Com produção da Expomus, a mostra ‘OSGEMEOS: Nossos segredos’ atraiu mais de 1,3 milhão de visitantes Divulgação Exibida pelo Museu de Luxemburgo, em Paris, entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025 (e, na sequência, pelo Guggenheim de Bilbao, na Espanha), a mostra “Tarsila do Amaral - Pintando o Brasil moderno” reuniu mais de 130 obras da artista (1886-1973). Por exigência da seguradora, elas foram divididas em três voos saídos do Brasil - na hipótese de um avião cair, dois terços do conjunto, pelo menos, estariam a salvo. O seguro contratado previa uma indenização de mais € 470 milhões, o equivalente, na época, a aproximadamente R$ 3 bilhões. No Brasil, toda a logística de transporte, com direito a escolta armada nos deslocamentos em solo, ficou a cargo da ArtQuality. “O serviço exige outras particularidades como caminhão climatizado e com suspensão a ar, além de caixas com revestimento interno para impedir que as obras trepidem”, diz Diogo Mantovani, CEO da Clé Chenue do Brasil, empresa que surgiu em abril a partir da fusão da ArtQuality com a Clé Reserva Contemporânea. A Clé Chenue é uma das muitas companhias que atuam nos bastidores do circuito de artes plásticas, um grupo que inclui nomes como Expomus, que produz exposições, e Somar, que faz molduras e montagens de exposições. Os maiores museus do Brasil são nossos clientes” A outra empresa que formou a Clé Chenue, a Clé Reserva Contemporânea, criada em 2014, dispunha de um galpão de 5.500 m2 destinado a abrigar obras de arte de museus, galerias e colecionadores. Trata-se de uma reserva técnica cuja localização é mantida em sigilo por segurança, sobretudo depois do roubo no Louvre, em 2025, de um conjunto de joias da Coroa Francesa avaliado em US$ 100 milhões e do assalto na Biblioteca Mário de Andrade, no mesmo ano, de 8 gravuras de Henri Matisse (1869-1954), que foram recuperadas, e de cinco de Candido Portinari (1903-1962). Agora sob o comando da Clé Chenue do Brasil, o galpão que era da Clé Reserva Contemporânea dispõe de segurança armada, ambientes compartimentados por paredes e portas corta-fogo, sistema automatizado de climatização, com controle de temperatura e umidade, além de tecnologia que garante a filtragem de poluentes, entre outras vantagens. O espaço é dividido em salas privativas de 25 a 600 m2. Elas são geridas, da porta para dentro, pelos próprios locatários, o que explica a Clé Chenue do Brasil não ter controle sobre os itens armazenados no espaço, nem mesmo sobre o número total de peças que acondiciona. Com 6 metros de pé-direito, a área compartilhada é voltada para obras de arte de grande formato. No portfólio da Somar constam mostras como ‘Catherine Opie: O gênero do retrato’, exibida pelo Masp em 2024 Divulgação Essa reserva técnica já atingiu seu limite de capacidade, o que motivou a inauguração, em maio, de uma segunda. Ao custo de R$ 17 milhões, o novo endereço se espalha por 2.000 m2 e tem particularidades como um espaço de coworking, para facilitar o trabalho dos profissionais envolvidos na gestão dos acervos armazenados, e área própria para registros fotográficos das obras, laudos técnicos e conservação preventiva. “O novo espaço favorece a troca de experiências entre as pessoas que atuam nesse meio”, afirma Mantovani, referindo-se a museólogos e colecionadores, entre outros. Uma sala é reservada para a apresentação de itens para curadores, seguradoras e potenciais compradores. O novo galpão segue os padrões do antigo. Herméticas e com isolamento térmico, as salas são mantidas entre 18°C e 22°C e com umidade relativa que varia de 45% a 55%. A umidade, afinal, assim como a iluminação excessiva e a oscilação de temperatura, é uma grande inimiga da conservação de obras de arte. É por isso que o ar refrigerado que as cercam é desumidificado - não à toa, as tubulações de água foram instaladas do lado de fora das salas de armazenamento. Geradores garantem que tudo funcione em caso de falta de eletricidade. E o serviço oferecido, que pode envolver desde uma única obra de arte até coleções inteiras, custa a partir de R$ 500 por mês. Corpo a Corpo’, de Sofia Borges, no Instituto Moreira Salles de São Paulo em 2017 Divulgação A Clé Chenue do Brasil aposta em uma tendência crescente: a terceirização do armazenamento da parcela dos acervos dos museus que não está em exibição. “Por muito tempo, eles foram reticentes em aderir à ideia”, lembra o CEO da companhia. “O grande problema é que as reservas técnicas dos museus, com