Moradores que enfrentavam a fome em uma cidade ocupada pela Rússia no sul da Ucrânia começaram a ser retirados nesta sexta-feira (30) como parte de uma operação conjunta de ajuda humanitária conduzida pelos dois lados do conflito, a primeira desse tipo em quatro anos e oito meses de guerra. Leia também: Rússia e Ucrânia iniciam cessar-fogo em Oleshky, mas continuam ataques em outras regiões Primeiro navio com diesel russo após acordo entre Putin e Trump segue para os EUA, diz agência Sob um cessar-fogo local negociado pela primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, um comboio de ajuda humanitária chegou à cidade de Oleshky, e os moradores receberam a oportunidade de deixar o local. Embora tenha sido um exemplo marcante de cooperação entre os lados em guerra, o Kremlin descreveu a operação como um caso especial, "difícil de extrapolar" para a busca mais ampla de um acordo de paz. Os ataques continuaram em outras regiões. Bombardeios russos durante a noite atingiram sete regiões da Ucrânia, além da capital, Kiev, e da cidade de Dnipro, no sudeste do país, segundo autoridades. A Rússia afirmou ter derrubado 1.043 drones ucranianos sobre suas regiões durante a noite. Na quinta-feira, um drone russo matou pelo menos 15 pessoas em uma plataforma ferroviária na cidade ucraniana de Dnipro. Em Oleshky, a comissária russa de direitos humanos, Yana Lantratova, afirmou que grupos de moradores estavam embarcando em ônibus para deixar a cidade — alguns desejavam seguir para a Rússia, enquanto outros queriam ir para a Ucrânia. Manifestantes seguram cartazes durante um protesto pela criação de um corredor humanitário para retirar civis ucranianos da cidade de Oleshky Reuters/Alina Smutko Estrada para Oleshky é desminada Não estava claro quantas pessoas integravam cada grupo nem quantos moradores, se algum, haviam decidido permanecer na cidade. Em discurso ao Parlamento ucraniano nesta sexta-feira, o primeiro-ministro Sergiy Koretskyi afirmou que os moradores com destino à Ucrânia viajariam pela Rússia até Belarus, antes de entrar nas regiões de Kiev e Chernihiv. Lantratova, que apareceu ao lado de seu homólogo ucraniano, Dmytro Lubinets, afirmou que alimentos, produtos de higiene, suprimentos médicos e combustível estavam sendo entregues à cidade. Lubinets declarou que todos os que precisassem de ajuda seriam atendidos. "Chegamos a um acordo para ajudar os cidadãos que desejam viajar para a Ucrânia — eles terão a oportunidade de fazê-lo. Da mesma forma, haverá assistência disponível para aqueles que desejam viajar para a Federação Russa", afirmou. Em imagens divulgadas por Lubinets, moradores emocionados, alguns em lágrimas, receberam a delegação ucraniana. Oleshky, localizada às margens do rio Dnipro, em frente à cidade de Kherson, foi tomada pelas tropas russas nos primeiros dias da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. A cidade sofreu danos extensos e foi gravemente inundada após a destruição da grande barragem de Kakhovka, rio acima, em 2023. Moradores relataram experiências dramáticas de arriscar a própria vida ao percorrer estradas repletas de minas terrestres, uma delas conhecida como "estrada da morte", em busca de alimentos e água. Alguns afirmam ter sobrevivido com uma xícara de arroz ou trigo-sarraceno por dia, às vezes acompanhada de tomate, pepino ou plantas silvestres. O cessar-fogo entrou em vigor em Oleshky e na região de Kherson na terça-feira. "Esta é a primeira vez desde 2022 que um cessar-fogo é estabelecido em um trecho tão extenso da linha de frente e mantido por um período tão significativo", afirmou Lubinets. A chegada do comboio humanitário foi precedida por operações de remoção de minas, nas quais, segundo Lantratova, um especialista russo em desativação de explosivos e outra pessoa morreram. Ela afirmou que 25 ônibus estavam disponíveis para retirar os moradores, com transporte especial para pessoas acamadas, e que 50 profissionais de saúde estavam presentes. Havia até um ônibus equipado com gaiolas para animais de estimação, destinado aos moradores que desejassem levar seus bichos. O comissário ucraniano de direitos humanos, Dmytro Lubinets, e sua homóloga russa, Yana Lantratova, conversam com jornalistas antes de partir para Oleshky, onde participariam da retirada de moradores para uma área segura durante um cessar-fogo local Escritório do Ombudsman da Ucrânia via AP Sem previsão de acordo de paz A operação humanitária conjunta mostrou que os dois lados são capazes de trabalhar juntos apesar da intensidade da guerra, na qual ambos ampliaram os ataques aéreos de longo alcance neste ano, enquanto as linhas de frente permanecem praticamente estáticas. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que houve um "alto grau de coordenação" entre Lantratova e Lubinets. No entanto, questionado posteriormente por um repórter da televisão estatal se isso demonstrava que Rússia e Ucrânia poderiam chegar a acordos sobre outras questões, respondeu: "Esta é uma situação isolada, difícil de extrapolar para todo o processo de resolução do conflito neste momento." O papa Leão XIV pediu ao presidente russo, Vladimir Putin, durante uma conversa telefônica em 16 de outubro, que organizasse um cessar-fogo para permitir a entrada de alimentos e suprimentos em Oleshky. Três dias depois, voltou a tratar do assunto em uma conversa com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. No entanto, todas as partes atribuíram a Melania Trump o mérito pela concretização do acordo, e Moscou e Kiev elogiaram repetidamente seu envolvimento. A implementação bem-sucedida do acordo é importante para os dois lados, que procuram evitar desagradar ao presidente Donald Trump. Neste mês, Trump fechou um acordo com Putin sobre o fornecimento de diesel russo e intensificou as críticas a Zelensky. As negociações de paz mediadas pelos EUA devem ser retomadas no próximo mês, em Abu Dhabi, pela primeira vez desde fevereiro. A Rússia ainda espera que Trump pressione Kiev a aceitar um acordo que atenda a muitas das condições de Moscou, como o controle russo integral da região ucraniana de Donbass e a proibição da entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Kiev quer garantir a continuidade do compartilhamento de informações de inteligência pelos Estados Unidos, além de acesso pleno ao Starshield, sistema de comunicações no campo de batalha de Elon Musk que sofreu interrupções recentemente, e a manutenção do fornecimento de equipamentos militares americanos comprados por países europeus, incluindo mísseis interceptadores Patriot.
CryptoAlerta — análise de criptomoedas e mercado em tempo real