O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou nesta manhã (4) que a derrota do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições legislativas americanas deve provocar uma "mudança de 180 graus" na relação entre Brasil e Estados Unidos. “Muda muita coisa. A tendência é uma mudança na relação Brasil e Estados Unidos”, afirmou em entrevista à rádio CBN. : As eleições de meio de mandato, conhecidas como "midterms", renovaram as cadeiras da Câmara dos Representantes e parte do Senado americano. O resultado apontou uma mudança no equilíbrio de forças do Congresso, que até então estava sob controle do Partido Republicano, de Trump. Com a vitória dos democratas nas duas Casas, o presidente americano deverá enfrentar uma oposição com maior poder de influência sobre a agenda legislativa nos próximos dois anos. Mais cedo, em uma série de publicações na rede social X, Guimarães classificou o resultado eleitoral como um “verdadeiro tsunami americano” e considerou a derrota de Trump uma vitória para o campo democrático. Na avaliação do ministro, o resultado também representa um avanço da mobilização progressista em diferentes países. Guimarães relacionou a vitória democrata ao cenário político brasileiro e afirmou que a oposição americana retomou o controle das duas Casas do Congresso, reduzindo a margem de atuação do presidente. Ele também criticou indiretamente a atuação da Meta na política brasileira durante o processo eleitoral deste ano. Segundo o ministro, o movimento de mobilização nas ruas e nas redes sociais que contribuiu para a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) serviu de inspiração para os eleitores americanos que votaram em candidatos do Partido Democrata. Ele defendeu ainda uma articulação internacional de forças progressistas. “Progressistas do mundo, uni-vos!”, escreveu. Interlocutores veem efeitos práticos com cautela Apesar do otimismo manifestado pelo ministro, a avaliação de integrantes do governo brasileiro consultados pelo Valor sobre os possíveis efeitos práticos da mudança no Congresso americano é mais cautelosa. Interlocutores do governo afirmam que a vitória democrata não necessariamente será suficiente para conter a política comercial de Trump, marcada pela imposição unilateral de tarifas. Segundo a análise, há preocupação de que o presidente americano reaja ao fortalecimento da oposição com novas medidas de confronto e procure outros instrumentos para manter ou ampliar as sobretaxas sobre produtos importados. Uma das avaliações ouvidas pelo Valor é que Trump tende a dobrar as apostas diante de reveses políticos e não deve abrir mão facilmente das tarifas, que também representam uma fonte de arrecadação para o governo americano. Embora os democratas tenham conquistado as maiorias na Câmara e no Senado com críticas ao impacto das tarifas sobre os preços para os consumidores americanos, a capacidade do Congresso de reverter as medidas é limitada. Isso porque boa parte das sobretaxas foi estabelecida por iniciativa da Casa Branca, que ainda dispõe de instrumentos para contornar eventuais iniciativas do Legislativo. A avaliação de interlocutores, como mostrou o Valor, é que, mesmo com a maior vulnerabilidade política de Trump, a política comercial americana poderá continuar sendo conduzida principalmente pelo Executivo. Há ainda o temor de que o presidente aproveite o período de transição até a posse do novo Congresso para anunciar novas medidas tarifárias. No caso brasileiro, as perspectivas de avanço nas negociações comerciais também permanecem incertas. As conversas entre os dois governos sobre as tarifas foram interrompidas antes da eleição presidencial brasileira, e não há, até o momento, um novo entendimento estabelecido para a retomada das tratativas. A expectativa do governo Lula é que a nova correlação de forças em Washington possa favorecer a revisão de parte das sobretaxas, embora a decisão final continue sujeita à atuação de Trump. Enquanto isso, o governo brasileiro tenta manter aberta a interlocução diplomática. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deve se reunir novamente com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, antes da cúpula do G20, prevista para dezembro. Conforme mostrou o Valor, a avaliação no Itamaraty, porém, é que será necessário algum tempo para dimensionar os efeitos da mudança política em Washington e identificar quais serão as prioridades do novo Congresso.
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