o tempo, costumam ficar precárias ou insuficientes para acomodar tudo que precisa ser guardado, já que as coleções tendem a crescer”. Tome como exemplo o Masp, cujo acervo é composto por mais de 11 mil obras. É um tesouro bilionário do qual o museu só consegue exibir 2% ao mesmo tempo. E isso já levando em conta o prédio Pietro Maria Bardi, inaugurado em março do ano passado - com 14 andares, a extensão aumentou a capacidade expositiva da instituição em 66%. “O novo prédio tem só uma pequena reserva técnica porque o museu concluiu que vale mais a pena destinar suas instalações para outros fins que não a guarda de obras de arte”, afirma Mantovani. Fechado em 2023 e reaberto em junho passado em São José dos Campos, o Museu da Casa Brasileira (MCB), antes na Faria Lima, também faz uso dos galpões da Clé Chenue do Brasil. “Os maiores museus do Brasil são nossos clientes”, diz Mantovani, que não revela o nome de nenhum deles. “As receitas daqueles que transformaram reservas técnicas em restaurantes ou lojas, por exemplo, aumentaram até 40%”. Ele acredita que as instituições do gênero que não aderiram à terceirização vão mudar de ideia uma hora ou outra. É uma das principais explicações para o salto de faturamento de 80% que a empresa espera dar nos próximos 5 anos - atualmente, são R$ 25 milhões por ano. Dados do Icom (Conselho Internacional de Museus) sugerem que 63% das instituições do tipo na América Latina sequer projetaram um espaço para abrigar seus acervos. A galeria dedicada à fotógrafa Claudia Andujar no Instituto Inhotim foi inaugurada em 2015 Divulgação O otimismo também se deve à procura crescente de galerias e colecionadores e ao fato de que o mercado de artes plásticas voltou a crescer globalmente no ano passado. De acordo com o décimo relatório sobre o tema produzido pela Art Basel em parceria com o banco UBS, as vendas totais de obras de arte totalizaram US$ 59,6 bilhões em 2025, o que representa um salto de 4% em relação ao ano anterior. Foi menos do que os US$ 68,1 bilhões amealhados em 2022, mas interrompeu-se a retração registrada nos dois anos seguintes. O setor de galerias cresceu, com as vendas globais subindo 2%, para US$ 34,8 bilhões. As feiras de arte passaram a representar 35% do faturamento das galerias, contra 31% em 2024. De acordo com outro relatório, também assinado pela Art Basel e pelo UBS, o Brasil concentra 23% dos novos colecionadores (nesse ranking, o país só ficou atrás dos Estados Unidos), sendo que 72% deles manifestaram a intenção de ampliar seus acervos. A terceirização da guarda de obras de artes ganhou o noticiário, negativamente, em 2021. Em março daquele ano, o galpão do grupo Alke no qual a galeria Nara Roesler armazenava cerca de 2 mil obras pegou fogo. O incêndio foi provocado, supostamente, por um curto circuito elétrico. “Minha ‘aposentadoria’ estava naquele galpão”, disse a marchand ao Valor em 2023. Ela contou que a seguradora cobriu um terço do prejuízo, cujo valor total não foi revelado, e que a maior parte do dinheiro foi repassada para os artistas cujas obras viraram cinzas. O episódio, segundo Mantovani, elevou o padrão das empresas que prestam esse tipo de serviço no Brasil. “No primeiro momento, motivou uma série de inspeções das seguradoras”, lembra. “Foi uma loucura, mas que impôs um ‘flight to quality’ para um segmento que não aceita improviso.” Na ativa desde 2012, o Grupo Alke também oferece serviço de transporte, montagem e instalação de obras de arte, além de produzir embalagens sob medida para deslocamentos. A companhia dispõe de galpões para armazenamento em São Paulo e em Miami. Ex-coordenadora técnica da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, Maria Ignez Mantovani fundou a Expomus em 1981 Divulgação A ArtQuality foi fundada em 2007. Em 2015, a companhia passou para o controle da francesa Chenue, que remonta a 1760. André Chenue, o fundador, atuava exclusivamente como “layetier” da realeza. Trata-se de um artesão especializado em confeccionar caixas e baús. Estava a serviço de Maria Antonieta (1755-1793), cujo enxoval ele tinha a obrigação de embalar. Depois foi encarregado de todo o enxoval da família real. De lá para cá, a Chenue se converteu em uma empresa especializada em soluções logísticas para o mercado de artes plásticas. Ela dispõe de três galpões de armazenamento na França (utilizados por museus como Louvre e d’Orsay) e presta serviços de transporte, acondicionamento apropriado para deslocamentos e montagem, entre outros. Desde 