Em depoimento à Polícia Federal (PF), no dia 15 de outubro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa afirmou que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), pediu, em 2024, que ele estruturasse uma operação de venda do banco distrital ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Segundo o ex-presidente do BRB, o pedido foi feito durante um jantar na residência de Vorcaro, no dia 24 setembro daquele ano, do qual também participaram Ibaneis e outras quatro pessoas. Costa afirmou que ficou surpreso com a solicitação, uma vez que, até então, havia defendido a manutenção do controle do banco público pelo governo do Distrito Federal. “O governador falou: ‘Paulo, eu queria te apresentar o Daniel’. Eu falo: ‘Não, governador, eu já conheço o Daniel, a gente faz algumas cessões de crédito, conheci em julho e tal’. Mas ele diz: ‘Paulo, estruture uma venda do BRB para o Master’. Essa é uma parte que nunca apareceu na investigação, até onde eu vi. Eu fico assim meio surpreso. Para falar a verdade, surpreso”, relatou Costa. O ex-presidente disse que não esperava receber a determinação e que, inicialmente, não considerou adequado discutir a proposta naquele encontro. “A gente tinha sempre defendido não fazer de jeito nenhum”, afirmou à PF. Segundo Costa, ele também questionou o fato de Vorcaro não ter antecipado que o assunto seria tratado com o governador. “Poxa, eu estou fazendo cessão de crédito com Daniel, como é que ele marca uma reunião com o governador e não me avisa?”, relatou. O ex-presidente relatou ter enviado na manhã seguinte, às 7h30, mensagens a Ibaneis e a Vorcaro. Ao governador, teria informado que daria andamento ao pedido, mas que gostaria de discutir alguns pontos da operação. “Estou dando andamento à operação que o senhor me pediu — ‘pediu’ é uma forma delicada de dizer —, mas tem aspectos que eu queria discutir”, afirmou ter escrito. Costa explicou à PF que sua principal preocupação era com o que chamou de uma “privatização às avessas” do BRB — que depois foi corrigido pelo advogado por “privatização disfarçada”. Segundo ele, a proposta envolvia a venda da participação do Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev-DF), que detinha cerca de 16,5% das ações do banco naquele momento. O ex-presidente afirmou que havia participado da transformação do banco e não queria que a operação comprometesse o trabalho realizado. “A gente tinha feito todo um trabalho de transformação do banco. O banco já era competitivo naquele momento. A gente tinha saído de 650 mil clientes, 700 mil clientes para 9 milhões de clientes.” Ele também afirmou que havia defendido anteriormente a manutenção do controle do BRB pelo governo distrital. Ao ser questionado se era contrário à venda, respondeu que, naquele primeiro momento, havia sido surpreendido pela proposta. “Eu fui pego de surpresa, mas de surpresa já de maneira contrária.” De acordo com Costa, em uma conversa posterior no gabinete do governador, Ibaneis argumentou que a operação era uma decisão do acionista, e não da administração do BRB. O ex-presidente explicou que, na prática, o BRB seria contratado para estruturar a operação, mas não teria poder para decidir sobre a venda das ações. “O BRB não faz nada concretamente nisso. O que ele tinha pedido foi: ‘estruture. Estruture, chame o Iprev, converse, veja, faça modelos de documento e tal’. O DF tinha que contratar o BRB, inclusive, depois, formalmente, como assessor estruturador da operação, do mesmo jeito que a gente contratava outros bancos quando as operações eram do BRB, ... mas contratar a gente como prestador de serviço para estruturar outra operação, não é para dizer sim ou não”, afirmou à PF. O depoimento também aborda o convite feito posteriormente por Vorcaro, próximo do dia 24 de outubro de 2024, para que Costa assumisse a presidência de uma nova holding financeira que seria formada em torno do Master e do BRB. Segundo ele, antes de responder, consultou Ibaneis, pois entendia que tinha um compromisso com o banco público. “Na minha cabeça, eu tinha também um compromisso de ficar até o fim, de cumprir com as metas que tinham sido estabelecidas. Eu sairia antes.” Procuradas pelo Valor, as defesas de Paulo Henrique Costa e Ibaneis Rocha ainda não se manifestaram.
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