O índice de abstenção tende a ser maior no segundo turno das eleições no Brasil, em comparação ao primeiro. A exceção, de 2002 até hoje, foi o pleito presidencial de 2022, opondo o então presidente Jair Bolsonaro (PL) a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Naquela eleição, a mais polarizada do século 21 no país, 79,1% dos aptos a votar compareceram no primeiro turno, e 79,5% teclaram na urna eletrônica no segundo turno. No dia 4 de outubro, data do primeiro turno de 2026, a abstenção foi de 21,08%. O comparecimento de 78,92% foi menor do que o dos dois turnos de 2022. Embora o voto seja obrigatório no Brasil para quem tem entre 18 e 69 anos de idade, as penalizações para quem se ausenta (e não justifica a ausência) são relativamente pequenas: não poder tirar passaporte e não poder participar de concursos públicos, sanções que afetam desproporcionalmente os eleitores com mais renda e maior escolaridade. Adolescentes de 16 e 17 anos de idade, idosos com mais de 70 anos e analfabetos não são obrigados a votar, mas em geral não se sentem afetados por essas punições ou não têm conhecimento delas. Hoje, com a possibilidade de justificar ausência pelo aplicativo e-título eleitoral, a tarefa de evitar punição ficou fácil. A terceira punição prevista, em caso de não apresentação de justificativa no prazo de 60 dias após a eleição, é pagar multa de R$ 3,51 por turno. O valor não é reajustado desde 1993, o que faz com que, para muitos eleitores que precisam se deslocar, seja mais barato ficar em casa, evitando gastos de combustível ou passagem. Ao menos era assim até 2023. Em outubro daquele ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, que o poder público é obrigado a oferecer transporte gratuito - ônibus, trens, Metrô, barcas - para que o eleitor se desloque livremente no dia da eleição. A mudança nas regras dos transportes públicos começou a valer nas eleições municipais de 2024. Esta é a primeira vez que a nova regra é aplicada em segundo turno de eleição presidencial. O cientista político Jairo Nicolau analisa outras razões para a abstenção em seu livro "O país dividido: duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002-2022)", recém-lançado pela editora Zahar. De acordo com Nicolau, há muitos eleitores que deixam de votar porque se mudam temporariamente e não transferem o título a tempo. Também há os que não votam por ter que trabalhar no domingo da eleição, por estar doentes ou, no caso dos muito idosos, por não ter quem os acompanhe ao local de votação. No primeiro turno deste ano de 2026, a abstenção entre os idosos de mais de 70 anos chegou a 50%, inclusive por eles se sentirem libertos da obrigatoriedade do voto. Na história da votação neste século, as mulheres, que já são maioria, comparecem em maior proporção que os homens. "A participação eleitoral no Brasil tem claro componente educacional: a taxa de comparecimento aumenta à medida que cresce o nível de escolaridade" , escreveu Nicolau em "O país dividido". Apesar disso, e de forma surpreendente, conforme assinala o cientista político, a faixa etária de 18 a 29 anos teve, nas eleições de 2002 a 2022, o menor percentual de comparecimento entre todas as faixas de voto obrigatório. Urna eletrônica Fernando Frazão/Agência Brasil
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