Deve ter voto útil no segundo turno? Cientistas políticos respondem

O chamado voto útil, defendido pelas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para atrair eleitores de outros candidatos no primeiro turno, divide cientistas políticos quanto à sua aplicação na segunda etapa da eleição presidencial. Especialistas ouvidos pelo Valor divergem sobre a utilização do conceito quando há apenas dois concorrentes, mas concordam que a rejeição ao adversário e a escolha do candidato considerado o "menos pior" tendem a ganhar importância na disputa marcada para domingo (25). Conceito no segundo turno divide especialistas Para o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, não faz sentido falar em voto útil no segundo turno em sua definição clássica. Ele explica que o conceito pressupõe a existência de várias candidaturas e a decisão de abandonar uma opção com poucas chances de vitória para apoiar outra mais competitiva. "Em sentido estrito, a gente não usa o termo para voto útil no segundo turno", afirma. Segundo Prando, quando restam apenas dois candidatos, a preocupação do eleitor passa a ser não desperdiçar a oportunidade de impedir a vitória daquele que mais rejeita. "Então a disputa deixa de ser sobre o voto útil e passa a ser sobre o voto que não pode se desperdiçar", diz. Na avaliação do professor, esse comportamento é especialmente relevante entre os eleitores que não se identificam com nenhum dos finalistas e consideram votar em branco, anular o voto ou se abster. Prando aponta que a rejeição se tornou um componente central da política brasileira, fenômeno conhecido como "partidarismo negativo". Nesse cenário, parte dos eleitores sabe com mais clareza em quem não votaria do que qual candidato gostaria de eleger. Para o cientista político, o antipetismo e o antibolsonarismo passaram a funcionar como identidades políticas tão importantes quanto o próprio petismo e o bolsonarismo. "Nos núcleos duros, prevalece essa identificação. E já na margem, que decide, prevaleceria uma parte substantiva de rejeição", afirma. O professor observa que o primeiro turno permite escolhas por afinidade, protesto ou identificação com propostas específicas. No segundo, a decisão se torna comparativa, com maior peso para a confiança nos candidatos e para os riscos associados à vitória de cada um. Essa mudança também altera as estratégias das campanhas, que passam a disputar principalmente eleitores indecisos e de candidaturas derrotadas. Para quem não se identifica com Lula nem com Flávio, Prando avalia que a escolha tende a ser orientada pela redução de possíveis prejuízos. "O menos pior não é um voto entusiasmado, mas ele pode ser decisivo", afirma. Segundo o cientista político, o apoio de candidatos derrotados também não garante a transferência de seus votos. Ele considera que a rejeição ao adversário tende a ter maior influência sobre a escolha desses eleitores, seguida da afinidade ideológica e, por último, da avaliação das propostas. Na reta final, Prando acredita que a capacidade de reduzir a própria rejeição e mobilizar eleitores para comparecer às urnas pode definir o vencedor. Ele chama atenção especialmente para a abstenção, que considera potencialmente mais prejudicial a Lula em razão das dificuldades de comparecimento de segmentos do eleitorado nos quais o petista tem maior apoio. Voto estratégico e eleitores indecisos O cientista político Beto Vasques, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor do Instituto Democracia em Xeque, adota uma interpretação diferente. Para ele, o voto útil, também chamado de estratégico ou racional, é característico do segundo turno, quando o eleitor precisa escolher entre os dois candidatos restantes. "Historicamente o voto útil ou como alguns definem voto estratégico, outros voto racional ou o voto no menos pior, é tipicamente algo de segundo turno. O segundo turno inclusive existe para poder facilitar isso", afirma. Vasques ressalta, porém, que a política brasileira tem apresentado uma antecipação dessa dinâmica para o primeiro turno. Segundo ele, nas últimas eleições, candidatos menos competitivos passaram a perder apoio nas semanas anteriores à votação, à medida que eleitores buscavam impedir a vitória de seus adversários mais rejeitados. Na