A Americanas encerrou nesta segunda-feira (19) sua recuperação judicial, iniciada em janeiro de 2023 após a revelação de uma fraude contábil que levou a companhia a renegociar cerca de R$ 42,5 bilhões em dívidas, o terceiro maior valor da história das recuperações no país. Fora do processo, a varejista espera ampliar o acesso ao crédito para suas operações e seus fornecedores e consolidar a reestruturação. Segundo Fernando Soares, diretor-presidente da varejista, a saída marca uma nova etapa de uma transformação que reduziu o tamanho do negócio, priorizou as lojas físicas e redesenhou a operação digital para atender às unidades. “Foi uma recuperação judicial brilhantemente negociada”, disse ao Valor. Segundo ele, o plano foi cumprido integralmente e a melhora operacional ajudou a viabilizar o encerramento do processo. A saída, porém, não significa que a recuperação financeira esteja concluída. A Americanas registrou prejuízo de R$ 274 milhões no segundo trimestre, ante R$ 98 milhões um ano antes. Em junho, a dívida líquida era de R$ 1 bilhão, ante caixa líquido de R$ 488 milhões no fim de 2025. A empresa atribui a variação à sazonalidade do capital de giro. Atribui a piora no trimestre ao resultado financeiro, negativo em R$ 201 milhões. As debêntures emitidas somavam R$ 2,15 bilhões em junho, com R$ 1,32 bilhão a vencer em 2028. A companhia não informou quando espera voltar a lucrar. Soares não dá projeções, mas afirma que a geração de caixa operacional vem melhorando. “Tem uma melhora significativa nesse filme de recuperação do caixa”, disse. A expectativa de ampliar o crédito é um dos efeitos imediatos apontados pela companhia. Segundo Fábio Medeiros, vice-presidente jurídico e de compliance, seguradoras e empresas que financiam fornecedores ou a própria varejista mantêm restrições a operações com companhias em recuperação judicial, mesmo quando apresentam bom desempenho. “Vamos ter agora mais acesso às linha de crédito do que vínhamos tendo até então”, afirmou. A venda de ativos seguirá sem pressa. A Uni.Co, dona das marcas Imaginarium e Puket, foi vendida à BandUP! por R$ 162 milhões; dez lojas da Hortifruti Natural da Terra (HNT) foram vendidas ao Oba Hortifruti. Restante da HNT continua à venda, mas a Americanas preferiu melhorar a operação da rede para tentar elevar seu valor. Depois de anos de cortes, a varejista está contratando 3 mil pessoas para lojas e centros de distribuição, para a Black Friday e o Natal. “Estamos num momento contrário do que estávamos lá atrás”, afirmou Soares, ao dizer que a empresa voltou a contratar em um momento de crescimento. A rede passou de 1.855 lojas, um mês após o pedido de recuperação, para 1.448 em junho, segundo dados da companhia, queda de cerca de 22%. Soares afirma que a empresa preferiu reinvestir nas unidades, em sortimento, tecnologia e equipes, a promover fechamentos em massa. Neste ano, a Americanas abre sua sétima loja. As inaugurações não são o principal motor de crescimento no curto prazo, diz o presidente. A aposta está no sortimento, nos serviços financeiros e nas compras digitais retiradas nas lojas. Soares destacou o papel dos funcionários na travessia da crise. “Tem quase 25 mil pessoas que deram o sangue pra essa companhia estar onde ela está hoje novamente”, disse. “É uma honra muito grande conduzir a companhia nessa transformação e ter passado essa etapa ainda com muita responsabilidade.” Para Medeiros, a decisão da 6ª Vara Federal Criminal do Rio, que na semana passada tornou réus 12 ex-executivos, entre eles o ex-CEO Miguel Gutierrez, “muda tudo”. Segundo ele, a juíza concluiu que há indícios objetivos e diretos da prática de crime por esses ex-diretores, “que a gente empresa apelida de bandidos”. A Americanas vai usar a decisão “de maneira categórica” nas arbitragens contra eles. Procurado pelo Valor na sexta-feira (16), Gutierrez disse, por meio de sua assessoria, que não se manifestaria. A defesa de José Timotheo de Barros afirmou na ocasião que o recebimento da denúncia é um ato formal, sem juízo de mérito. Para a consultora Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, o encerramento da recuperação judicial não significa que a Americanas tenha recuperado sua competitividade. Enquanto concorrentes como Mercado Livre, Magazine Luiza e plataformas asiáticas investiam, a varejista “estava concentrada em sobreviver”, afirmou. “O encerramento da recuperação judicial representa uma conquista financeira e jurídica. Mas o verdadeiro teste começa agora, na operação, na geração de caixa e na capacidade de competir sem destruir valor.” Para ela, a empresa não precisa voltar a ser a maior do setor, mas identificar os segmentos em que consegue se diferenciar e ganhar dinheiro. Fernando Soares Divulgação
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