Lula ou Flávio Bolsonaro? Quem deve herdar os votos de Caiado, Cury e Renan

Os votos dos candidatos derrotados no primeiro turno da eleição presidencial estão divididos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo pesquisas divulgadas nesta semana. Embora Flávio tenha recebido o apoio de Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo), parte dos eleitores desses candidatos declara intenção de votar no petista. Já Renan Santos (Missão), que não apoiou nenhum dos finalistas, tem parte de seu eleitorado inclinada ao candidato do PL. Cientistas políticos ouvidos pelo Valor avaliam que a rejeição aos adversários e a identificação ideológica tendem a pesar mais na escolha do segundo turno do que as orientações dos candidatos derrotados. Apoios dos candidatos derrotados Terceiro colocado no primeiro turno, Augusto Cury recebeu 3.448.569 votos, o equivalente a 2,89% dos votos válidos. O escritor e psiquiatra declarou apoio a Flávio em 8 de outubro, quatro dias após a votação. Ronaldo Caiado, que terminou em quinto lugar, obteve 2.605.148 votos (2,18%) e anunciou apoio ao senador em 6 de outubro, durante evento em Goiânia, ao lado do próprio Flávio e dos governadores Daniel Vilela (MDB), de Goiás, e Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo. Renan Santos, quarto colocado, recebeu 2.675.887 votos (2,24%). Diferentemente de Cury e Caiado, o candidato do Missão decidiu não apoiar nenhum dos finalistas. Logo após o primeiro turno, criticou os dois adversários e afirmou que não faria campanha por nenhum deles. Já o Zema, sexto colocado, obteve 326.488 votos (0,27%) e se juntou a Cury e Caiado ao declarar apoio ao candidato do PL no segundo turno. O que mostram as pesquisas A pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira (21) aponta que 48% dos eleitores de Cury pretendem votar em Lula no segundo turno, enquanto 33% declaram voto em Flávio. Outros 16% dizem que votarão em branco, nulo ou não comparecerão às urnas, e 3% estão indecisos. Entre os eleitores de Caiado, 57% afirmam que votarão no senador, 21% no petista e 22% pretendem votar em branco, nulo ou se abster. No caso de Renan, 51% dos eleitores declaram voto em Flávio, ante 40% no levantamento anterior. Outros 25% pretendem votar em Lula, ante 14%, enquanto 24% afirmam que votarão em branco, nulo ou não comparecerão às urnas, percentual que era de 43% na semana anterior. A Quaest ouviu 2.154 pessoas entre 17 e 20 de outubro, com margem de erro geral de dois pontos percentuais. Zema não foi incluído nessa pesquisa. O levantamento Meio/Ideia, também divulgado na quarta-feira, mostra que 48,3% dos eleitores de Cury pretendem votar em Lula, 36,2% em Flávio e 15,5% em branco ou nulo. Entre os eleitores de Caiado, os percentuais são de 30,8% para o petista, 53,8% para o senador, 10,3% para branco ou nulo e 5,1% de indecisos. No eleitorado de Zema, 22,2% declaram voto em Lula e 77,8% em Flávio. Já entre os eleitores de Renan, 9,1% indicam voto no petista e 90,9% no candidato do PL. Considerando conjuntamente os eleitores dos quatro candidatos derrotados, o Meio/Ideia aponta 58,1% para Flávio, 31,8% para Lula e 8,8% de votos brancos ou nulos. O Datafolha, divulgado na semana passada, não detalhou os resultados individuais. Entre os eleitores dos candidatos derrotados, 46% declaram voto em Flávio, 27% em Lula, 23% em branco ou nulo e 5% estão indecisos. Rejeição e identificação ideológica Para a cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mayra Goulart, o apoio de um candidato derrotado não significa que seus eleitores seguirão automaticamente a orientação. Segundo ela, o comportamento é comum em eleições presidenciais e também ocorre quando governadores declaram apoio a candidatos à Presidência. "O candidato não tem controle sobre seus votos. Então, historicamente, essa coisa de o candidato declarou apoio ao outro candidato, isso não é transferido automaticamente", afirma Mayra. Mayra explica que os eleitores dos candidatos derrotados não formam um grupo homogêneo. Entre eles, há pessoas que rejeitam os dois principais campos políticos e outras que não desejam se comprometer ideologicamente. Na avaliação da professora, a polarização também levou parte do eleitorado a antecipar o chamado voto útil ainda no primeiro turno, reduzindo o espaço das demais candidaturas. "Essa é uma eleição em que o segundo turno já foi antecipado para o primeiro. Por isso que a gente vai ver mudanças pequenas para o segundo turno. Mas isso não significa que essas mudanças não sejam relevantes, na medida em que a eleição tá muito acirrada e que qualquer modificação pode alterar o seu resultado", diz. O professor de Ciência Política da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) Eduardo Grin também avalia que os apoios declarados pelos candidatos derrotados têm influência limitada sobre os eleitores. Ele distingue os interesses das lideranças partidárias, que podem envolver afinidade ideológica e perspectivas de participação no governo, das motivações individuais de quem votou nessas candidaturas. Segundo Grin, a rejeição ao adversário ganha importância no segundo turno, quando os eleitores deixam de ter outras alternativas de candidatura. Para ele, parte dos votos dados a Cury, Caiado, Renan e Zema no primeiro turno foi motivada justamente pela busca de opções fora da disputa entre Lula e o bolsonarismo. "Identidade ideológica mais rejeição são dois fatores não excludentes, eles se somam", afirma o professor, para quem o comportamento estratégico ganha força diante da necessidade de escolher entre apenas dois candidatos. O cientista político Paulo Ramirez, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), afirma que Cury atraiu parte de um eleitorado moderado e insatisfeito com a polarização, o que ajuda a explicar a parcela de seus votos que as pesquisas indicam estar migrando para Lula. Já Renan teria conquistado eleitores de direita críticos ao bolsonarismo, mas também marcados pela rejeição ao PT, fator que contribuiria para a transferência de parte de seus votos a Flávio. No caso de Caiado e Zema, o professor aponta que a maior identificação ideológica de seus eleitores com o campo da direita ajuda a explicar a preferência pelo candidato do PL, embora uma parcela também declare intenção de votar no petista.

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