Brasil vira destino prioritário do capital chinês e empresas asiáticas entram em nova fase de operação no país

A presença de empresas chinesas no Brasil entrou em uma nova fase. Durante anos, a relação entre os dois países esteve concentrada principalmente no comércio de commodities. Agora, o capital vindo da China ocupa espaço crescente também em energia, mineração, indústria, infraestrutura, tecnologia e mobilidade. Esse avanço ajuda a explicar por que o Brasil se tornou, em 2025, o principal destino mundial dos investimentos chineses. Segundo levantamento do Conselho Empresarial Brasil China (CEBC), os aportes chineses no país somaram US$ 6,1 bilhões no ano passado. O valor representa crescimento de 45% em relação a 2024 e é o maior volume em sete anos. Foram 52 projetos, um recorde da série histórica. O Brasil concentrou 10,9% de todo o investimento chinês realizado no exterior no período, à frente de Estados Unidos e Guiana. O movimento vai além dos nomes já conhecidos pelo consumidor brasileiro. Levantamento divulgado pela Câmara de Comércio de Desenvolvimento Internacional Brasil China (CCDIBC) aponta mais de 200 operações de empresas chinesas no país. As intenções públicas de investimento podem alcançar R$ 200 bilhões até 2030. State Grid, CTG e SPIC estão entre os grupos presentes em energia, e fabricantes de veículos e plataformas digitais ampliaram a exposição das marcas chinesas ao consumidor final. Há uma combinação de fatores por trás dessa expansão. O Brasil oferece escala, com um mercado consumidor de mais de 200 milhões de pessoas, abundância de recursos naturais e uma matriz energética de forte presença renovável. Ao mesmo tempo, empresas chinesas buscam diversificar mercados em meio a disputas comerciais, barreiras tarifárias e restrições crescentes em algumas das principais economias desenvolvidas. Para Thiago Barreto, CEO da TBC Consulting, consultoria estratégica especializada nas relações empresariais entre China e Brasil, o país passou a ocupar uma posição diferente no planejamento desses grupos. "O Brasil deixou de ser visto apenas como um mercado de oportunidade e passou a ser tratado como uma plataforma de crescimento de longo prazo. Há escala, demanda, recursos naturais e uma posição relevante na América Latina. Para muitas empresas chinesas, estar aqui de forma estruturada tornou-se uma decisão estratégica, e não apenas comercial", afirma. As próprias condições da economia chinesa reforçam esse cenário. Nas últimas décadas, o país acumulou capacidade produtiva elevada em diferentes segmentos industriais. Com a demanda doméstica mais moderada em algumas áreas, a internacionalização passou a ter papel ainda mais relevante nas estratégias de crescimento dos grupos chineses. No Brasil, essa estratégia já não se resume a exportar produtos prontos. Instalar operações locais, produzir no país e construir cadeias de fornecedores passaram a fazer parte dos planos de empresas que pretendem ganhar escala no mercado brasileiro. A BYD, por exemplo, iniciou a produção de veículos em Camaçari, na Bahia, no antigo complexo industrial da Ford. O investimento virou um exemplo visível dessa mudança de perfil. "As empresas chinesas não querem apenas vender para o Brasil. Elas querem se estabelecer, produzir e crescer aqui. Esse é um salto de complexidade considerável, porque operar localmente exige uma compreensão profunda do ambiente regulatório, tributário e trabalhista brasileiro, além da cultura de negócios do país", diz Barreto. Essa transição traz um conjunto de desafios que muitas vezes não aparece nas primeiras análises de investimento. O sistema tributário brasileiro, hoje em processo de transição, está entre os mais complexos do mundo. A legislação trabalhista e as exigências de licenciamento variam conforme o setor e a localização. A relação com órgãos públicos, distribuidores e clientes também tem dinâmicas próprias. Decisões tomadas na fase de entrada, como o modelo societário, a localização da operação e a estrutura de importação de insumos, costumam definir a competitividade do negócio por muitos anos. Segundo Barreto, um erro comum é replicar no Brasil modelos que funcionaram em outros mercados. "Muitas empresas chegam com uma estratégia bem desenhada na matriz, mas descobrem que a operação brasileira exige adaptações importantes. A estrutura tributária, o custo logístico, o capital de giro e o tempo de resposta do mercado mudam completamente a conta. Quem estrutura bem essa etapa ganha velocidade. Quem subestima esses fatores tende a enfrentar margens menores e atrasos na expansão", avalia. O modelo de entrada também se tornou mais diversificado. Parte das empresas começa pela importação e pela construção de uma rede comercial antes de investir em produção local. Outras optam por aquisições, joint ventures ou parcerias com grupos brasileiros para acelerar o acesso ao mercado. Há ainda os projetos de grande porte, em infraestrutura e energia, nos quais a presença no país é desenhada desde o início como permanente. "Não existe um caminho único. A escolha depende do setor, do grau de regulação, da maturidade da marca no país e do horizonte de investimento. O que observamos é que as empresas que tratam a entrada no Brasil como um projeto estratégico, com planejamento tributário, operacional e comercial integrados, constroem operações mais sólidas e sustentáveis", afirma o executivo. O ambiente também exige atenção a fatores externos. Setores da indústria brasileira vêm cobrando medidas de defesa comercial diante do crescimento das importações chinesas, especialmente em segmentos nos quais empresas nacionais alegam diferenças relevantes de escala, custo de produção e condições competitivas. Para Barreto, esse debate reforça a tendência de localização das operações. "A produção local, o desenvolvimento de fornecedores no país e a geração de empregos aqui deixam de ser apenas uma questão de custo. Eles passam a fazer parte da forma como essas empresas constroem sua legitimidade e sua permanência no mercado brasileiro", diz. Esse movimento também abre espaço para empresas brasileiras. Conforme os grupos chineses passam a operar de forma permanente no país, aumenta a demanda por fornecedores, distribuidores, parceiros comerciais e prestadores de serviços com conhecimento do mercado local, em áreas como engenharia, logística, tecnologia, contabilidade, manutenção, marketing e recursos humanos. Dependendo do setor, a chegada de uma multinacional chinesa pode representar tanto um novo concorrente quanto um novo cliente. Com as empresas chinesas deixando de enxergar o Brasil apenas como mercado consumidor e passando a construir operações de longo prazo no país, a qualidade da estruturação dessas operações tende a definir quais grupos conseguirão transformar o volume recorde de investimentos em crescimento consistente nos próximos anos.

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