Após conquistarem a maioria no Congresso nas eleições de meio de mandato, os democratas prometem usar seus novos poderes de investigação para examinar os negócios da família de Donald Trump, uma parte da estratégia de tornar a corrupção em um dos temas centrais da campanha pela Casa Branca em 2028. Além disso, a oposição também mira a ampla maioria conservadora na Suprema Corte, já que terá poder de vetar durante os próximos dois anos possíveis indicados em caso de vacância. Dezenas de milhões de eleitores manifestaram nas urnas a reprovação a Trump nas urnas na terça-feira, dando aos democratas o controle da Câmara dos Deputados e do Senado, com derrotas históricas para os republicanos em redutos que antes eram considerados como seguros para o partido nas eleições. Com a vitória expressiva confirmada, muitos democratas não demoraram em mandar um recado aos republicanos sobre o que está por vir, em um sinal de que um cenário de impasse político deve prevalecer em Washington nos dois últimos anos do segundo de mandato de Trump. "Contratem advogados", escreveu em uma rede social o deputado democrata Robert Garcia, favorito a assumir a presidência da Comissão de Fiscalização da Câmara, após o resultado eleitoral. "Intimações", completou uma hora depois o senador Ron Wyden, que deve presidir a Comissão de Finanças do Senado. Já a deputada federal Delia Ramírez, em uma publicação dirigida a várias autoridades do governo Trump, sugeriu que eles "liberem a agenda" para comparecer às audiências que os democratas devem convocar a partir de janeiro, quando os novos deputados e senadores tomam posse. Ontem, os líderes democratas no Congresso começaram a traçar uma agenda de fiscalização voltada tanto para o governo Trump como para grandes empresas. Wyden afirmou que pretende examinar em detalhe acordos entre o governo e a indústria farmacêutica sobre preços dos medicamentos. O governo Trump nega ter cometido qualquer irregularidade e reagiu à perspectiva das investigações. “Se os democratas optarem por levar adiante investigações de fachada e políticas de esquerda radical, estarão escolhendo trabalhar contra o povo americano”, disse Lauren Bis, porta-voz da Casa Branca. Outra autoridade da Casa Branca, que falou sob condição de anonimato, reagiu às declarações dos democratas. “É bom lembrá-los de que ainda controlamos o governo federal e todos os seus poderes”, afirmou. Trump em evento com Elon Musk em Washington Evan Vucci/Reuters/Arquivo Família de Trump e Musk como alvos O empresário do setor de tecnologia Elon Musk, um dos grandes doadores do Partido Republicano, os filhos de Trump e diversos outros doadores republicanos e contratados do governo provavelmente serão envolvidos em investigações que podem dominar a segunda metade do mandato de Trump. Os democratas optaram por abrir investigações em vez de tentar promover de imediato o impeachment de Trump. No entanto, eles terão dificuldade em tentar encontrar um equilíbrio delicado entre expor o que classificam como corrupção sem precedentes no governo Trump e atender às preocupações dos eleitores com a alta dos preços dos bens de consumo e da gasolina, segundo analistas. O êxito ou o fracasso dos democratas nessa tarefa terá grande impacto sobre a disputa pela sucessão de Trump na eleição presidencial de 2028, que até agora segue em aberto. “Os democratas estarão menos preocupados com Trump em si e mais em associar a corrupção ao governo como um todo e, em última instância, a todo o Partido Republicano”, disse Sarah Longwell, ex-estrategista republicana e crítica de longa data de Trump. Segundo ela, um dos objetivos será tirar de integrantes do governo Trump a chance de avançar na carreira política. Longwell disse que os democratas também poderiam se beneficiar politicamente de uma investigação sobre como os republicanos lidaram com as informações a respeito de Jeffrey Epstein, já falecido e condenado por crimes sexuais. “Mesmo que seja mais teatro político do que qualquer outra coisa, toda vez que se fala de Epstein, a popularidade de Trump sofre”, afirmou. O consultor republicano Ron Bonjean avaliou, porém, que os democratas correm o risco de ir longe demais. “Os eleitores estão mais preocupados com o custo de vida”, disse Bonjean. “Se o desejo de vingança dos democratas se sobrepuser à sua agenda legislativa, é provável que sua maioria no Congresso dure muito pouco.” Suprema Corte Com maioria no Senado, os democratas podem barrar indicações de Trump, inclusive para a Suprema Corte dos EUA, caso surja uma vaga. A vitória da oposição levanta dúvidas sobre quanto tempo os dois ministros mais idosos do tribunal, Clarence Thomas e Samuel Alito, permanecerão no cargo e por quanto tempo a maioria conservadora será mantida. Atualmente, os conservadores têm uma maioria de seis votos - incluindo os de Thomas e Alito - a três na Suprema Corte. A guinada à direita ocorreu sob os dois mandatos de Trump, que indicou três nomes ao tribunal durante seus dois mandatos como presidente. Em 2022, Alito redigiu o voto da maioria que derrubou o precedente do caso Roe vs. Wade e encerrou a proteção constitucional federal ao direito ao aborto. Thomas acompanhou a decisão e, em voto separado, defendeu que a Corte também reexaminasse precedentes que garantem o acesso a contraceptivos e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
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