1995, a Chenue é parte da Horus Finance, gestora de investimentos privada que atua em ramos diversos, de biotecnologia ao transporte de obras de arte. Em setembro, a holding adquiriu a Momart, referência na Inglaterra em matéria de logística para o setor de artes plásticas. Em julho, o grupo comprou a italiana Arterìa, que oferece os mesmos serviços. Outra empresa no portfólio é a suíça Moviiu, que permite o transporte global de obras de arte por meio de empresas como DHL Express e FedEx. Inaugurada em 2020, ela fornece embalagens apropriadas para o envio de artigos do tipo com direito a seguro atrelado a indenizações de até €100 mil. Ex-coordenadora técnica da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo (atual Secretaria Estadual da Cultura, Economia e Indústria Criativas), Maria Ignez Mantovani fundou a Expomus em 1981. A empresa equilibra-se em três campos de atuação. Um deles é a produção de exposições em parceria com museus brasileiros e do exterior. “Parte delas são fruto de ideias nossas, mas também há quem nos procure para tirar uma mostra do papel”, explica ela, tia e madrinha do CEO da Clé Chenue do Brasil. A lista de exposições costuradas pela Expomus é extensa. “Paul Klee - Equilíbrio instável”, de 2019, exibida no CCBB de São Paulo e nas unidades no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, foi uma delas. “OSGEMEOS: Nossos segredos” foi exposta em duas filiais do mesmo centro cultural, a carioca e a mineira, entre 2022 e 2023. Ao todo, a mostra atraiu mais de 1,3 milhão de visitantes. Mais um exemplo: “O Brasil de Portinari”, em cartaz no Museu Nacional da China, em Pequim, até 11 de outubro deste ano. Outro campo de atuação envolve o desenvolvimento de planos museológicos, a concepção e a implantação de novos museus, centros culturais e espaços de memória e a reestruturação de instituições que já existem. A empresa foi uma das responsáveis, por exemplo, pela requalificação do Sítio Roberto Burle Marx, na zona oeste carioca. A propriedade, na qual o paisagista (1909-1994) morou nos últimos 20 anos de vida, está aberta ao público desde 2021. Diogo Mantovani, CEO da Clé Chenue do Brasil, empresa que surgiu em abril Divulgação No caso do Sesi Lab, em Brasília, a Expomus foi encarregada da conceituação à implantação em parceria com um museu de São Francisco, nos Estados Unidos, o Exploratorium. Inaugurada em 2022, a novidade na Capital Federal conecta arte, ciência e tecnologia. Por fim, a Expomus presta serviços de catalogação e gerenciamento, entre outros, para coleções de arte públicas e privadas. “Nossa proximidade com as instituições culturais é muito grande”, afirma a fundadora. “Na pandemia, o Danilo Santos de Miranda diretor do Sesc São Paulo até 2023, quando morreu quis saber como a Expomus estava se virando e disse o seguinte: ‘sua empresa não é só uma empresa, é uma instituição’”. Durante a produção da mostra “Impressionismo: Paris e a modernidade - Obras-primas do Museu d’Orsay”, exibida pelo CCBB de São Paulo e pela unidade carioca entre 2012 e 2013, Maria Ignez foi abordada pela Chenue, da qual era cliente. A empresa francesa estava interessada em atuar no Brasil. Conversa vai, conversa vem, nasceu a Clé Reserva Contemporânea, fundada por Maria Ignez com investimento da Chenue. Inaugurada em 2015, a galeria dedicada à fotógrafa Claudia Andujar no Instituto Inhotim, em Brumadinho, marca o início de outra empresa que atua nos bastidores do circuito das artes plásticas. Trata-se da Somar, responsável pela instalação das molduras das obras selecionadas para esse espaço e pela montagem delas. A Expomus foi uma das responsáveis pela requalificação do Sítio Roberto Burle Marx, na zona oeste carioca Divulgação Fundada por Ricardo Custódio e Rebeca Novaes, a companhia se especializou nessas duas áreas, mas não parou por aí. Também produz molduras e obras de arte sob encomenda de artistas como Daniel Buren e Marco Castillo. Muitos deles, sobretudo os que trabalham com esculturas e objetos, terceirizam a confecção das peças. No portfólio da Somar constam mostras como “Catherine Opie: O gênero do retrato”, exibida pelo Masp em 2024, e “Corpo a Corpo”, de Sofia Borges, em cartaz na sede paulistana do Instituto Moreira Salles (IMS) em 2017. “Somos conhecidos pelo cuidado técnico e estético”, diz Novaes. “No caso das molduras, ajudamos a definir qual é a opção mais coerente para cada obra”. É mais uma camada invisível desse meio.
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