Diretora-geral do FMI diz que dívida pública global se aproxima de 100% do PIB e alerta para riscos

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, alertou para os riscos que o aumento da dívida pública e a expansão da inteligência artificial (IA) representam para a estabilidade financeira global. Durante painel com a presidente-executiva do Santander, Ana Botín, na Conferência Internacional de Bancos do Santander, na Espanha, Georgieva afirmou que o mundo se aproxima de um nível de endividamento equivalente a 100% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto os investimentos em IA ampliam a exposição do sistema financeiro a possíveis desequilíbrios. “Agora estamos nos aproximando de 100% da dívida em relação ao PIB. Isso é ruim. O que é pior é que o custo do serviço da dívida, com a inflação empurrando as taxas para cima, está se tornando sufocante para os governos e, claro, é ruim para os negócios, ruim para as famílias”, disse. Segundo Georgieva, os governos têm recorrido ao endividamento para responder a crises, mas não aproveitam os períodos seguintes para recompor suas reservas fiscais. Ela citou a pandemia e a guerra na Ucrânia como exemplos de choques que levaram a novos gastos e empréstimos, sem que os países reconstruíssem suas reservas. “O que estamos enfrentando na situação da dívida é como uma escada. Um degrau acima, e acima, e acima. E posso lhe dizer que esta não é uma escada para o céu, com certeza.” Para a diretora-geral do FMI, o crescimento econômico, sozinho, não será suficiente para resolver o problema do endividamento. Será necessário combinar expansão da atividade com ajustes fiscais. “Não sou uma grande crente de que o crescimento possa nos tirar do buraco da dívida sozinho. Isso exigirá também ajuste fiscal, e quanto mais cedo a ação for tomada, melhor.” Georgieva também chamou a atenção para a pressão que os juros e os preços de energia e alimentos podem exercer sobre as contas públicas. Segundo ela, a trajetória dos preços de energia ainda não aponta para uma solução fácil, o que pode manter os rendimentos dos títulos em alta e tornar ainda mais importante a capacidade dos governos de administrar o custo de suas dívidas. Ao abordar a IA, a diretora-geral do FMI destacou riscos à estabilidade financeira, ao financiamento dos investimentos e ao mercado de trabalho. “O entusiasmo com a IA está sugando investimentos, transformando a IA na única perna em que a economia mundial se apoia. Se essa perna bambear, haverá grandes problemas.” Ela afirmou que parte dos investimentos em IA está sendo financiada por dívida, inclusive de longo prazo, e chamou a atenção para operações circulares entre empresas do setor. “Vemos muitos investimentos circulares. Então eu invisto em você, você investe em mim, estamos todos muito felizes, exceto que se algo der errado, isso pode ser um grande problema.” No mercado de trabalho, Georgieva disse que a estimativa é que 40% dos empregos no mundo serão afetados pela IA em um período relativamente curto. Nas economias avançadas, a proporção pode chegar a 60%. O impacto, segundo ela, não será necessariamente uma redução líquida do número de vagas, mas uma transformação das funções. “Alguns serão melhorados, pagarão mais, mas alguns serão eliminados e muitos empregos serão redefinidos.” Questionada sobre o prazo para essas mudanças, ela afirmou que o FMI trabalha com uma janela de três a cinco anos. A dirigente também defendeu a construção de salvaguardas internacionais para a tecnologia. Segundo ela, ainda não existe consenso global sobre como regular a IA, diante das diferenças entre os modelos adotados por Estados Unidos, China e Europa. “Temos que encontrar espaço para esses três modelos terem alguma consistência.” *A jornalista viajou a convite do Santander

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