avaliação do professor, esse movimento ocorreu de maneira ainda mais intensa neste ano, com a concentração das intenções de voto em Lula e Flávio desde o início do ano eleitoral. O cientista político considera que a disputa deixou pouco espaço para uma candidatura alternativa, embora Augusto Cury (Avante) tenha apresentado um crescimento temporário nas pesquisas. "Este ano a gente teve uma coisa inédita. A gente teve uma antecipação radical da dinâmica de voto útil para o início do ano eleitoral", afirma. Apesar dessa antecipação, Vasques considera que o segundo turno ainda pode provocar mudanças no comportamento dos eleitores. Ele destaca o aumento dos indecisos na pesquisa espontânea da Quaest, de 7% para 14%, movimento que considera incomum às vésperas de uma eleição. Em sua avaliação, a oscilação pode indicar que parte dos eleitores anteriormente decididos voltou a considerar as alternativas disponíveis. Vasques identifica diferentes perfis entre os eleitores que ainda podem mudar de posição. Há aqueles que oscilam diretamente entre Lula e Flávio e outros que alternam a preferência por um candidato com a possibilidade de votar em branco, anular o voto ou não comparecer às urnas. Segundo ele, esses grupos podem ser influenciados pelo noticiário, pelo desempenho nos debates e pela mobilização das campanhas. O cientista político também considera que a escolha pelo candidato menos rejeitado combina elementos racionais e emocionais. Na sua avaliação, o eleitor pode comparar os riscos associados a cada candidatura, mas também ser influenciado pelo sentimento despertado pelas campanhas. "A guerra de rejeições vai ser o elemento decisivo", afirma. Para Vasques, a reta final será marcada por um equilíbrio entre a avaliação racional dos candidatos e a capacidade de mobilização emocional de Lula e Flávio. Rejeição tende a prevalecer A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), concorda com Prando ao considerar inadequada a aplicação do conceito clássico de voto útil ao segundo turno. Para ela, a expressão só faz sentido quando o eleitor pode abandonar uma candidatura menos competitiva para apoiar outra com maiores possibilidades de vitória. "Ao meu ver, não faz sentido prático nem teórico falar em voto útil no segundo turno de uma eleição presidencial", afirma. Maria do Socorro explica que, diante de apenas dois candidatos, o eleitor tem três possibilidades principais: votar no finalista de sua preferência, escolher aquele que considera menos prejudicial ou optar pelo voto branco, nulo ou pela abstenção. Na avaliação da professora, a segunda possibilidade representa uma decisão pragmática, mas não configura voto útil em sentido estrito. Para a professora, o segundo turno também modifica os critérios utilizados pelos eleitores. Enquanto a primeira etapa permite maior dispersão de preferências e afirmação de identidades políticas, a segunda impõe uma escolha mais restrita, na qual a rejeição tende a ganhar importância. "No segundo turno de eleições presidenciais, o voto por rejeição, que é o voto de oposição, o menos pior, tende a prevalecer sobre o voto por identificação pura", afirma. Maria do Socorro avalia que os eleitores dos candidatos derrotados, que chama de "órfãos do primeiro turno", tornam-se um dos principais grupos disputados pelas campanhas. Segundo ela, esses votos podem migrar por proximidade ideológica, por rejeição ao adversário ou por uma avaliação pragmática sobre qual dos finalistas representa a alternativa menos desfavorável. A cientista política estabelece uma ordem de fatores que, em sua avaliação, tende a orientar essa transferência: primeiro, a rejeição ao adversário; depois, a afinidade ideológica e a identificação política; por último, os apoios e as alianças estabelecidos entre as candidaturas. Na disputa entre Lula e Flávio, a professora da UFSCar considera que a polarização reforça esse comportamento, uma vez que os dois representam campos políticos consolidados e com elevados índices de rejeição. Para ela, embora ainda exista espaço para a apresentação de propostas, a tentativa de impedir a vitória do adversário tende a ser a principal motivação entre os eleitores que ainda não decidiram seu voto.

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