Governos de diferentes países têm reforçado orientações para que a população mantenha em casa estoques básicos de água, alimentos não perecíveis e outros itens de emergência. A recomendação, que em alguns casos prevê suprimentos suficientes para pelo menos 72 horas, está relacionada à preparação para situações que possam interromper serviços essenciais, como energia elétrica, abastecimento de água, telefonia e internet. A iniciativa representa uma estratégia de prevenção de riscos, e não necessariamente um sinal de que uma crise esteja prestes a acontecer. No Japão, a preparação para desastres ganhou reforço institucional. O governo lançou, na última segunda-feira (2), a Agência Nacional de Gestão de Desastres, criada para centralizar a coordenação de ações de prevenção, resposta a emergências, recuperação e reconstrução. A expectativa é que o ministro responsável pela gestão de desastres incentive a população a participar ativamente da preparação, inclusive mantendo reservas de água e alimentos em casa. Uma das medidas mais recentes foi a anunciada pelo Reino Unido no final de outubro, quando o governo publicou orientações atualizadas para que as famílias adotem providências simples diante de possíveis interrupções no cotidiano. A recomendação faz parte da campanha Be Ready ("Esteja preparado", em inglês), planejada para durar três anos, e inclui manter em casa uma pequena quantidade de alimentos não perecíveis e água engarrafada, além de se cadastrar no "Priority Services Register", serviço que permite às empresas de energia, água e gás identificar consumidores que podem precisar de assistência adicional em uma emergência. O governo britânico afirma que a iniciativa busca preparar a população para situações como eventos climáticos severos, que podem afetar serviços dos quais as famílias dependem. O país também segue orientações semelhantes às adotadas por França, Irlanda e Países Baixos, que recomendam autonomia por três dias. Ao apresentar a campanha, o ministro da Segurança britânico, Dan Jarvis, afirmou que as pessoas que "ao tomar medidas simples para estar preparado para emergências cotidianas, como tempestades severas, as pessoas podem reduzir a pressão sobre os serviços de emergência, ajudando-os a priorizar aqueles que precisam de mais apoio em uma situação de emergência". A União Europeia também apresentou, em março do ano passado, a "Estratégia para uma União da Preparação", voltada a fortalecer a capacidade do bloco de antecipar, prevenir e responder a crises. O documento considera diferentes tipos de ameaça, como tensões geopolíticas, conflitos, riscos de cibersegurança, manipulação da informação, mudanças climáticas e desastres naturais. Entre as ações estão medidas para reforçar o abastecimento de água e outros recursos essenciais, melhorar sistemas de alerta e ampliar a coordenação entre governos, empresas e sociedade. Mudança na forma como se lida com o risco Para Paulo Morais, diretor executivo da Peers Consulting + Technology, consultoria de negócios e tecnologia com atuação em eficiência operacional e gestão de cadeias de suprimentos, o avanço dessas recomendações não indica uma falha de infraestrutura, mas uma mudança na maneira como os governos lidam com riscos. "Os governos estão levando parte da resiliência para dentro de casa: se a população se sustenta sozinha nos primeiros três dias, os serviços de emergência podem se concentrar nos mais vulneráveis", explica. Segundo ele, o cenário considerado pelos países envolve um conjunto mais amplo de ameaças, que inclui ataques cibernéticos, tensões geopolíticas, guerras e eventos climáticos, além da crescente interdependência entre sistemas de energia, telecomunicações e pagamentos. O especialista destaca que a prevenção também considera o risco de diferentes serviços falharem ao mesmo tempo. Uma interrupção no fornecimento de energia, por exemplo, pode afetar a comunicação, o abastecimento e os meios de pagamento, por isso, manter itens básicos em casa permite que as famílias atravessem os primeiros dias de uma emergência sem depender imediatamente dos serviços públicos.
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