A Corsan, controlada pela Aegea, captou R$ 700 milhões por meio do programa Eco Invest para expandir os serviços de saneamento básico no Rio Grande do Sul e a adaptação climática de suas operações. A operação foi realizada no âmbito do primeiro leilão do programa do Tesouro Nacional, que combina capital público subsidiado com privado para reduzir o custo final de financiamento de projetos verdes. O Tesouro oferece aos bancos recursos a um custo baixo (1% ao ano), exigindo em contrapartida que eles alavanquem esse dinheiro com recursos privados. A captação foi estruturada pelo Bradesco BBI por meio da emissão de debêntures com prazo de dez anos. Os recursos serão destinados a duas frentes: (1) melhorias de infraestrutura e adaptação climática e (2) crescimento urbano, segundo a escritura de emissão das debêntures. A Corsan estima investir R$ 729,7 milhões nesses projetos até 2033, dos quais R$ 700 milhões serão dessa emissão. A maior parte, R$ 515 milhões, será destinada para melhorias de infraestrutura e adaptação climática. “Estamos falando de investimentos que vão desde melhorias operacionais e expansão de redes até ações voltadas à adaptação climática dos sistemas de água e esgoto”, disse Caio Andrade, head de ESG do Bradesco BBI, ao Reset. Segundo a Aegea, a prioridade são regiões vulneráveis a inundações, considerando os impactos das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. Entre as medidas previstas estão a elevação de estruturas (instalar equipamentos ou partes da infraestrutura em níveis mais altos para evitar que sejam atingidos pela água); a construção de barreiras de proteção (estruturas físicas como muros, diques e comportas para impedir ou reduzir a entrada de água em instalações essenciais) e a aquisição de geradores para manter equipamentos funcionando quando há interrupção no fornecimento da rede elétrica. As enchentes no estado impactaram diretamente a operação da companhia. Dos 317 municípios que atende, 236 foram atingidos pelas fortes chuvas e 67 sofreram desabastecimento por danos severos nas estações de captação, tratamento e distribuição de água. Na época, a Aegea informou que foram gastos R$ 134,8 milhões com a recuperação de estruturas, máquinas e equipamentos danificados. Parte dos R$ 515 milhões também pode financiar a recuperação de estruturas, a reposição de equipamentos e melhorias operacionais que não estão relacionadas diretamente à adaptação climática. As ações incluem reparos na infraestrutura de abastecimento, medidas para normalizar a produção de água e a troca de equipamentos. Segundo a empresa, essas ações podem ajudar na redução de vulnerabilidade e continuidade dos serviços diante de eventos extremos. A Aegea não divulga a divisão dos recursos por tipo de intervenção nem informa quanto será destinado especificamente a medidas de adaptação. Canteiro de obras Os outros R$ 214,6 milhões dos recursos captados serão destinados para a universalização dos serviços de água e esgoto nas áreas em que a companhia atua, com expansão de redes e ramais em áreas atendidas, novas ligações e adesão de novos usuários. O Marco Legal do Saneamento estabelece que 99% da população brasileira deve ter acesso à água potável e 90% deve contar com coleta e tratamento de esgoto até 2033. A Corsan tem, respectivamente, 99% e 30% de cobertura no estado. A empresa foi privatizada em 2023, quando o governo do Rio Grande do Sul concluiu a venda do controle acionário para a Aegea Saneamento por R$ 4,15 bilhões. A expansão da rede de esgoto, ainda longe da meta do marco legal, ganhou ritmo desde estão. “Antes, a Corsan fazia 40 quilômetros de expansão de rede de esgoto por ano. Agora, estamos fazendo, em média, 40 quilômetros por semana”, diz Yaroslav Memrava, diretor de novos negócios da Aegea. Para alcançar os objetivos da universalização, o desafio do setor é aumentar os investimentos em infraestrutura em um prazo relativamente curto, afirma Andrade, do Bradesco BBI. Para ele, o Eco Invest pode ajudar a antecipar ou aumentar o volume de investimentos ao reduzir o custo de financiamento. “O país vem rodando uma taxa de juros elevada nos últimos anos, e isso é brutal para a infraestrutura, porque cria uma restrição na disponibilidade de capital”, diz Memrava. O Bradesco deve reportar anualmente ao Tesouro Nacional o andamento dos projetos. A Corsan, por sua vez, é responsável por monitorar a aplicação dos recursos e apresentar relatórios anuais sobre seu uso, a implementação de melhorias e a expansão das redes de saneamento. A geração de empregos também será monitorada, mas sem uma meta específica, afirma Andrade. Estrutura financeira O Eco Invest exige que os bancos captem recursos com investidores privados para compôr com os recursos públicos – uma estrutura que é chamada de blended finance. O Bradesco buscou recursos no exterior, dentro de sua estratégia de funding mais ampla, e com eles comprou integralmente a emissão da Corsan, sem distribuição a outros investidores. “Quase todas as nossas operações de Eco Invest foram estruturadas via ofertas públicas, a maioria via debêntures, que permitem maior o acesso à informação”, diz Andrade. O banco foi contemplado nos cinco leilões do Eco Invest realizados até agora e recentemente concluiu a alocação dos recursos do primeiro – certame em que mobilizou R$ 3,6 bilhões. A Aegea soma cerca de R$ 1,8 bilhão captados via Eco Invest, todos do primeiro leilão. Desse total, aproximadamente R$ 920 milhões correspondem à Corsan: R$ 700 milhões da nova operação e R$ 220 milhões captados com o BNDES no ano passado. Risco de crédito A operação foi liquidada meses depois de a Aegea sofrer rebaixamentos de rating em meio a questionamentos sobre constantes atrasos na divulgação de suas demonstrações financeiras de 2025. Em abril, a S&P e a Fitch reduziram as notas de crédito da companhia, enquanto a Moody’s colocou a nota em revisão para possível rebaixamento. Em junho, a Fitch voltou a rebaixar a nota nacional da Aegea, citando a perspectiva de aumento da alavancagem. Andrade afirma que a análise de crédito do Bradesco se concentrou na Corsan e na capacidade de geração de resultados da companhia, e não apenas na situação financeira da controladora. “No Eco Invest, a gente está financiando o projeto. Então, a nossa análise principal é o projeto. A Corsan é um ativo maduro da Aegea, com boa performance, que apresenta bons resultados”, diz. O post Via Eco Invest, Corsan capta para adaptar saneamento ao clima apareceu primeiro em Reset.
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