Após 2 anos, liquidantes da China Evergrande recuperaram menos de 1% dos US$ 46 bi da dívida

Os liquidantes da China Evergrande informaram, na quinta-feira, que realizarão um pagamento inicial aos credores no primeiro semestre de 2027, sob a forma de dividendos. O anúncio representa um marco importante para a incorporadora imobiliária mais endividada do mundo. Um relatório de progresso apresentado pelos liquidantes conjuntos da Evergrande indicou que cerca de US$ 436 milhões foram recuperados ao longo de mais de dois anos de trabalho — um montante que equivale a menos de 1% dos US$ 46 bilhões em dívidas totais reivindicadas contra a empresa, que se encontra em processo de liquidação. Do total recuperado, apenas US$ 11,6 milhões vieram de ativos detidos diretamente pela própria Evergrande; o restante provém de suas subsidiárias. O anúncio marca um passo significativo para os credores da Evergrande, que aguardam pagamentos desde que a empresa entrou em default (inadimplência) em sua dívida offshore em 2021. Ainda assim, a ínfima taxa de recuperação evidencia o enorme desafio que os liquidantes enfrentam ao examinar a complexa estrutura corporativa da companhia, tanto na China quanto no exterior. O processo também confirmou o receio dos investidores de que os detentores de dívidas offshore de empresas chinesas estejam, estruturalmente, em uma posição subordinada em relação aos credores locais (onshore). Os liquidantes reconheceram que as perspectivas de recuperação a partir dos ativos da Evergrande na China continental — mantidos por meio de subsidiárias locais e que compõem uma parcela significativa de seus ativos totais — são "remotas". Mais de 650 das 3 mil entidades da Evergrande na China entraram em processos de falência, enquanto a principal unidade local, a Hengda Real Estate, foi multada em pelo menos 4,1 bilhões de yuans (US$ 610 milhões) por órgãos reguladores chineses devido a fraudes financeiras. A equipe acrescentou que o acesso aos sistemas contábeis chineses foi interrompido após a entrada da Evergrande em liquidação, no início de 2024, o que torna o desafio ainda maior. Os liquidantes informaram que pretendem contestar um acordo privado de 1 bilhão de dólares de Hong Kong (US$ 130 milhões) firmado entre o órgão regulador de valores mobiliários de Hong Kong e a PricewaterhouseCoopers, antiga empresa de auditoria da Evergrande. Eles buscam uma indenização de US$ 8,5 bilhões junto às unidades da companhia em Hong Kong e na China. Além do pagamento do acordo, a PwC foi multada em 310 milhões de dólares de Hong Kong pela Comissão de Valores Mobiliários e Futuros (Securities and Futures Commission), enquanto dois de seus ex-sócios sofreram sanções. O relatório dos liquidantes também apontou uma doação acadêmica. Segundo o documento, a Evergrande realizou pagamentos que totalizaram cerca de 1,2 bilhão de dólares de Hong Kong a uma universidade dos Estados Unidos — em parte para a criação de um centro de pesquisa —, sem uma justificativa comercial clara. Uma reportagem do jornal britânico “Financial Times” identificou a instituição como a Universidade Harvard e informou que a Evergrande fez a doação para financiar pesquisas sobre a covid-19 na época. Além disso, os liquidantes questionaram a justificativa da Evergrande para a formação de uma coleção de arte, com um custo total de 170 milhões de dólares, acumulada em apenas 18 meses a partir de março de 2016. As aquisições incluíam obras de Pablo Picasso, Claude Monet e Andy Warhol. "Das 110 obras de arte que compõem a coleção, 95 foram adquiridas de um único negociante em Hong Kong", afirmaram. "Não está claro por que o grupo adquiriu uma coleção de arte de tal valor e dimensão, algo que não fazia parte do curso normal de seus negócios." Das 107 obras de arte que entraram em posse dos liquidantes, 96 já foram vendidas, gerando um montante líquido de cerca de 28,8 milhões de dólares. Segundo eles, isso representa um prejuízo em relação ao custo de aquisição das obras. Os liquidantes também avançaram no processo de alienação do jato particular da Evergrande, informando que um acordo foi firmado com um novo comprador para a aeronave Airbus A319. O avião encontra-se parado em Guangzhou e não possui condições de aeronavegabilidade desde 2023.

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