Bets levaram 22% dos endividados a recorrer a crédito para apostar, diz pesquisa

As apostas on-line levaram parte dos brasileiros endividados a comprometer ainda mais o orçamento e a recorrer a empréstimos e outras modalidades de crédito para continuar jogando. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Acordo Certo, plataforma de renegociação de dívidas da Consumidor Positivo, entre julho e setembro deste ano, antes da proibição das bets. Entre os entrevistados que já apostaram em bets ou cassinos on-line, 22% afirmaram ter utilizado empréstimo, cheque especial ou cartão de crédito para fazer apostas nos 12 meses anteriores à pesquisa. O uso do cartão de crédito era proibido nas casas de apostas por determinação do Ministério da Fazenda desde janeiro de 2025, medida que havia sido antecipada pela indústria no fim de 2024 por meio da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). O levantamento também aponta que 19% deixaram de pagar alguma conta para destinar o dinheiro aos jogos no mesmo período. Além disso, 23% dos apostadores atrasam dívidas ou contas, comprometem despesas básicas ou pedem dinheiro emprestado quando têm um mês de perdas. Outros 17% acreditam que parte de suas dívidas atuais foi contraída em razão das apostas. Para Fernando Iodice, CEO da Consumidor Positivo, os resultados estão relacionados ao baixo nível de educação financeira dos brasileiros. “Você permitir bets, num cenário em que você tem um nível de educação financeira mais baixo, é um risco muito grande, que eu acho que se vê pelo resultado, pelo impacto econômico que está na pesquisa, o quanto isso impacta o orçamento familiar e o quanto isso tem o potencial de impactar maior endividamento.” Para 47% dos entrevistados que já apostaram, o objetivo com os jogos era aumentar a renda, pagar contas ou recuperar perdas. Apesar disso, apenas 17% consideram as apostas uma fonte de renda extra. Outros 10% afirmaram que jogam para recuperar valores perdidos anteriormente, o que indica um ciclo de tentativas de compensar prejuízos. “Já não tem educação financeira, e aí se você está numa situação de vício, você acaba fazendo coisas meio irracionais para continuar mantendo o seu hábito.” O comportamento também apresenta diferenças regionais. No Nordeste, 74% dos apostadores ouvidos disseram jogar para aumentar a renda, pagar contas ou recuperar perdas, ante 38% no Sudeste. Também no Nordeste, 38% afirmaram já ter deixado de pagar uma conta para apostar, percentual que cai para 14% no Sudeste. A pesquisa mostra ainda que a prioridade dos endividados, quando recebem um dinheiro extra, é quitar compromissos financeiros. Dois terços dos entrevistados disseram que usariam o recurso para pagar dívidas, enquanto apenas 1% afirmou que apostaria o valor para tentar multiplicá-lo. A proibição das bets foi anunciada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por meio de medida provisória (MP) em 25 de setembro, uma semana antes do primeiro turno das eleições no país. A medida está em vigor, mas precisa ser analisada pelo Congresso Nacional no prazo de 120 dias para se tornar lei; caso contrário, perde a validade. Nesta terça-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) realiza uma audiência pública convocada pelo ministro Luiz Fux, relator de ação movida pela Associação Nacional de Jogos e Loterias que questiona a constitucionalidade da MP que proibiu as bets. Para Iodice, considerando o cenário apresentado pela pesquisa, a proibição parece mais eficaz do que a adoção de restrições. “As pessoas estão buscando renda com bets, isso mostra que a educação financeira delas é muito, muito baixa, então eu não sei se tem um conjunto de restrições que seja cabível. Talvez, de fato, a proibição seja um caminho viável assim, ao invés de você pensar restrições que consigam atender a esse nível de educação financeira que a gente tem.” O levantamento ouviu 661 pessoas com dívidas cadastradas na plataforma Acordo Certo por meio de questionário. Antônio Cruz/Agência Brasil

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