Especialista acredita que fuga de Flávio levará a rearranjo de poder na direita

A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos depois da derrota na eleição presidencial brasileira não deve se suficiente alterar o nível das relações entre os dois países. A afirmação é de Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional e Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), para quem a saída de Flávio do país deve abrir espaço para um rearranjo de poder dentro da direita na política nacional. "Tenho a impressão de que as relações vão se manter no mesmo nível. Não me parece que dar abrigo a Flávio seja uma ação sequer consensual no seio do governo estadunidense", diz. "O nível de relações entre Brasil e Estados Unidos é tal que não permite rupturas. As conexões de pessoas, as conexões comerciais, de investimentos, elas vão continuar acontecendo, as cooperações em tecnologia, as Forças Armadas cooperando entre si. Isso vai continuar acontecendo, o fluxo é denso de cooperação entre os dois países e não se imagina uma deterioração ainda maior das relações. Acho que as relações estão em um nível evidentemente subótimo, mas eu não vejo razões para que elas piorem, ainda que o atual secretário de Estado dos Estados Unidos, o Marco Rubio, tenha declaradamente apoiado o Flávio Bolsonaro durante a campanha presidencial e agora especialmente", acrescenta. Para ele, a possibilidade de Flávio conduzir a oposição ao governo brasileiro a partir do exterior "é uma caricatura". "O Brasil tem 1 milhão de pessoas nos Estados Unidos expatriados. Quando muito ele vai chegar a uma parcela deste 1 milhão. O Brasil não é um país qualquer. O Brasil não é tão dependente como outros países da América Central, do Caribe são, de remessas internacionais, por exemplo. É outro papo. O Brasil é um país de escala continental, o Brasil jamais poderia ser governado à distância, o Brasil não é um país de proporções que sequer admitam o arranjo dessa maneira", afirma. Para o professor da UFMG, o mais provável é que haja um rearranjo na direita, com o surgimento de novas lideranças. Lopes ressalta que o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, começou a se mover neste sentido, tentando resgatar o "espólio bolsonarista". "Claramente enquanto se discutia a fuga de Flávio Bolsonaro ontem, o Tarcísio já estava tentando animar as multidões bolsonaristas e tentando trazer para si o eleitor do Flávio Bolsonaro. Então eu acho que é isso: haverá uma reorganização necessariamente. Lula sai de cena, os bolsonaros devem sair de cena também e acho que uma direita mais institucional, menos ultra, menos extremista, deve se apresentar para o pleito próximo, para o próximo ciclo eleitoral", pondera. Para ele, a situação de Flávio e de outros bolsonaristas nos Estados Unidos poderá ficar menos confortável caso o Partido Republicano saia das eleições de meio de mandato sem o controle do Congresso. "As casas de apostas nos Estados Unidos dão grande probabilidade de Trump perder o controle tanto da 'House of Representatives' quanto do Senado, o que significa que ele terá muita dificuldade para governar na segunda metade do seu mandato", diz Lopes. Caso isso se confirme, diz, a situação ficará menos confortável para os aliados do trumpismo. "Porque vai começar a haver mais pressão, Trump vai ficar mais constrangido até para fazer acenos, para enviar apoio, vai ter barração no Congresso. Todo o entorno do Trump acaba sendo prejudicado se as 'midterms' de fato comprovarem ou confirmarem essa virada na direção do Partido Democrata."

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