Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) realizou movimentações bancárias incompatíveis com a renda declarada, segundo uma reportagem de O Globo publicada neste sábado (24). Os documentos integram uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre a ligação do parlamentar com o advogado Willer Tomaz num suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo transações com plataformas de “bets”. O Coaf afirma que o senador movimentou R$ 1,3 milhão entre janeiro e março de 2024, “montante relevante sem respaldo em informações sobre sua capacidade financeira”. Desse total, aproximadamente R$ 660 mil foram no crédito e R$ 649 mil no débitos. Segundo o órgão, vinculado ao Banco Central, Flávio Bolsonaro realizou, nesse período, operações com volume médio 7,19 vezes superior “ao esperado para a renda informada”. Os relatórios do Coaf não comprovam, por si só, a prática de crimes, mas podem servir de base para investigações sobre eventuais irregularidades. Segundo a investigação, o candidato à Presidência recebeu, em março de 2024, cerca de R$ 520 mil do escritório Gavioli e Viola Advogados Associados e destinou o montante à liquidação antecipada de um empréstimo imobiliário contratado em 2021 junto ao Banco de Brasília (BRB) para a compra de uma mansão de R$ 5,97 milhões na capital federal. “Há suspeitas no valor recebido, pois foi destinado à quitação antecipada de operação de crédito”, aponta o Coaf. O contrato previa a quitação do financiamento imobiliário em 30 anos, mas a dívida foi liquidada em aproximadamente três anos, via seis pagamentos extraordinários, que variaram de R$ 198 mil a R$ 997 mil. Uma das transações ocorreu em março de 2024 no valor de aproximadamente R$ 520 mil, correspondente aos recursos repassados pelo escritório Gavioli e Viola Advogados Associados. Segundo O Globo, os advogados responsáveis pelo escritório Gavioli e Viola atuaram em conjunto com Flávio Bolsonaro em dois processos no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em um deles, relativo a uma disputa societária entre empresas do setor gráfico, o parlamentar ingressou na equipe de defesa em junho de 2024. Dois meses depois, em agosto, a Quarta Turma do tribunal decidiu, por unanimidade, não admitir o recurso apresentado pelos advogados. O senador também atuou em conjunto com os advogados na defesa de um casal envolvido no caso conhecido como do Faraó dos Bitcoins, que envolve suspeitas de pirâmide financeira com investimentos em criptomoedas. Flávio consta como integrante da equipe de defesa do casal desde abril de 2025, quando um recurso foi apresentado ao STJ. Na ação, o parlamentar e integrantes do escritório Gavioli e Viola pediram o trancamento da ação penal, o que foi rejeitado pelo ministro relator do caso em maio daquele ano. Procurado por O Globo, o advogado Bruno Gavioli Lopes, sócio do escritório, disse que não iria se manifestar. Ele afirmou que não fala sobre processos em que atua, “menos ainda sobre as parcerias”. Ao solicitar o empréstimo imobiliário ao BRB, Flávio informou uma renda mensal de R$ 56,8 mil, composta pelo salário de parlamentar à época, rendimentos de uma franquia de chocolates e aplicações financeiras. Na ocasião, não declarou receitas provenientes da prestação de serviços advocatícios. Posteriormente, Flávio afirmou à Justiça que também atuava como advogado e que os recursos empregados na compra do imóvel tinham origem lícita. Segundo O Globo, os relatórios do Coaf estão entre os elementos analisados pela PF no inquérito que apura o suposto elo financeiro entre Flávio e Willer Tomaz. O advogado foi apontado pelo Ministério da Fazenda como o maior apostador do Brasil em 2025, com uma movimentação de cerca de R$ 5 bilhões em plataformas de apostas online. Os investigadores rastreiam a origem e o destino do dinheiro que circulou pelas contas bancárias do parlamentar. O inquérito teve origem em uma investigação conduzida pela PF no Rio Grande do Sul sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo plataformas de pagamento e empresas de apostas, entre elas a Blaze. A análise de documentos e dados obtidos durante as diligências revelou referências ao nome do senador, levando o caso a tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF). A PF reuniu registros de viagens internacionais de Flávio custeadas por empresas ligadas a Willer e documentos que identificam o parlamentar como “usuário master” de uma conta bancária “offshore” ligada ao advogado. Diante dessas suspeitas, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores de Willer, que nega qualquer irregularidade. Ao analisar os dados financeiros de Flávio, o Coaf também apontou movimentações atípicas realizadas em novembro de 2025. À época, uma conta bancária do parlamentar movimentou R$ 337,6 mil, sendo R$ 144,4 mil em operações de crédito e R$ 193,2 mil em débitos. O órgão classificou esse volume como um “montante financeiro habitualmente superior à capacidade econômica declarada”. Entre os créditos registrados na conta do parlamentar, está uma transferência proveniente de uma vaquinha online, que chamou a atenção do Coaf, de acordo com O Globo. Segundo o jornal, o documento do órgão, entretanto, não esclarece a finalidade da operação nem identifica a origem do dinheiro. “Esses recursos recebidos foram destinados, principalmente, ao pagamento de fatura de cartão de crédito, a outros pagamentos diversos e a limites incompatíveis com a renda declarada”, diz o relatório. Em novembro de 2025, no mesmo mês da movimentação atípica identificada pelo Coaf, Flávio foi responsável por criar uma vaquinha online para captar recursos destinados às famílias de quatro policiais mortos em uma operação no Rio de Janeiro. Segundo o site da arrecadação, as doações chegaram a R$ 1,2 milhão. Na ocasião, o senador usou suas redes sociais para divulgar a chave Pix da vaquinha e prometeu divulgar os comprovantes dos repasses. "Toda a arrecadação vai ser integralmente destinada às famílias destes policiais, com total transparência", disse o senador, em vídeo publicado na época. Procurado por O Globo, Flávio Bolsonaro não se manifestou. A PF reuniu registros de viagens internacionais de Flávio custeadas por empresas ligadas a Willer e documentos que identificam o parlamentar como “usuário master” de uma conta bancária “offshore” ligada ao advogado Reprodução Redes Sociais
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