FIIs, Fiagros e FIDCs ganham espaço em meio a recuo de debêntures

Em meio à piora do mercado de crédito privado, com queda nas emissões de debêntures corporativas e incentivadas, ganharam destaque no mercado de capitais neste ano fundos imobiliários, Fiagros e fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), além de ações. Segundo dados divulgados nesta terça-feira (20) pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as emissões de debêntures incentivadas recuaram 30,1% entre janeiro e setembro, de R$ 113,8 bilhões no mesmo período de 2025, para R$ 79,5 bilhões neste ano. Já as debêntures corporativas tradicionais recuaram de R$ 172,3 bilhões, para R$ 136,1 bilhões, queda de 21%. A crise no mercado de incentivadas começou com o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, que provocou um temor de contágio no setor e saques dos fundos de infraestrutura. Com o prolongamento dos resgates, os fundos começaram vender esses papéis para fazer frente aos pedidos, o que elevou os prêmios de risco e afetou os resultados dos investimentos. Para Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, o mercado deve se acomodar nos próximos meses. "Talvez não fique mais tão barato captar via debêntures incentivadas quanto esteve até o ano passado, e também não tão caro. Mas os fundos vão continuar existindo e captando. Esperamos recuperação", afirmou. "Não é a primeira vez que vemos janelas mais desafiadoras. O mercado vai se ajustar", completou César Mindof, diretor da entidade, em entrevista coletiva. Na direção contrária, as debêntures de securitização tiveram crescimento de 40,1%, com o volume emitido passando de R$ 32,5 bilhões para R$ 45,6 bilhões. Com isso, sua participação no total das emissões de debêntures aumentou de 10,2% para 17,5%. No total, o mercado de capitais brasileiro movimentou R$ 556,7 bilhões em ofertas entre janeiro e setembro de 2026, crescimento de 5,3% em relação aos R$ 528,8 bilhões registrados no mesmo período do ano passado. As emissões de renda fixa somaram R$ 441 bilhões, queda de 9,8% ante os R$ 489 bilhões captados nos nove primeiros meses de 2025. Ainda assim, responderam por 79,2% do volume total. Já os instrumentos híbridos, que incluem fundos de investimento imobiliário (FIIs) e fundos de investimento nas cadeias produtivas agroindustriais (Fiagros), mais que dobraram de tamanho, passando de R$ 35,7 bilhões para R$ 80,8 bilhões, alta de 126,3%. Maranhão destacou que a emissão de Cédulas de Produto Rural Financeira (CPR-F) cresceu 202%, de R$ 3,9 bilhões entre janeiro e setembro de 2025 para R$ 11,8 bilhões no mesmo período deste ano. "Não vemos redução do apetite para o agro, mas, sim, uma migração de instrumentos para captação no mercado", comentou. Para Mindof, as emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) caíram 62% no ano até setembro, na comparação com o mesmo período de 2025, o que reflete o momento difícil pelo qual o setor está passando. No entanto, frisou que é uma "queda controlada." "É uma queda expressiva, mas CPR-F e Fiagros estão assumindo o papel dos CRAs", comentou. As ofertas de cotas de fundos imobiliários alcançaram R$ 70,6 bilhões, mais que o dobro dos R$ 32,9 bilhões registrados um ano antes. O terceiro trimestre foi o mais forte do ano para esses fundos, com R$ 31,1 bilhões captados. Os Fiagros também avançaram, de R$ 2,7 bilhões para R$ 10,2 bilhões, crescimento de 274,7% no mesmo período. O crescimento das ofertas de fundos imobiliários também foi acompanhado por uma mudança no perfil dos investidores. Segundo a Anbima, a participação das pessoas físicas nas subscrições caiu de 32,3% no terceiro trimestre de 2025 para 21% no mesmo período deste ano. Em contrapartida, a fatia dos fundos de investimento aumentou de 39,6% para 42,2%. No acumulado de janeiro a setembro, os fundos subscreveram R$ 29,4 bilhões em cotas de FIIs, ante R$ 11 bilhões no mesmo período de 2025, enquanto o volume adquirido por pessoas físicas passou de R$ 13,4 bilhões para R$ 23,3 bilhões. Maranhão explica que essa mudança ocorreu porque o mercado teve um grande volume de operações que incluíram pagamento em cotas, tanto em operações de consolidação de fundos quanto na compra de ativos. Por exemplo, um fundo que adquire um galpão logístico pode pagar ao proprietário com cotas de valor equivalente em reais. O proprietário pode ir vendendo aos poucos essas cotas no mercado, se assim desejar, e converter o valor em dinheiro. O mesmo acontece na consolidação, quando um FII absorve outro FII. Os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) mantiveram a trajetória de expansão, com R$ 87,8 bilhões em ofertas, alta de 42,8% em relação aos R$ 61,5 bilhões do mesmo período de 2025. O número de operações passou de 778 para 865. No mercado de ações, a captação saltou de R$ 4,2 bilhões para R$ 34,8 bilhões, superando os volumes registrados em 2023, 2024 e 2025. Desse total, R$ 31,8 bilhões vieram de ofertas subsequentes de ações (follow-ons) e R$ 3 bilhões de ofertas públicas iniciais (IPOs). Já no mercado externo, as emissões de dívida de brasileiros somaram US$ 22,2 bilhões entre janeiro e setembro, queda de 22,6% em relação aos US$ 28,7 bilhões registrados no mesmo período de 2025, segundo a Anbima. A redução ocorreu principalmente nas captações das empresas, que recuaram de US$ 16,6 bilhões para US$ 9,9 bilhões, queda de 40,4%. As instituições financeiras também diminuíram suas emissões, de US$ 3,6 bilhões para US$ 2 bilhões. Na contramão, as emissões da União cresceram de US$ 8,5 bilhões para US$ 10,3 bilhões, alta de 21,2%. Com isso, a participação do governo federal no volume total captado no exterior subiu de 29,6% para 46,4%, enquanto a fatia das empresas caiu de 57,8% para 44,6%. "O mercado externo se consolidou como uma fonte de captação importante, com a República acessando mais", avaliou Maranhão. Pexels

CryptoAlerta — análise de criptomoedas e mercado em tempo real