Por que os resultados das eleições dos EUA demoram tanto para sair?

Milhões de americanos vão às urnas nesta terça-feira (3) nas eleições de meio de mandato, as chamadas "midterms", para eleger uma nova composição da Câmara dos Deputados e do Senado, além de governadores de 36 Estados. O pleito será acompanhado de perto por todo o mundo por ser decisivo para os dois últimos anos de mandato do presidente Donald Trump. Leia também: Como funcionam e o que está em jogo nas eleições de meio de mandato nos EUA? As pesquisas mais recentes indicam que os democratas devem recuperar o controle da Câmara. No Senado, a disputa está acirrada e será decidida em um pequeno grupo de Estados, onde os republicanos concentraram a campanha na reta final para não deixar que a oposição a Trump tenha maioria nas duas casas do Congresso. Os resultados, porém, podem demorar a sair. Isso ocorre porque o sistema eleitoral dos Estados Unidos é descentralizado, sem um órgão como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Brasil, para organizar a eleição e a divulgação da apuração. As regras do pleito e da contagem dos votos variam entre os Estados, responsáveis pela realização das eleições. Para tentar suprir a lacuna de informações e a demora na publicação dos resultados, a imprensa americana faz projeções dos vencedores de uma determinada disputa com base na coleta de informações nas seções eleitorais, em análises estatísticas, modelos matemáticos, histórico de eleições anteriores e avaliações de especialistas. Entenda como funciona a apuração dos votos e a divulgação dos resultados das eleições nos EUA: Como os Estados apuram os votos nos EUA? As regras de apuração dos votos variam entre os Estados, divergindo principalmente em relação ao momento em que as autoridades eleitorais podem começar a processar e contar os votos antecipados, que incluem os votos por correio. Os Estados podem ser divididos em três grandes grupos, segundo a National Conference of State Legislatures (NCSL), uma organização bipartidária que reúne legisladores estaduais, conforme o momento em que as cédulas recebidas por correio podem começar a ser processadas. São duas etapas de processamento: a verificação das cédulas, que pode incluir a checagem da assinatura do eleitor, a abertura dos envelopes e a organização dos votos; e a leitura eletrônica, quando as cédulas são inseridas nos equipamentos responsáveis pela contagem. Dos 50 Estados americanos, 33 e a capital Washington, D.C., permitem que a verificação das cédulas e a leitura eletrônica sejam feitas antes do dia da eleição. Há diferenças de prazos e de como o processo ocorre, mas, no geral, essa autorização permite que as autoridades eleitorais adiantem parte do trabalho de apuração. No Texas, por exemplo, onde a disputa entre o democrata James Talarico e o republicano Ken Paxton por uma vaga no Senado está entre as mais acirradas das "midterms", apenas jurisdições eleitorais de 100 mil ou mais habitantes podem começar a leitura eletrônica dos votos antes do dia da eleição. Outros 10 Estados, entre eles Arkansas, Carolina do Sul, Pensilvânia e Wisconsin, só autorizam que a leitura dos votos comece no dia da eleição, após a abertura das urnas para a votação presencial. Dentro desse grupo, há alguns Estados, como a própria Carolina do Sul, que permitem antecipar a verificação das cédulas em até dois dias antes da votação, mas a leitura eletrônica só ocorre no próprio dia da eleição. Por outro lado, em 7 Estados, entre eles Alasca, Illinois, Mississippi e New Hampshire, a leitura eletrônica dos votos por correio fica para depois do encerramento da eleição presencial. Há diferenças nas regras em relação ao preparo das cédulas, com alguns Estados permitindo que isso ocorra antes do pleito. Independentemente das regras de cada Estado, nenhum deles permite a divulgação de resultados antes do fechamento das urnas. Em termos gerais, Estados que permitem a verificação e a leitura antecipada das cédulas tendem a divulgar mais rapidamente a apuração assim que a eleição seja concluída. Quando os primeiros resultados são esperados? As primeiras urnas serão fechadas às 20h em Brasília, em partes de Indiana e Kentucky. Em outros Estados, principalmente no oeste do país, a votação só será concluída na madrugada de quarta-feira (4), no horário de Brasília. As últimas urnas, no Alasca, serão fechadas às 3h de quarta-feira. Ainda há diferenças de fusos horários dentro dos Estados, com encerramentos distintos da votação em algumas regiões. As primeiras projeções da imprensa americana devem ser divulgadas logo após o fechamento das urnas em cada Estado. Os resultados preliminares não incluem, necessariamente, todos os votos válidos que ainda precisam ser contabilizados. Em algumas disputas, pode haver uma projeção quase imediata do