A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, sob um roteiro tumultuado, levanta as primeiras reações entre democratas, que se preparam para conquistar a Câmara dos Deputados e, talvez, o Senado nas eleições de meio de mandato da próxima terça-feira, 3 de novembro. A bancada dos democratas na Comissão de Relações Exteriores da Câmara afirmou que "não há asilo para pessoas que fogem da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti, mas Marco Rubio está estendendo o tapete vermelho para Flávio Bolsonaro", citando o chefe do departamento de Estado americano. "Aparentemente, fugir da violência não se qualifica. Negar os resultados das eleições, sim", afirmaram na conta do grupo na rede social. O deputado democrata Joaquin Castro, do Texas, que é membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, afirmou que "perder uma eleição não é motivo para asilo". "Mesmo assim, o governo Trump está dando refúgio a Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos", disse Castro, que é o principal representante democrata na subcomissão do Hemisfério Ocidental, nome que os americanos dão para todo o continente, incluindo a América do Sul. "O governo Trump deve explicações ao Congresso sobre seu papel em ajudar Bolsonaro a fugir do Brasil, em violação à lei brasileira", afirmou Castro em sua rede social pessoal. A expectativa com a vitória dos democratas ao menos na Câmara é que sejam abertas uma série de investigações sobre decisões do governo Trump, como a guerra no Irã e a presença na Venezuela. A relação com o Brasil e o processo eleitoral poderia ser mais uma frente de escrutínio. Segundo analistas de Washington, uma vitória democrata também pode tornar a vida dos Bolsonaros nos EUA "mais incômoda" e aumentar o "custo político" da proteção que Trump oferece, com a convocação de audiências, por exemplo. Além de Flávio, seu irmão e ex-deputado federal, Eduardo Bolsonaro, já mora nos EUA desde o ano passado e tenta influenciar decisões do departamento de Estado e da Casa Branca em relação ao Brasil. Mas ganhar o Congresso, dizem analistas, não daria aos democratas o poder de cancelar vistos, retirar o “green card” - que Eduardo possui, por exemplo - ou ordenar uma extradição por conta própria. Flávio Bolsonaro chegou aos EUA na manhã desta quarta-feira acompanhado da esposa e das duas filhas. Aliados do senador disseram, ontem, que ele já estava em solo americano. Mas o governo da Argentina informou apenas na madrugada desta quarta que a família havia entrado no país às 22h50 (horário de Brasília) de ontem. A Direção Nacional de Migrações da Argentina afirmou que eles portavam documentação de viagem válida e não apresentavam qualquer impedimento legal para entrar no país". Flávio entrou no vizinho com seu passaporte italiano, já que seu passaporte brasileiro foi cancelado após o senador descumprir a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de que ele entregasse seus passaportes em 24 horas. Flávio e a família deixaram a Argentina em um jato particular que decolou às 23h52 do aeroporto de Puerto Iguazú. A aeronave fez escala em Guayaquil, no Equador, e pousou em Miami, nos EUA, na manhã de hoje. Ao desembarcar em Washington ainda na madrugada desta quarta, o presidente Donald Trump foi questionado por jornalistas se sabia onde Flávio estava no momento, e respondeu: "Ouvi dizer que ele estava na Argentina, mas não sei ao certo". Trump também disse que aprovaria vistos para Flávio e sua família no país. "Eu aprovaria. Acho que eles são boas pessoas. A eleição foi muito estranha, e achei terrível", afirmou. "Eu aprovaria. Para mim, estaria tudo bem", acrescentou. Mais cedo, na terça-feira, uma autoridade do governo Trump informou que o Departamento de Estado dos EUA emitirá vistos para o senador, sua esposa e suas duas filhas. A fonte não explicou, no entanto, a categoria do visto nem a duração. Questionada nesta quarta sobre que tipo de visto seria oferecido, a administração Trump disse que a pergunta deveria ser direcionada ao departamento de Estado e ao departamento de Segurança Interna. Eles ainda não responderam aos pedidos de esclarecimentos. Na mesma madrugada em que disse que aceitaria a vinda de Flávio e sua família, porém, Trump voltou a afirmar que não tomou partido durante a eleição. Ele observou que conhece o presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e que conhece "muito bem" o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro. "Acho que o pai foi tratado muito mal", afirmou. "Mas eu não estava envolvido na eleição. É o Brasil, é um outro país. Eu me envolvo em algumas coisas", disse, citando como exemplos a própria Argentina e seu apoio a Abelardo de la Espriella na Colômbia. "Tudo bem, é o resultado final", voltou a afirmar sobre a eleição no Brasil. "Mas a forma como chegaram a esse resultado foi terrível", disse. Trump tem usado o Brasil para colocar em xeque a lisura da própria votação nos EUA na próxima terça-feira. “Eles fraudam muito bem os democratas dos EUA. São os maiores fraudadores de eleições da história. Embora o Brasil também esteja fazendo um bom trabalho nisso, não é? Eu não tomei partido sobre a eleição no Brasil, não gostei, não me pareceu muito bom”, disse ele ontem em um comício no Texas. Entre analistas em Washington, a avaliação é a de que Trump evita o desgaste de não reconhecer o governo Lula 4, ao mesmo tempo em que mantém aberta a porta para que a ala mais ideológica de seu entorno, sobretudo aquela ligada a Rubio, continue impondo sua visão para a América Latina. Com essa agenda, dizem, Rubio quer agradar, por exemplo, Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca, e os filhos de Trump, em busca de apoio a seu nome na corrida presidencial de 2028, isolando o vice-presidente J.D. Vance como sucessor natural. Por outro lado, acolher Bolsonaro "complicará a relação de Trump com a maior economia da América Latina", afirma a Gzero, subsidiária da Eurasia Group. Contudo, diz, com Eduardo também vivendo nos EUA e Jair Bolsonaro sob prisão domiciliar por tramar um golpe para reverter sua derrota na eleição de 2022 para Lula, a situação pode abrir espaço para que outras lideranças de direita no Brasil ganhem protagonismo, "eclipsando os Bolsonaros na liderança da oposição conservadora", afirma.
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