta velocidade tão sólido, sofra dois acidentes dessa natureza e magnitude em um único ano", afirmou. A colisão ocorreu depois que vários trens foram parados automaticamente devido a uma falha no sistema de sinalização, após a qual o centro de controle de Madri assumiu as operações. Um trem operado pela estatal Renfe recebeu autorização para prosseguir, embora houvesse uma composição da Iryo parada à frente, segundo Puente. Áudios das comunicações entre o centro de controle e os maquinistas, obtidos pelo jornal El País, mostraram que um controlador autorizou o trem da Renfe a continuar a viagem em velocidade normal, o que, de acordo com Puente, contrariou um protocolo que determinava velocidade máxima de 40 km/h nessas circunstâncias. As gravações também mostraram que o controlador autorizou o trem da Renfe, que transportava 379 passageiros e sete tripulantes, a retomar a viagem, embora a composição da Iryo, com 147 passageiros e cinco tripulantes, devesse ter seguido primeiro, de acordo com o protocolo. Buscas seguem na Espanha após acidente de trens com 69 mortos Manu Fernandez/AP Falha do sistema de segurança Raquel Ayllón, dirigente sindical da estatal de infraestrutura ferroviária Adif, afirmou que os controladores precisavam trabalhar em condições difíceis. "O erro humano está sendo criticado e questionado muito rapidamente, enquanto as pessoas não estão realmente se concentrando na questão central: a falha do sistema de segurança", afirmou Ayllón à TVE. O sistema LZB, cuja falha desencadeou a sequência de acontecimentos que levou ao acidente de quarta-feira, estava com sua modernização atrasada, segundo documentos públicos. Em setembro de 2021, a Adif concedeu à Thales España, braço espanhol da fabricante francesa de equipamentos, um contrato de 93,8 milhões de euros (US$ 105 milhões) para concluir, até o início de 2026, a instalação de um novo sistema europeu padronizado, chamado ERTMS, segundo comunicados sobre a licitação. O sistema foi instalado na maior parte da rede ferroviária de alta velocidade espanhola, de acordo com um documento informativo da associação ferroviária europeia UNIFE, que desenvolveu o novo padrão ERTMS. Mas a linha Madri-Sevilha, onde ocorreram os dois acidentes fatais, estava atrasada, segundo o contrato da licitação. O contrato foi transferido para a Hitachi Rail em 2024, segundo a Thales, que não quis comentar o atraso na implantação.
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