vencedor, mesmo antes de grande parte dos votos ter sido apurada. Embora o controle da Câmara dos Deputados possa ser projetado mais cedo, devido às margens de vantagem mais amplas nas disputas, a definição da maioria do Senado pode demorar e só ocorrer na quarta-feira ou nos dias seguintes. Sete Estados vivem eleições particularmente competitivas e dois deles (Alasca e Maine) adotam um sistema de voto preferencial, em que os eleitores podem classificar os candidatos por ordem de preferência, o que pode prolongar a apuração. Se as pesquisas se confirmarem, é pouco provável que o controle da Câmara dos Deputados seja decidido por apenas uma cadeira, mas isso pode muito bem ocorrer no Senado. Se as distâncias entre os candidatos estiverem muito apertadas, a imprensa americana deve demorar a projetar os vencedores nos Estados considerados decisivos. Como funciona a projeção de resultados? Redações dos veículos de comunicação dos EUA projetarão, assim que a apuração dos votos começar, os vencedores de um dos ciclos de eleições de meio de mandato mais disputados dos últimos anos no país. A maioria das emissoras de televisão e dos veículos digitais depende de dois fornecedores para a projeção dos votos: a Associated Press (AP), uma agência de notícias sem fins lucrativos que realiza a contagem eleitoral desde 1848, e a empresa de dados eleitorais Decision Desk HQ (DDHQ). Para as eleições de 2026, a AP mobilizará mais de 4 mil repórteres em repartições eleitorais dos condados e locais de votação para coletar e verificar os resultados. Já a DDHQ utiliza dados divulgados pelas autoridades eleitorais estaduais, sistemas automatizados de coleta de informações e repórteres em campo. As duas organizações utilizam análises estatísticas, modelos matemáticos e dados de eleições anteriores para estimar quantos votos ainda faltam ser apurados e determinar se o candidato que está atrás na contagem tem condições de alcançar o adversário. As projeções são divulgadas quando as equipes responsáveis consideram que a vitória de um candidato se tornou estatisticamente certa. Alguns veículos de comunicação, como o Wall Street Journal e a MS NOW, utilizam diretamente as projeções da AP, enquanto outros, como a Fox News e a CBS News, fazem suas próprias análises com base nos dados da agência, em pesquisas de boca de urna e em modelos estatísticos. O New York Times também utiliza as projeções da AP para a maioria das disputas, mas analisa de forma independente as eleições mais competitivas. As projeções podem estar erradas, embora seja raro que isso aconteça. Tanto a AP quanto a DDHQ já tiveram de retirar projeções de vencedores no passado, após novas contagens de votos alterarem os resultados das disputas. Para determinar qual partido conquistou o controle de cada casa do Congresso, a AP só projeta a maioria na Câmara dos Deputados depois de apontar os vencedores de pelo menos 218 disputas por cadeiras na Casa. No Senado, a agência contabiliza os assentos conquistados por cada partido e declara qual deles terá o controle quando alcançar o número necessário — geralmente 51 cadeiras, ou 50 quando o vice-presidente dos EUA pertence ao mesmo partido, já que ele pode desempatar votações. O fato de um candidato declarar vitória ou reconhecer a derrota também não torna automaticamente o resultado oficial. Segundo a AP, o reconhecimento da derrota não tem efeito jurídico vinculante e, por si só, não determina quando a agência projetará o vencedor de uma disputa. E quando serão divulgados os resultados oficiais? Embora as emissoras de televisão e os veículos de comunicação possam anunciar a vitória de um candidato nas horas ou nos dias seguintes ao fechamento das urnas, o resultado oficial das eleições americanas só é estabelecido depois que as autoridades eleitorais competentes concluem a apuração, a conferência dos votos e o processo de certificação, o que pode demorar dias ou semanas. Dependendo das regras de cada Estado, as autoridades eleitorais ainda podem precisar processar e contabilizar votos enviados pelo correio, votos provisórios, votos antecipados e votos de militares e de cidadãos americanos que vivem no exterior. À medida que novos votos são apurados, a vantagem de um candidato pode aumentar, diminuir ou até desaparecer. Segundo a Comissão de Assistência Eleitoral dos Estados Unidos (EAC), os resultados extraoficiais continuam sendo atualizados até que todos os votos sejam contabilizados e os procedimentos obrigatórios posteriores à eleição sejam concluídos. Muitos Estados também realizam auditorias após a eleição para verificar se os equipamentos de votação e os sistemas de apuração contabilizaram os votos corretamente. Os prazos e os métodos dessas auditorias variam de um Estado para outro.

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