Se não houver uma sinalização por parte do governo sobre ajustes nas contas públicas, os investidores podem passar a apostar em uma piora ainda mais intensa dos ativos brasileiros. É isso que dizem as estrategistas Ioana Zamfir e Sofia Palacios, do Morgan Stanley, em relatório enviado a clientes nesta segunda-feira (26). “É provável que o mercado retire rapidamente a maior parte — se não a totalidade — dos cerca de 130 pontos-base (1,3 ponto percentual) de cortes de juros que estavam precificados na parte curta da curva após o otimismo com o resultado do primeiro turno”, dizem, fazendo referência ao ajuste pós-segundo turno. No geral, elas apontam esperar um ajuste de pelo menos 300 pontos-base nas taxas dos contratos de DI, que deverá ocorrer em etapas. “A primeira etapa consistiria simplesmente em reverter a queda dos prêmios de risco fiscal observada após o primeiro turno. Estimamos que esse ajuste possa ser muito rápido, de aproximadamente 200 pontos-base ao longo de toda a curva, levando as taxas dos contratos de DI com vencimento em janeiro Depois disso, a segunda etapa envolveria a incorporação de um prêmio de risco fiscal aos preços dos ativos, explicam as estrategistas. “Estimamos que isso poderia implicar uma correção adicional de aproximadamente 100 pontos-base nas taxas de juros domésticas, levando os contratos de DI com vencimento em janeiro de 2029 a 15,50%.” No caso do câmbio, elas esperam que o dólar fique perto de R$ 5,50, uma vez que, com base em conversas delas com o mercado, a exposição favorável ao real foi apontada como a forma preferida de os investidores expressarem uma visão construtiva sobre o resultado eleitoral. Em um segundo momento, com mais prêmio de risco, o dólar pode ir para a faixa de R$ 5,60 a R$ 5,70. “A sazonalidade desfavorável ao real em novembro e dezembro, decorrente de saídas de recursos de empresas e pagamentos de dividendos, poderia intensificar a desvalorização da moeda brasileira”, acrescentam. Nestes níveis haveria dois caminhos: o de começar a ver luz no fim do túnel ou o de apostar numa piora ainda maior. “Os participantes do mercado podem começar a apostar em uma reversão do movimento de venda, especialmente se o novo governo começar a assumir compromissos com a consolidação fiscal nas próximas semanas”, dizem. Na leitura das estrategistas, se isso não acontecer, provavelmente se desenhará o cenário pessimista apresentado em análise pré-eleitoral, no qual elas definiram uma situação em que os preços dos ativos passam a incorporar os riscos de dominância fiscal. “Na nossa avaliação, esse cenário levaria o dólar/real a R$ 6,00, as taxas dos contratos de DI com vencimento em janeiro de 2029 a 16,50% e as taxas das NTN-Fs com vencimento em 2037 a 18,00%”, apontam. “Os preços de mercado começariam a incorporar a possibilidade de aumentos da taxa Selic, e uma intervenção do Banco Central do Brasil (BC) para estabilizar o real se tornaria mais provável.” No caso do mercado de ações, Nikolaj Lippmann, Julia Nogueira e Marcos Rios afirmam que, embora o cenário externo continue favorável, sustentado pelo forte apetite por mercados emergentes e pela elevada disposição dos investidores a assumir riscos, os desequilíbrios fiscais persistentes podem reduzir o investimento privado, enfraquecer o otimismo empresarial e pressionar as ‘valuations’ das ações. “Esperamos revisões limitadas nas estimativas agregadas de lucro das empresas brasileiras para 2027, mas vemos espaço significativo para uma contração dos múltiplos de valuation.” O cenário pessimista para as ações brasileiras aponta para o Ibovespa a 130 mil pontos em meados de 2027, equivalente a um múltiplo preço/lucro (P/L) de 6,2 vezes, em um cenário de deterioração contínua da política fiscal. “De modo geral, vemos riscos expressivos de queda para as ações brasileiras até o fim do ano, especialmente para os papéis de empresas mais expostas ao mercado doméstico.” “Embora acreditemos que a reação inicial do mercado provavelmente seja uma redução acentuada das posições de risco, o problema subjacente é muito mais profundo e reflete desequilíbrios macroeconômicos estruturais que estão se tornando cada vez mais difíceis de reverter.” Pixabay
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