Mercado de capitais amplia caminhos para financiar empresas e apoiar geração de empregos

Empresas de menor porte começam a ganhar espaço no mercado de capitais como tomadoras de recursos em um movimento que amplia as alternativas ao crédito bancário, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Um dos sinais dessa maior capilaridade aparece nas notas comerciais: o número de operações cresceu 31% nos oito primeiros meses de 2026, indo para 161, ante 123 em igual período do ano passado. O volume captado passou de R$ 35,5 bilhões para R$ 33,7 bilhões. Com mais operações distribuídas por um volume financeiro ligeiramente menor, o valor médio por operação caiu 27%, de cerca de R$ 289 milhões para R$ 209 milhões. O movimento sinaliza maior capilaridade das notas comerciais, com espaço para captações de menor escala e, consequentemente, para um universo mais amplo de empresas. As notas comerciais são títulos de dívida emitidos pelas próprias companhias para captar recursos diretamente com investidores e podem financiar necessidades como capital de giro e expansão. A aproximação de negócios menores desse mercado ganha relevância pelo peso que eles têm na geração de emprego e renda: pequenas e médias empresas (PMEs) concentram 65% dos postos formais no Brasil, com participação ainda maior em setores como serviços e comércio (79,5%) e indústria (72,9%). “Estamos diante de uma mudança importante na forma como as empresas acessam recursos. O mercado de capitais passou a oferecer instrumentos adequados a diferentes perfis de empreendedores”, afirma Erika Lacreta, gerente de Mercado de Capitais da Anbima. “Quando falamos das pequenas e médias empresas, elas alcançam 26,1 milhões de trabalhadores.” A busca por maior acesso das PMEs ocorre em meio à expansão do próprio mercado de capitais como fonte de recursos para as empresas. Entre janeiro e agosto, as captações somaram R$ 486,2 bilhões, alta de 7,3% sobre o mesmo período de 2025 e segundo maior resultado da série histórica para o intervalo. Foram 2.014 operações, crescimento de 11%, com R$ 384,6 bilhões concentrados em instrumentos de renda fixa, segundo a Anbima. De acordo com a associação, o crescimento dos volumes, porém, não significa que o acesso a esse mercado tenha avançado na mesma proporção entre empresas de diferentes portes. Para as menores, custos e complexidade das operações ainda funcionam como barreiras à captação direta com investidores, historicamente mais acessível às grandes companhias. Ampliar esse acesso é uma das frentes da Agenda para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro, lançada pela Anbima em julho deste ano. O documento reúne posicionamentos para aumentar a participação desse mercado no financiamento da economia real. No caso das pequenas e médias empresas, destaca a importância de ampliar a base de companhias financiadas, oferecer instrumentos adequados às suas necessidades e buscar equilíbrio entre maior transparência e custos de observância que não dificultem suas captações. Novas portas de entrada Parte desse movimento já aparece em mudanças regulatórias e no crescimento de instrumentos capazes de atender empresas com diferentes necessidades de financiamento. Uma das iniciativas mais recentes é o Regime Fácil, criado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para simplificar o acesso ao mercado de capitais de companhias com faturamento bruto anual inferior a R$ 500 milhões. O modelo estabelece exigências proporcionais ao porte dessas empresas e reduz etapas e custos associados às ofertas. Os primeiros números ainda refletem poucos meses de funcionamento. Desde a entrada em vigor, em 16 de março, sete emissões de dívida corporativa foram realizadas até agosto pelo novo programa, com captação conjunta de R$ 179 milhões. Mas o acesso das empresas ao mercado de capitais não se limita às emissões diretas. Outros instrumentos também oferecem alternativas de financiamento, entre eles os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Esses fundos compram recebíveis e outros direitos creditórios, transformando valores que as companhias teriam a receber no futuro em recursos disponíveis no presente. No fim de 2025, 2.913 empresas eram financiadas por esses veículos. O avanço continuou neste ano. Entre janeiro e agosto, dados da Anbima apontam que as operações com FIDCs movimentaram R$ 74,3 bilhões, 41% acima dos R$ 52,7 bilhões registrados no mesmo período de 2025. A quantidade de operações também cresceu, de 678 para 769, alta de 13,4%. As alternativas mudam conforme o estágio e a necessidade de cada negócio. Enquanto os FIDCs permitem antecipar recebíveis, os Fundos de Investimento em Participações (FIPs) aportam recursos diretamente no capital das companhias e podem financiar empresas em processo de crescimento, inclusive por meio de estratégias de venture capital. As empresas investidas por esses fundos estão em segmentos como varejo, construção, indústria digital, bens de capital, energia e serviços profissionais. Para negócios menores, o crowdfunding de investimento representa outra porta de entrada. O mecanismo permite captações de até R$ 40 milhões por meio de plataformas regulamentadas pela CVM e integra o conjunto de medidas voltadas a estimular o financiamento das pequenas e médias empresas. A diversidade de instrumentos amplia também as possibilidades de uso dos recursos. O dinheiro captado pode financiar capital de giro, compra de equipamentos, aumento da capacidade produtiva, abertura de unidades ou novos projetos. É nessa etapa que a expansão do mercado de capitais se conecta à geração de emprego e renda: o efeito sobre as contratações depende de o financiamento se transformar em investimento e crescimento da atividade das empresas. Para Lacreta, o próximo passo é fazer com que o crescimento do mercado de capitais seja acompanhado pela ampliação da base de empresas que conseguem acessá-lo. “Para isso, esse mercado precisará continuar contribuindo como fonte complementar de crédito, com alternativas adequadas às necessidades e características dos tomadores e às expectativas dos investidores. Para as pequenas e médias empresas, ampliar as opções de financiamento pode criar condições para investir, aumentar a produção e gerar mais empregos”, diz.

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