Reduzir as desigualdades no acesso à saúde não depende apenas de ampliar a quantidade de profissionais ou equipamentos disponíveis. Para o executivo Gustavo de Carvalho Meres, o desafio também está em organizar melhor os recursos existentes, coordenar os diferentes pontos da rede e utilizar informações para direcionar decisões de acordo com as necessidades de cada território. A questão ganha dimensão diante das diferenças na oferta de atenção especializada. O Ministério da Saúde aponta entre os principais desafios brasileiros as desigualdades regionais, a concentração de especialistas nos grandes centros e a fragmentação entre os níveis de atenção. Entre as oportunidades identificadas estão a coordenação do cuidado, a gestão da incorporação de tecnologias, a análise de dados e o uso de telessaúde. Para Meres, é justamente nessa combinação entre gestão, tecnologia e organização da rede que existe espaço para ampliar o acesso: "ampliar o acesso significa também reduzir a fragmentação do cuidado e utilizar a informação para tomar decisões mais rápidas, precisas e coordenadas", afirma. Gestão organiza recursos de acordo com as necessidades do território A descentralização da assistência exige mais do que levar serviços para regiões afastadas. É necessário identificar onde estão os vazios assistenciais, dimensionar a oferta de profissionais, organizar encaminhamentos e estabelecer fluxos entre atenção primária e especializada. O próprio Ministério da Saúde vem tratando essa reorganização como parte da política de atenção especializada. O Projeto Mais Médicos Especialistas, por exemplo, busca equilibrar a distribuição de especialistas e reduzir desigualdades regionais. Em agosto de 2026, cerca de 2 mil médicos permaneciam vinculados ao programa, dos quais 52% atuavam no interior. Nesse modelo, a gestão deixa de ser apenas uma atividade administrativa. Ela passa a determinar como profissionais, estruturas, recursos financeiros e informações são distribuídos e conectados para reduzir o tempo de espera e evitar que o paciente percorra caminhos desnecessários. "Quando uma informação clínica acompanha o paciente e chega ao profissional no momento adequado, a tecnologia deixa de ser apenas conveniência e passa a produzir eficiência, continuidade e segurança na assistência", avalia Meres. Tecnologia apoia decisões, mas não substitui a estratégia A tecnologia pode ampliar a capacidade de uma rede, especialmente em territórios onde a presença física de especialistas é limitada. Telessaúde, prontuários eletrônicos e ferramentas de análise de dados permitem compartilhar informações, apoiar profissionais e reduzir deslocamentos. O mercado também relaciona o uso de tecnologias digitais à descentralização da atenção especializada, destacando telessaúde, regulação informatizada e uso qualificado de dados como mecanismos para racionalizar fluxos e ampliar o alcance dos serviços. Para Meres, entretanto, o ganho não está na quantidade de ferramentas adotadas, mas na capacidade de incorporá-las a uma estratégia de operação. "O próximo estágio da transformação digital não será determinado pela quantidade de ferramentas disponíveis, mas pela capacidade de integrá-las", destaca o executivo. A mesma lógica se aplica à inteligência artificial. Sistemas capazes de analisar grandes volumes de informações podem apoiar decisões clínicas e administrativas, mas dependem de dados confiáveis, processos estruturados e governança. Sem esses elementos, a tecnologia pode acrescentar ferramentas à operação sem necessariamente resolver seus gargalos. Integração transforma gestão em continuidade do cuidado Em âmbito nacional, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) representa uma das iniciativas voltadas à integração das informações no sistema brasileiro. A política de saúde digital aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde em agosto de 2026 também estabelece como objetivos integrar dados clínicos, ampliar a telessaúde e melhorar a eficiência e o acesso aos serviços, com diretrizes aplicáveis à articulação entre os setores público e privado, especialmente quando há compartilhamento de informações e integração entre diferentes pontos da rede de atenção. Essa integração permite que a gestão tenha uma visão mais ampla da jornada do paciente e dos pontos de pressão da rede. Dados sobre demanda, filas, encaminhamentos e capacidade instalada podem orientar decisões sobre onde concentrar recursos e quais processos precisam ser reorganizados. Para o executivo Gustavo de Carvalho Meres, essa mudança redefine o próprio conceito de inovação na saúde: "A tecnologia tem pouco valor quando funciona de maneira isolada. O verdadeiro ganho acontece quando dados, profissionais e serviços conseguem se conectar para que o paciente não precise reiniciar sua jornada a cada novo atendimento", finaliza o especialista. A redução das desigualdades de acesso, portanto, passa por uma gestão capaz de enxergar o território, organizar a rede e usar a tecnologia como instrumento de coordenação. Mais do que descentralizar estruturas, trata-se de construir caminhos assistenciais nos quais os recursos disponíveis sejam utilizados de forma integrada e o paciente encontre menos barreiras entre a necessidade de cuidado e o atendimento.
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