Onde buscar refúgio em um mundo sem coração?

Em tempos de complexidade resgato o debate provocado há décadas por Christophe Lasch, mais atual que nunca, sobre o papel da família, a cultura do narcisismo, e seus impactos na nossa identidade e no trabalho. Supostamente a família seria a base para a consciência das crianças ao ensinar regras de conduta e prover modelos de comportamento para a sobrevivência no mundo do trabalho: o estímulo para estudar e a paciência para crescer profissionalmente. Ainda que muitas críticas cerquem o modelo tradicional de família, permeada por estruturas de poder, questões de gênero, entre outras, essa estrutura foi a base para os atuais “baby-boomers” no espaço de trabalho, com comportamentos de lealdade e comprometimento, na perspectiva de crescer na hierarquia organizacional, modelo que sustentou o desenvolvimento organizacional do século passado. A família seria o lugar do afeto, da intimidade, em oposição ao mundo do mercado, competitivo e impessoal, o “mundo sem coração”. O lar compensaria os custos emocionais da vida econômica, um alinhamento que parece ter sustentado essas duas grandes dimensões da vida no século passado. Mas hoje os pais não têm mais o poder de prover as crianças com as competências necessárias para o mundo do trabalho já que o trabalho mudou e o modelo organizado em três grandes passos: estudar, entrar numa empresa, fazer carreira e crescer na hierarquia organizacional não é mais garantido. As estruturas familiares e as empresas mudaram, e é difícil dizer o que veio antes: se o ovo ou a galinha. No Brasil, mais de 50% dos lares são liderados por mulheres, ou seja, o modelo tradicional de família não é o que predomina. O índice de fertilidade declinou praticamente no mundo todo, ter filhos é dispendioso e não há garantias de um futuro melhor para as novas gerações. Ninguém parece querer voltar às estruturas rígidas da família de outrora, ou ao longo tempo necessário para ser visto, valorizado e promovido nas empresas. A vida se faz hoje apenas no presente: não há passado, não há futuro. A estrutura familiar e o modelo econômico atuais não se alinham mais. E a cultura do narcisismo, que produz vínculos frágeis nas famílias e no trabalho, não tem como prover o vazio interior que atravessa as pessoas. O consumo e o turismo tentam suprir essas necessidades, evidentemente sem sucesso. Ou seria justamente esse modelo desprovido de vínculos o necessário para o momento atual? A colunista escreve que a estrutura familiar e o modelo econômico atuais não se alinham mais. Unsplash O culto do desenvolvimento individual que há algumas décadas pensamos seria suficiente para o bem viver também parece não funcionar ao excluir as contradições inevitáveis do viver. A libertação pessoal não é o mesmo que mudança social, por desconsiderar as necessárias transformações econômicas, sociais e políticas que poderiam levar a um novo contrato social. Como a ideia de bem-estar e crescimento pessoal não se sustentam mais, o que vemos são revoltas, em polarizações políticas ou manifestações de ódio em grupos extremos, contra um sistema que não consegue mais cumprir promessas de melhores condições de vida e trabalho para a maioria da população. Como pensar a gestão em tempos de polarização Quem seremos na era dos gestores ciborgues? O trabalho como fonte de equilíbrio Enquanto isso não é possível, enquanto a humanidade não reorganiza um novo contrato social, enquanto não pudermos cuidar uns dos outros já que vamos continuar a viver aqui, como já provocou Minouche Shafik, nesse momento o que podemos fazer é o resgate dos afetos e amizades que ultrapassem as diferenças.

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