Tânia Rêgo/Agência Brasil As economias latino-americanas, e o Brasil como a maior delas, vivem um paradoxo em relação aos países emergentes de Ásia e Europa. O investimento externo direto (IED) na região, impulsionador de exportações e de integração com as cadeias de produção globais, cujo estoque é de US$ 3 trilhões, soma 44% do PIB (46% no Brasil), uma fatia muito superior aos 25% dos emergentes da Ásia e 21% da Europa. Mas a expansão de seu comércio externo e suas ligações com as cadeias integradas de valor são baixas, bem inferiores às de seus congêneres em outros continentes. Uma das principais explicações é que as multinacionais que investem nesses países voltam-se mais para o mercado doméstico do que para ampliação das vendas externas. Ademais, a disseminação de suas vantagens produtivas, tecnológicas, gerenciais e logísticas para as empresas locais é pouco intensa, e não por sua responsabilidade, avalia um capítulo do Panorama da Economia Regional do Hemisfério Ocidental, do Fundo Monetário Internacional (FMI). A primeira constatação é que o volume de investimento externo direto por si só não determina o grau de integração comercial possível. Um bom motivo para isso é que boa parte dos investimentos concentra-se no setor primário, em agricultura e mineração. Este, no entanto, não é o caso do Brasil, onde há predominância de investimentos em serviços (quase 50%) e manufatura (pouco mais de 40%). A maior lacuna se dá exatamente na manufatura, exatamente onde deveria haver maior complementaridade entre investimento externo direto (IED), orientação exportadora e produção de bens comerciáveis, segundo os economistas do FMI. Além disso, a baixa capacidade de inovação, de absorção de tecnologia e de logística do comércio parecem estar por trás da maior parte da fraca resposta exportadora ao IED. As condições da economia doméstica conformam essa fraqueza. As multinacionais instaladas na região realizam 81% de suas vendas nos mercados domésticos — a proporção é ainda maior no Brasil e Argentina — , em comparação com 48% das asiáticas. “Se o IED ocorre para atender a demanda doméstica”, registra o documento, “ele pode substituir importações em vez de expandir o comércio”. Um relacionamento forte entre múltis, filiais e firmas domésticas necessita de redes de fornecedores confiáveis, logística eficiente, mão de obra capacitada, acesso financeiro eficaz e segurança jurídica. “Fragilidades nessas áreas limitarão a extensão pela qual o IED se traduzirá em fortes exportações”, aponta o FMI. A abertura comercial e de investimentos, segundo os economistas, influencia o volume e o tipo de recursos que são atraídos para o país: são o canal pelo qual fluem capitais, tecnologias, know-how gerencial e ligações com cadeias internacionais de produção. O ecossistema econômico doméstico, por outro lado, é determinante para que estes fluxos sejam convertidos em abastecimento doméstico, produtividade, exportações e crescimento. São duas as limitações: se o canal de comércio e investimentos é parcialmente fechado, parte do fluxo não alcança uso produtivo. Quando há restrições no ecossistema, o fluxo que chega não é totalmente aproveitado. Essa relação assume também outra forma. O IED propicia em geral maior fluxo de exportação e importação com o país de origem. E o fortalecimento desses laços comerciais, por outro lado, traz mais investimentos. Esses efeitos não são vigorosos nas economias latino-americanas. Um exercício contrafactual, em que as relações entre IED e exportações têm o mesmo peso que nas economias emergentes de Ásia e Europa, indicou que as exportações agregadas da região seriam 20% superiores, com os principais ganhos ocorrendo nos bens intermediários (vendas 54% maiores) e na manufatura pesada (mais 23%). Onde estão as maiores falhas que impedem que a manufatura traduza em exportações os investimentos produtivos vindos do exterior? Para o FMI, as fracas inovação e absorção de tecnologia fazem 30% da diferença em relação às demais emergentes, e a infraestrutura e a logística do comércio, 23%. No primeiro caso, firmas domésticas têm de ser capazes de “aprender, adotar e adaptar tecnologias e práticas de negócios das multinacionais”. Mas isso não é suficiente. Mesmo que façam tudo certo, custos dos transportes, atrasos aduaneiros e infraestrutura deficiente “enfraquecem a capacidade de participar de cadeias regionais e globais de valor”. As soluções para alguns desses problemas são conhecidas. Para os economistas do FMI, há políticas prioritárias. Uma delas é reduzir barreiras ao comércio, em especial de bens intermediários, tornar as regras de investimentos previsíveis, fazer amplo uso de acordos comerciais e reduzir os custos do comércio regional. Para o FMI o histórico de ganhos de produtividade na região é “cronicamente desapontador”, entre outras coisas pelo investimento insuficiente em capital físico e humano, adoção limitada de tecnologia e inovação e baixo dinamismo empresarial. Por isso, o crescimento do Brasil e o de seus vizinhos têm sido menor que o de outras regiões nos últimos anos.
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