A ajuda que o governo argentino prestou, segundo a imprensa do país, na fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos na terça-feira (27) ultrapassa a retórica ideológica e atinge diretamente a cooperação jurídica e internacional entre Brasil e Argentina, de acordo com Regiane Nitsch Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Esse tipo de atitude é visto pela diplomacia como quebra de confiança no estado vizinho. Não acredito que vai romper relações por isso, é um recurso muito extremo reservado a conflito armado, rupturas institucionais graves e nós temos dois países que compartilham cadeias produtivas muito profundas. O que eu vejo é um rebaixamento político das relações, sendo geridas em nível técnico e consular, canais burocráticos e suspendendo reuniões bilaterais de cúpula e visitas de Estado”, afirma a especialista em integração da América Latina. A inclusão da Argentina na rota de Flávio Bolsonaro expôs o governo Javier Milei a uma potencial nova crise com o Brasil. A oposição argentina reagiu com pedidos de informação, enquanto analistas divergiam sobre o alcance do envolvimento institucional do governo na operação e o custo dela para a para a relação com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o principal parceiro econômico na região. Flávio cruzou a fronteira em Puerto Iguazú, embarcou num jato de matrícula argentina e chegou a Miami, descumprindo decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que o proibiu de deixar o país. O governo de Javier Milei admite o ingresso, mas se cala sobre o apoio logístico e político. A professora também acredita que os impactos nas relações com o Equador devem ser mínimos, já que o governo de Daniel Noboa adota um discurso diplomático com o Palácio do Planalto. “O trânsito de uma aeronave particular para reabastecimento passa por regras internacionais de aviação civil. O Itamaraty até investiga se houve alguma ajuda do governo, mas comprovada que foi só uma escala técnica, o custo para as relações é mínimo”, diz. Questionada se outras iniciativas em bloco na região podem ser afetadas pelo conflito diplomático, como o Mercosul e o Escudo da Américas, a professora avalia os dois casos de maneira diferente. “A iniciativa do Escudo das Américas prevê a resposta bélica e alinhada a política externa dos EUA. O Brasil não aderiu ao formato proposto para evitar pressões, ele corre risco de ficar isolado já que provavelmente exista uma barreira para adesão a projetos regionais conduzidos pelo Brasil”, afirma. Porém, como a iniciativa do Escudo das Américas visa o combate ao narcotráfico, a professora acredita que não deve impactar outras áreas, como a econômica. “O Brasil responde por cerca da metade do PIB da região e metade do território, mantém interdependência comercial com a maioria dos países e uma diplomacia forte. Acho muito improvável um isolamento nesse sentido.” Para ela, o cenário é outro no Mercosul. Apesar de o órgão multilateral funcionar meio no “piloto automático” na visão dela, os outros países reconheceram a vitória eleitoral de Lula e estão alinhados ao Brasil. O quadro, ali, pode ser de isolamento da Casa Rosada. Com a reeleição do petista, a professora avalia que o cenário para o próximo mandato é de convivência mínima e compartimentada. “Temas ideológicos e de segurança continental ficam muito travados enquanto as relações econômicas e alfandegárias serão tocadas no pragmatismo técnico”. Presidente da Argentina, Javier Milei, fala durante a Conferência de Cidades Latino-Americanas da Americas Society/Council of the Americas, em Buenos Aires, Argentina, em 20 de agosto de 2026 Tomas Cuesta/Bloomberg
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